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O mesário da Catalunha

Estudante descreve domingo de alegria e tensão que viveu no referendo de independência da região espanhola e aposta: a luta vai continuar


O estudante Marc Florenssa faz uma selfie na seção onde trabalhou como mesário: “Havia entusiasmo, pelo exercício da democracia”. Foto: Acervo pessoal

O primeiro domingo de outubro começou cedo para o estudante Marc Segura Florenssa. Ele madrugou para cumprir dever cívico, por uma nação que tenta existir oficialmente – a Catalunha. O estudante de 24 anos foi selecionado para presidir uma mesa de votação do explosivo referendo de independência da região espanhola, numa escola de Esparreguera, a “aldeia” onde nasceu e mora até hoje. Uma jornada que misturou alegria e tensão.

O povo da cidade fechava a porta e ficava defendendo o prédio, para os policiais não entrarem. Lá de dentro, não sabíamos muito bem o que acontecia. Por isso, foi muito tenso

Marc Florenssa
Estudante de arquitetura

Marc não chegou a apanhar da polícia do governo de Madri, mas precisou monitorar a movimentação na rua para salvar as cédulas, que aprovaram a independência por larga margem. “O povo da cidade fechava a porta e ficava defendendo o prédio, para os policiais não entrarem”, descreve, falando do Institut El Cairat, onde ele estava. “Lá de dentro, não sabíamos muito bem o que acontecia. Por isso, foi muito tenso”.

Uma parte dos 20 mil habitantes de Esparreguera, a 40 quilômetros de Barcelona, montou guarda pela causa do referendo. Marc supervisionou a votação, feita em cédulas de papel, escritas em espanhol, catalão e occitano (as duas últimas, línguas oficiais da Catalunha), onde as pessoas precisavam marcar simplesmente “sim” ou “não”. Metade dos 700 eleitores cadastrados apareceu. Por duas vezes, ele ficou trancado com as urnas – a última delas para que todos fossem reforçar o bloqueio à polícia em pontos abertos até mais tarde. A pequena cidade tinha três endereços para os habitantes expressarem sua preferência.

Temos outra cultura, outros hábitos. A Espanha não gosta da gente, não gosta que falemos nosso idioma

Marc Florenssa
Estudante de arquitetura

Apesar da preocupação, foi um domingo de alegria. O sol do início de outono e a temperatura amena serviram de combustível extra para o povo tomar as ruas, celebrando com música, comida e bebida a tentativa de independência. “Havia entusiasmo, pelo exercício da democracia”, conta Marc. “Quando terminou, ainda ficamos na porta do instituto, conversando sobre a experiência”.

Somente nesta segunda-feira, ao chegar à faculdade de Arquitetura em Barcelona, onde estuda, Marc soube de casos mais graves, como o de um professor que apanhou da polícia. A truculência produz ódio ao poder central. ”Estou com raiva do governo de Madri”, confessa o estudante. “Mandaram 7 mil soldados, que estavam em barcos no litoral. Não cometemos nenhum crime para merecer isso”. Ele comunga do sentimento da maioria na região, em relação à capital, animosidade que entende recíproca e generalizada. “Temos outra cultura, outros hábitos. A Espanha não gosta da gente, não gosta que falemos nosso idioma”, avalia, assumindo se sentir muito mais catalão do que espanhol.

Mas a mobilização em torno da secessão se alimenta de outros orgulhos da comunidade autônoma (nome técnico da região). “Somos o motor industrial e econômico do país”, argumenta. “Pagamos muitos impostos e recebemos muito pouco de volta, porque Madri reparte igualmente por todo o território. Não está correto. Tentamos melhorar essa relação, ganhar alguma autonomia, mas fomos rechaçados. Por isso, é melhor nos separarmos da Espanha”.

A firmeza nas palavras do estudante ratifica o clima na Catalunha, verificado nas reações pós-referendo. Até um dos símbolos mais preciosos para os nascidos por lá, o Barcelona, de Messi, Iniesta e Suárez, sofreu pesados questionamentos por ter jogado no seu estádio, o Camp Nou – ainda que de portões fechados –, pelo Campeonato Espanhol. Um dos astros da equipe, o zagueiro (catalão) Piquet, foi vaiado ao se apresentar à seleção espanhola, mostrando um país à flor da pele.

Marc ainda oferece outros argumentos, na defesa da independência. Barcelona, a capital da Catalunha, fica com a fama planetária e o apelo turístico, mas a região – responsável por aproximadamente 20% do PIB nacional mantém-se em razoável prosperidade social. Mérito que deveria ser mais compensador. “Chega de ficar pedindo autorização ao governo espanhol para tudo”, sustenta, garantindo ser um sentimento geral. “Muitos aqui se consideram espanhóis, mas querem a independência pela situação econômica”.

A cédula do referendo, em três línguas: catalão, espanhol e occitano. Foto: Reprodução

Marc passou um ano em intercâmbio no Brasil, viajou por várias regiões e constatou a desigualdade entre o Nordeste e o Sudeste, por exemplo, mas atribui às grandes distâncias a inexistência de movimentos separatistas. “Vocês formam um país muito diverso, mas o território extenso ameniza essa questão”, analisa. “É um cenário bem diferente do que temos aqui”.

O estudante prefere comparar a Catalunha à Escócia, em sua tentativa de se libertar do Reino Unido, e minimiza as críticas de que o referendo estaria na contramão do sonho de uma Europa unida. “Seremos um país pequeno, de gente trabalhadora e pacata”, aposta, sobre a região que tem 7,5 milhões de habitantes e o tamanho da Bélgica. “Nossa intenção não é criar mais fronteiras nem sair da Europa”.

Mesmo com a repressão policial e as retaliações do primeiro-ministro Mariano Rajoy, Marc Segura aposta que a luta pela independência sobreviverá. “Queremos decidir nosso destino, administrar o dinheiro que geramos, ter leis mais justas”, defende ele, que invoca o orgulho de se apresentar aos amigos (inclusive os do Brasil) como catalão. “É o que sou”.


Escrito por Aydano André Motta

Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Foi comentarista do canal Sportv. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”.

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