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A inspiração que vem da Catalunha

Movimentos separatistas ganham força e podem redesenhar os mapas de vários continentes


Partidário do movimento pró-independência carrega a bandeira da Catalunha no dia do plebiscito. Foto Jorge Guerrero/AFP
Partidário do movimento pró-independência carrega a bandeira da Catalunha no dia do plebiscito. Foto Jorge Guerrero/AFP

Ao tomarem as ruas com uma coragem que emocionou o mundo para votarem sua independência à revelia do governo de Madrid e resistirem à desproporcional repressão das forças de segurança, os catalães não apenas deram um passo crucial para delimitarem de forma definitiva suas fronteiras com a Espanha, como também podem deflagrar um processo internacional com potencial de redesenhar o mapa da Europa e de outros continentes. Se bem-sucedida, a independência da Catalunha poderá reacender adormecidos nacionalismos e fomentar outros nem tão adormecidos assim em um continente que é uma colcha de retalhos de identidades e de pleitos territoriais, e que passou na história recente por mudanças substanciais em sua divisão política após as duas grandes guerras mundiais e a Guerra Fria.

A independência da Catalunha poderá reacender adormecidos nacionalismos e fomentar outros nem tão adormecidos assim em um continente que é uma colcha de retalhos de identidades e de pleitos territoriais, e que passou na história recente por mudanças substanciais em sua divisão política após as duas grandes guerras mundiais e a Guerra Fria.

O medo de disseminação começa dentro da própria Espanha, que pode ter na separação de sua região mais rica apenas o começo e não o fim de um grande problema. Pelo menos outras três regiões reconhecidas pelo governo espanhol como de nacionalidades históricas e que frequentemente reivindicam mais autonomia – País Basco, Andaluzia e Galícia – podem se mobilizar de forma semelhante, o que aumentaria exponencialmente a tensão política e ameaçaria o território espanhol de retalhamento. O caso mais grave é o do País Basco, território cravado na fronteira com a França, onde o grupo separatista Eta atuou por mais de quatro décadas na luta armada pela independência, matando cerca de mil pessoas em seus ataques e sequestros. Em abril deste ano, o grupo anunciou ter concluído seu desarmamento, em um processo de distensão que começou em 2011. O eventual êxito catalão, contudo, já atiçou a imprensa nacionalista Basca e acendeu o alerta de autoridades e de analistas espanhóis e franceses, temerosos por um recrudescimento da violência.

Outros dois países europeus que olharam com preocupação para os acontecimentos na Catalunha foram Bélgica e Reino Unido. Um dos principais desafios do governo belga é o de manter a unicidade do país, dividido em duas grandes regiões étnicas: Flandres, a mais rica e de etnia e língua flamengas, e a Valônia, de maioria francesa. O governo de Bruxelas tem travado uma luta ferrenha com os separatistas flamengos, que exigem independência fiscal e maior autonomia de forma imediata. O principal anseio, contudo, é a separação definitiva e a consequente divisão da Bélgica, país sede da União Europeia. No Reino Unido, cuja integridade como nação encontra-se ameaçada desde a decisão de deixar a UE, os pleitos separatistas podem voltar a ganhar força na Escócia, na Irlanda e no País de Gales. Destes, o caso mais grave é o escocês. Desde o anúncio do Brexit, o governo da Escócia acena para Londres com a possibilidade de um novo referendo para decidir sobre a separação. O gesto é reforçado pela possibilidade do país, uma vez fora do Reino Unido, permanecer ou ser aceito pelo bloco europeu. Segundo analistas, se a Catalunha se tornar independente e for admitida na União Europeia, o que ainda é uma incógnita, é praticamente certa a realização de uma nova consulta popular entre os escoceses sobre a questão. Em Eslovênia e Romênia, que enfrentam ameaças separatistas de regiões majoritariamente habitadas por húngaros étnicos, a tensão política também pode aumentar.

O exemplo da Catalunha ainda deve respingar fora da Europa. Canadá, Iraque e até mesmo a nossa vizinha Bolívia podem sofrer com uma eventual onda internacional de movimentos separatistas. Mesmo proibido de realizar novos referendos, o Movimento pela Independência de Quebec, província canadense de origem francesa, nunca deixou de lado a campanha pela separação, aprovada pela maioria de seus eleitores segundo as últimas sondagens informais. O governo canadense, que em 2015 chegou a considerar o movimento morto após o principal líder separatista, o magnata da mídia Pierre Karl Péladeau ter abandoando a vida política, deu a entender esta semana em jornais locais que não vai tolerar o desrespeito às leis canadenses sobre referendos, numa clara alusão à desobediência da Catalunha às leis espanholas. Desde a década de 80, quando a língua francesa passou a ser oficial em conjunto com a inglesa na província, Quebec tem mais autonomia gerencial que as demais províncias canadenses, o que é alvo de protestos no restante do país.

Mural em Barcelona em favor do referendo para a emancipação da Catalunha. Foto Pau Barrena/AFP
Mural em Barcelona em favor do referendo para a emancipação da Catalunha. Foto Pau Barrena/AFP

No Iraque, a tensão que já está alta por conta do referendo para a independência da região autônoma do Curdistão, no norte do país, pode resultar em violência e até em massacres caso os separatistas insistam em levar a cabo o processo emancipatório. Resultados preliminares apontam que 90% dos eleitores que compareceram às urnas no dia 25 de setembro votaram sim pela independência. O governo iraquiano, por sua vez, afirma que o referendo é ilegal e que não será reconhecido. Os governos da Síria e do Irã também condenaram o pleito e a Turquia, temorosa de que um futuro país curdo tenha pretensões sobre seu território por conta do grande contingente de curdos que vivem no país, ameaçou coibir o processo de independência com o uso da força, se necessário for.    Os curdos são um dos maiores grupos étnicos do mundo sem um Estado próprio. Estima-se que 35 milhões estejam espalhados pela Turquia, Iraque, Irã e Síria. Embora haja muitas divergências internas entre eles devido a disputas entre diferentes clãs e partidos políticos, o nacionalismo fervoroso prevalece sobre essas linhas de divisão e as fronteiras nacionais.

Até mesmo na América do Sul, considerada uma das regiões com fronteiras mais estáveis do mundo, o entusiasmo de movimentos separatistas na Europa provoca apreensão das autoridades, e o principal foco de preocupação é a Bolívia. A Meia Lua boliviana, parte oriental do país que faz fronteira com o Brasil, formada pelos departamentos de Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija, realizou um referendo autonomista em 2008. Ele desencadeou uma crise política que terminou com o governador de Pando preso e, pelo menos dez paramilitares mortos, segundo o governo do presidente Evo Morales. A região, grande produtora de gás natural e petróleo, é responsável por mais de 70% do PIB da Bolívia e tem forte tradição separatista representada pelo movimento Nação Camba, grupo de direita com conotação racista contra as etnias indígenas do altiplano andino, onde ficam a capitais La Paz e Sucre.

O potencial explosivo do efeito Catalunha foi o principal fator que levou a União Europeia a se posicionar tardiamente contra a independência, apesar de o bloco ter condenado de pronto os atos de violência da polícia espanhola. Pressionada por países diretamente afetados pelo problema e ameaçada nos bastidores pela diplomacia espanhola, Bruxelas esta semana abandonou a postura ambígua e tenta a todo custo pôr panos quentes na questão. Nesta terça-feira, contudo, o presidente da região da Catalunha, Carles Puigdemont, ameaçado de ser destituído do cargo pela Justiça espanhola, anunciou que vai declarar independência de forma unilateral assim que todos os votos do referendo no exterior forem apurados, o que deve acontecer até o início da próxima semana. A crise com desdobramentos internacionais pode estar apenas começando.


Escrito por Leonardo Valente

Leonardo Valente

Doutor em Ciência Política, mestre em Relações Internacionais e jornalista. É professor, pesquisador e coordenador do curso de graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ).

5 posts

3 Comentários

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  1. Se condirmar a separação a tendência da Espnha é se fragmentar como se fragmentou a antiga Iuguslávia. E outros países do leste européu

    • Perfeito exemplo, Jorge. Hoje todos aqueles países, que representam pessoas (apenas estavam subjugados através da força a um governante), estão tranquilos.

  2. Não consigo entender o desespero com movimentos separatistas. Se existe um contingente de pessoas que querem formar um novo Estado, qual o problema? Quem estão desrespeitando? Se o novo país for uma porcaria econômica, basta atravessar a nova fronteira. Será uma maior concorrência dos Estados por cidadãos.

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