Brasil chega a COP16 ocupando trigésimo lugar em novo ranking de biodiversidade

Foto colorida de área de vegetação queimada pelo fogo no Pantanal

Para organizadores de lista, país precisa implementar políticas públicas para combater o declínio das populações e reduzir o risco de extinção de espécies

Por Bibiana Maia | ODS 14ODS 15
Publicada em 23 de outubro de 2024 - 09:15  -  Atualizada em 5 de novembro de 2024 - 09:47
Tempo de leitura: 8 min

Foto colorida de área de vegetação queimada pelo fogo no Pantanal
Área consumida pelo fogo no Pantanal; dados mostram que área queimada em 2024 no Brasil equivale ao território do Rio Grande do Sul (Foto Gustavo Basso via AFP – 22/10/2024)

O país mais biodiverso do mundo não está entre os dez mais bem colocados no Natural Conservancy Index (NCI). Na realidade, entre os 180 países avaliados, o Brasil ocupa a trigésima posição, com uma pontuação de 62.1. O índice aponta para desafios do país, que participa até a próxima semana da COP16, em Cali, na Colômbia. A conferência para biodiversidade acontece a cada dois anos e vai reunir lideranças de 197 países até o dia 2 de novembro. E, assim como outros 164 países, o Brasil não submeteu sua nova Estratégia e Plano de Ação Nacionais para a Biodiversidade (EPANB).

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O NCI teve sua primeira edição lançada este ano para avaliar mundialmente os esforços na conservação da biodiversidade. O ranking é uma colaboração entre a instituição israelense Ben-Gurion University of the Negev e o site BioDB. Quem lidera a lista é Luxemburgo e os únicos países do Sul Global entre os dez primeiros são o Zimbábue e a Costa Rica. A metodologia usada envolve 25 indicadores divididos por quatro pilares: gestão territorial, ameaças à biodiversidade, capacidade e governança, e tendências para o futuro. Esses indicadores vão de 0 a 100 e são baseados em dados públicos e pesquisas científicas.

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Desta forma, um país pode ter boas notas em indicadores como áreas protegidas e ainda assim ir mal em outra área relacionada, como legislação de conservação. Este é o caso do Brasil que tem 100 e 54 pontos em cada um dos indicadores, respectivamente. “Isto ajuda a reconhecer que ter áreas protegidas é importante, mas é igualmente importante ser capaz de cumprir as leis que fazem as áreas protegidas serem efetivas”, explica Alex Slavenko, um dos pesquisadores do NCI.

Este não é o único índice que rastreia como anda a conservação da biodiversidade no planeta. O Environmental Performance Index, da Universidade de Yale, na Inglaterra, tem a categoria “biodiversidade e habitat”, que é composta por 12 indicadores. Os dados de 2024 mostram algumas semelhanças e diferenças com o NCI. Luxemburgo continua entre os primeiros, atrás apenas de Botswana. O Zimbábue está distante, no 18º lugar, e a Costa Rica ainda mais longe do top dez, no 38º. O Brasil só aparece em 41º.

Desafios para conservar a biodiversidade

Segundo o NCI, o calcanhar de Aquiles do Brasil está no pilar de ameaças à biodiversidade. Para Slavenko, isto aponta para a necessidade de implementação de políticas públicas para a recuperação das espécies com o objetivo de combater o declínio das populações e reduzir o risco de extinção, sejam animais ou plantas. O pesquisador destaca o reino marinho, onde a pesca é superexplorada e está em colapso. Em terra firme, o principal problema é a perda de habitat, então a melhor estratégia é criar e garantir a efetividade das áreas protegidas.

Karen Oliveira, diretora de Políticas Públicas e Relações Governamentais da The Nature Conservancy Brasil (TNC), também avalia que no caso brasileiro é “fundamental aumentar a porcentagem de áreas protegidas, melhorando sua gestão”. Ela ainda afirma que é preciso aumentar a implementação de serviços baseados na natureza. Oliveira também reforça que existem dificuldades de o governo controlar os incêndios ilegais “que queimam, literalmente, os investimentos feitos na restauração, recuperação e proteção de áreas”.

O tópico ainda não faz parte do ranking do NCI.  Slavenko explica que depende de acesso a dados de qualidade para uma análise imparcial. “Especificamente, as questões de incêndios florestais e desmatamento são complicadas, pois também dependem dos habitats nativos de cada país – países em regiões áridas, ou em ecossistemas propensos e adaptados ao fogo, terão diferentes linhas de base do que é considerado sustentável. Então, isso ainda é um trabalho em andamento”.

Um cardume de peixes nada nas piscinas naturais de Moreré, na ilha de Boipeba, na Bahia. Pesca no Brasil vem sendo superexplorada e parte dela está em colapso. Foto Emmanuele Contini/NurPhoto via AFP
Um cardume de peixes nada nas piscinas naturais de Moreré, na ilha de Boipeba, na Bahia. Pesca no Brasil vem sendo superexplorada e parte dela está em colapso. Foto Emmanuele Contini/NurPhoto via AFP

Maioria dos países não apresentou suas metas

As áreas protegidas são uma estratégia do Kunming-Montreal Global Biodiversity Framework, ou Marco Global da Biodiversidade Kunming-Montreal, em português. Elas são citadas na meta três, para conservar 30% de áreas marinhas e terrestres. O documento foi adotado na COP 15, em 2022, após quatro anos de negociações, e tem quatro objetivos para 2050 e 23 metas para 2030. Com isso os países – ou, as partes – se comprometeram a estabelecer metas nacionais para cumpri-lo.

Na COP 16, o objetivo era fazer um balanço dessas metas. O problema é que apenas 32 submeteram até este domingo (20/10) suas National Biodiversity Strategies and Actions Plans (NBSAP) ou, em português, Estratégia e Plano de Ação Nacionais para a Biodiversidade (EPANBs). O Brasil não faz parte desse grupo. Na última quinta-feira, em evento para a imprensa, a secretária de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima Rita Mesquita defendeu que o processo tem desafios em um país continental e que não apresentar a EPANB na COP 16 não significa que o país não está trabalhando para implementar os compromissos que assumiu.

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Para a The Conservation Nature Brasil, houve um esforço do governo brasileiro em fazer um processo amplo de consulta pública para a EPANB, mas criticou a falta da entrega: “Faltou, porém, vontade política para concluir a nova Estratégia Nacional a tempo de ser apresentada na COP16 e, com isto, o Brasil perde a oportunidade de ser um protagonista nessa agenda”. Ela ainda explica que a implementação da EPANB vai demandar mudanças na legislação, o que pode ser um processo lento.

A EPANB é frequentemente comparada à National Determined Contribution (NDCs), traduzida como Contribuição Nacionalmente Determinada, das conferências do clima. As semelhanças entre as COPs não são à toa. Elas são reuniões de três convenções que têm sua origem no Brasil e são chamadas de “Convenções do Rio”, por terem surgido na Eco 92: a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a Convenção da Biodiversidade e a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação.

O embaixador André Corrêa do Lago declarou que chegou o momento em que as agendas de biodiversidade e clima precisam se complementar, durante evento com a imprensa, na quinta-feira. Ele lembrou que os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável também são fruto do Rio por surgirem na Rio+20 e frisou que a Cúpula do G20 este ano, que será no Rio, incluiu a discussão sobre bioeconomia: “Nós estamos assistindo a um retorno ao Rio a caminho de Belém”.

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Bibiana Maia

Jornalista formada pela PUC-Rio com MBA em Gestão de Negócios Sustentáveis pela UFF. Trabalhou no Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e nos jornais O Globo, Extra e Expresso. Atualmente é freelancer e colabora com reportagens para jornais e sites.

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