O câncer do desmatamento

Apesar de continuarem vergonhosamente altos, números do desmatamento na Amazônia vêm caindo há dez anos

Indicadores melhoram, mas persistem os conflitos de terras, o tráfico de drogas e armas, o garimpo ilegal e o enorme descaso de empresários e autoridades

Por Agostinho Vieira | Economia VerdeFlorestasODS 14ODS 7
Publicada em 15 de outubro de 2015 - 20:19  -  Atualizada em 2 de setembro de 2017 - 15:58
Tempo de leitura: 6 min

Apesar de continuarem vergonhosamente altos, números do desmatamento na Amazônia vêm caindo há dez anos
Apesar de continuarem vergonhosamente altos, números do desmatamento na Amazônia vêm caindo há dez anos

É como uma mamografia. A gente faz o exame e torce muito para que o resultado seja bom. A metáfora, feita pela ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, tenta explicar a ansiedade que antecede a divulgação anual dos dados sobre o desmatamento na Amazônia. A comparação com a doença parece exagerada, mas só até ela começar a relacionar os “tumores” envolvidos nesta história.

Este ano, apesar de todo o disse-me-disse que cercou o exame do paciente, o câncer amazônico voltou a regredir. O índice havia subido 29% no ano passado, depois de uma enorme sequência de quedas que começara em 2005. Agora voltou a cair 18%, passando de 5.891 km² para 4.848 km², o segundo menor da história. Izabella se recusa a comentar os dados da ONG Imazon que disse que o desmatamento estava aumentando. Em outubro, segundo eles, teria subido 467%.

Ela lembra apenas que o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), do Imazon, assim como o Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), não serve para fazer esse tipo de medição. O único realmente confiável é o Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal (Prodes), que também pertence ao Inpe, é reconhecido internacionalmente e acompanha a série histórica desde 1988.

Gostando do conteúdo? Nossas notícias também podem chegar no seu e-mail.

Veja o que já enviamos

A ministra nega que esteja faltando transparência e jura que só ficou sabendo do número oficial no dia em que ele foi divulgado. Então, por que os dados do Deter passarão a ser apresentados apenas de três em três meses? Em primeiro lugar porque não são precisos, argumenta. Eles funcionam como alerta para a fiscalização do Ibama, como indício. Mas a razão principal é que estavam servindo como arma para os bandidos, que fugiam antes da polícia federal e dos fiscais aparecerem.

Mas afinal, o que está por trás destes números? Quem são os responsáveis pela vegetação derrubada? É difícil falar em indústria do desmatamento como algo único e organizado. As causas são várias e vão desde o tráfico de drogas e armas até o garimpo, passando pelas madeireiras ilegais. Entre 25 investigadas no Pará este ano, 24 estavam em situação irregular.

Desde o final de 2011, quando houve um pico no desmatamento, o governo criou uma força tarefa envolvendo vários ministérios. Entre as armas utilizadas estão aviões não tripulados e programas de inteligência que acompanham a movimentação dos mateiros. Foi isso que permitiu a prisão recente de uma das maiores quadrilhas do Pará, pouco antes deles começarem a desmatar 140 km². Ela era liderada por Ezequiel Castanha, que está foragido, e já havia recebido 30 milhões em multas.

De todos os atores do desmatamento, os grileiros continuam sendo os mais relevantes. Eles invadem as áreas públicas, desmatam, vendem a madeira, ocupam com gado, conseguem títulos de propriedade falsos, esperam valorizar e vendem. O esquema envolve cartórios, políticos locais e fiscais corruptos. Aliás, o termo grileiros vem de grilos, insetos postos nas gavetas junto com os títulos de propriedade novos para que parecessem antigos e gastos.

Apesar da nova queda deste ano, o passivo do desmatamento ultrapassa a marca dos 750 mil km², 18,2% de toda a Amazônia. O projeto TerraClass, do Inpe,  identificou que mais de 60% deles são ocupados por cabeças de gado. A agricultura responde por menos de 10%. A boa notícia é que parte dessas terras foi abandonada e a vegetação vem crescendo novamente.  Só entre 2008 e 2012, foram 113 mil km² de florestas regeneradas. Uma área duas vezes e meia maior do que o total desmatado no mesmo período, que foi de 44 mil km².

Esta semana, em Lima, a ONU reconheceu o esforço brasileiro para reduzir o desmatamento. O país ganhou o aval da entidade para buscar uma compensação financeira internacional por ter evitado, entre 2005 e 2010, a emissão de 198 milhões de toneladas de gases de efeito estufa. O compromisso assumido pelo Brasil é de reduzir em 80%, até 2020, o desmatamento da Amazônia. Izabella Teixeira acredita que esse índice será alcançado em 2016.

Mas ela volta à metáfora do câncer para dizer que isso não revolve o problema. Temos células contaminadas em toda a região. O trabalho dos fiscais e da polícia tem que ser intensificado. É preciso que haja um envolvimento muito maior dos estados e dos municípios. Investir na regularização fundiária e, principalmente, buscar alternativas para a população pobre da região. A floresta de pé deve ser um ativo social, ambiental e econômico do Brasil.

*Coluna publicada, originalmente, no jornal O GLOBO, em dezembro de 2014.

Apoie o #Colabora.

Queremos seguir apostando em grandes reportagens, mostrando o Brasil invisível, que se esconde atrás de suas mazelas. Contamos com você para seguir investindo em um jornalismo independente e de qualidade.

Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. É um dos criadores do Projeto #Colabora.

Newsletter do #Colabora

A ansiedade climática e a busca por informação te fizeram chegar até aqui? Receba nossa newsletter e siga por dentro de tudo sobre sustentabilidade e direitos humanos. É de graça.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *