Pessoas com deficiência driblam barreiras para cursar pós-graduação no Brasil

Foto colorida de Ademar durante a edição de 2025 do Festival Acessa BH, em que atua como consultor há quatro anos. Ele é um homem branco, com barba e cabelo curto, grisalhos. Ele veste uma camiseta preta, onde está escrito Acessa BH e está com os dois braços levantados, na altura da cabeça
Foto colorida de Ademar durante a edição de 2025 do Festival Acessa BH, em que atua como consultor há quatro anos. Ele é um homem branco, com barba e cabelo curto, grisalhos. Ele veste uma camiseta preta, onde está escrito Acessa BH e está com os dois braços levantados, na altura da cabeça
Ademar durante a edição de 2025 do Festival Acessa BH, em que atua como consultor há quatro anos (Foto: Marlon de Paula)

Dados da CAPES de 2024 revelam que as pessoas com deficiência representam menos de 1% dos pós-graduandos do país

Por Thalia Gonçalves | Inclusão e Diversidade, ODS 4

Publicado em 28/09/2026 - 08h19

Tempo de leitura: 26 min

Em uma manhã de segunda-feira de junho, um pequeno grupo de estudantes de pós-graduação se reunia em frente ao Monumento de Tiradentes, em Ouro Preto (MG). Localizada a cerca de cem quilômetros de Belo Horizonte, capital do estado, a cidade é conhecida por manter suas características arquitetônicas do período colonial preservadas, como os casarões e as igrejas barrocas. 

Caminhar pelas ruas históricas da antiga Vila Rica pode ser um desafio, devido às ladeiras e morros íngremes e às pedras escorregadias. Mas, naquela manhã, as características geográficas e arquitetônicas não seriam um impedimento para que Cíntia Soares participasse da atividade. “Eu já tinha muito internalizado em mim que eu estaria presente”, conta.

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A visita técnica tinha como objetivo refletir como se deu a ditadura cívico-militar (1964-1985) na cidade, como parte da disciplina “Tessituras da Memória na Contemporaneidade”, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM), da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

Jornalista formada pela mesma instituição, a trajetória de Cíntia no Ensino Superior é marcada pela ruptura de barreiras: em 2018, foi a primeira pessoa com deficiência a cursar Jornalismo na Ufop e, neste ano, repetiu o pioneirismo ao ingressar no mestrado em Comunicação. 

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Natural de São Domingos do Prata (MG), foi com sua mãe, Célia Soares, que aprendeu a lutar pela garantia dos seus direitos e contra o capacitismo, especialmente, durante o período que morou em Belo Horizonte, a cerca de 150 km da sua cidade natal. 

Na época, acompanhavam as reuniões e discussões promovidas pela Secretaria Municipal de Educação, que tinha à frente a ex-Ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo. “Eu comecei a compreender o que estava sendo feito comigo: as violências, os direitos sendo retirados. Mas, ao mesmo tempo, eu não colocava um peso na minha deficiência. Ter paralisia cerebral para mim não era uma coisa de outro mundo, que me parava […]. O que eu tenho hoje, como pessoa com deficiência, é o que eu aprendi com a minha mãe. O resto eu estou constituindo agora”, afirma.

Romper barreiras

Junto com a sua mãe, Cíntia faz revolução. Em 2018, ao chegarem em Mariana (MG), cidade histórica a 115 km da capital mineira e que abriga o curso de Jornalismo da Ufop, elas trouxeram para dentro da universidade novas discussões ligadas à inclusão e acessibilidade das pessoas com deficiência no Ensino Superior. Ainda que o Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) já contasse com a estrutura necessária para garantir a acessibilidade física, como rampas de acesso e elevadores, foi a inserção de Cíntia na graduação que pautou, por exemplo, a necessidade da presença de um monitor de apoio para acompanhá-la nas atividades.

Mais do que isso, Cíntia proporcionou que as atividades das disciplinas também fossem trazidas para debate, como a de fotojornalismo. Para que ela pudesse fotografar, foi desenvolvido um mecanismo para que ela utilizasse a câmera fotográfica junto a um tripé, apoiado em seu colo e preso a sua cadeira de rodas. 

A acessibilidade não é apenas oferecer um serviço, mas criar condições para que todos possam participar plenamente da vida acadêmica

Ademar Alves Jr
Arquiteto e urbanista

“A partir disso, a gente pensou o telejornalismo para a pessoa com deficiência, que foi quando eu saí de trás das câmeras para ir para frente das câmeras. Então, aquele questionamento: ‘o meu corpo pode estar na frente das câmeras? Ele vai estar com uma cadeira de rodas ou sem cadeira?’ Começou a ser mudado ali também”, recorda.

Ingressar na pós-graduação foi uma perspectiva que ela foi construindo ao longo dos anos e que encarou de frente. “Não existe para mim esse medo, existe o processo”, ressalta. Ao retornar à Ufop para cursar o mestrado em Comunicação neste ano, mais uma vez, ela abriu o debate sobre a inserção e permanência da pessoa com deficiência no Ensino Superior ao apresentar a demanda de ter um acompanhante em sala de aula. 

“Eu mudei também a política de inclusão dentro do mestrado, por eu ser a primeira aluna do curso de Pós-Graduação em Comunicação [da Ufop] com deficiência. E, aí, vem de novo monitor dentro da pós-graduação, a presença da minha mãe, a discussão sobre inclusão, sobre a pessoa com deficiência na pós-graduação, onde a pessoa com deficiência pode chegar ou não”, conta. Atualmente, ela recebe o apoio de três monitores durante as atividades acadêmicas.

Dados da Ufop de junho de 2026 revelam que a instituição tem 1.997 pós-graduandos, distribuídos em 53 Programas de Pós-Graduação (PPGs), sendo que somente quatro são discentes com deficiências. De acordo com a universidade, por meio da Coordenadoria de Acessibilidade e Inclusão (Cain), são promovidas ações de inclusão como orientação pedagógica aos docentes, atendimento pedagógico aos alunos, produção e adaptação de materiais, disponibilização de monitores, acompanhantes, tradução e interpretação em Libras.

Além do suporte oferecido pela universidade, Cíntia também tem parceria com a Prefeitura de Ouro Preto, cidade vizinha onde mora e trabalha, que fornece o transporte para que ela possa participar das atividades do mestrado. 

Essas colaborações são essenciais para garantir o direito à educação, conforme previsto na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) que determina que cabe ao “poder público assegurar, criar, desenvolver, implementar, incentivar, acompanhar e avaliar […] [a] adoção de medidas individualizadas e coletivas em ambientes que maximizem o desenvolvimento acadêmico e social dos estudantes com deficiência, favorecendo o acesso, a permanência, a participação e a aprendizagem em instituições de ensino”. 

Foto colorida de Cintia Soares, usando equipamento de tripé adaptado. Ela aparece em primeiro plano, no canto direito da imagem. Ela é uma mulher branca, com cabelo preto e está segurando o tripé, sentada. Ao fundo, aparecem diversas pessoas desfocadas
Cíntia fotografando usando o equipamento adaptado; estudante ajudou a impulsionar discussões sobre acessibilidade na produção do jornalismo (Foto: Arquivo Pessoal)

Adaptações e permanência

A mestre e doutoranda em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Joyce Fernandes de Freitas, em sua dissertação de mestrado (2024), ao discutir sobre a implementação de políticas de ações afirmativas para pessoas com deficiência no stricto sensu das universidades federais brasileiras, destaca que “a promoção da inclusão de pessoas com deficiência na pós-graduação envolve a implementação de medidas que garantam não apenas o acesso, mas também a permanência e o sucesso acadêmico desse grupo. Isso inclui adaptações físicas, tecnológicas e pedagógicas, bem como o desenvolvimento de uma cultura institucional inclusiva”. 

Assim como Cíntia, a trajetória de Ademar Alves Jr. até a pós-graduação foi construída aos poucos. Formado em Arquitetura e Urbanismo e Cinema e Audiovisual pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e com quatro especializações pela mesma instituição, foi cursando uma delas, em “Culturas Urbanas, Mídia e Memória”, que decidiu prestar o processo seletivo para o mestrado em Comunicação Social da UFMG.

Nascido em Teófilo Otoni (MG) e criado em Itaobim, no Vale do Jequitinhonha Mineiro, Ademar é uma pessoa surda sinalizante que tem a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como primeira língua. Aos nove anos, mudou-se para Belo Horizonte, a mais de 670 km da cidade em que residia, para estudar em uma escola bilíngue para surdos. “Essa experiência marcou profundamente minha trajetória pessoal e acadêmica”, revela.

Em todo o seu percurso formativo no Ensino Superior, Ademar sempre teve o auxílio de intérpretes de Libras, que atuam em duplas. “Essa organização é importante porque a interpretação exige muita concentração e esforço, e a dupla garante a qualidade da comunicação ao longo das aulas, reuniões e eventos”, detalha. 

A presença desses profissionais é fundamental para garantir que pessoas surdas sinalizantes assistam às aulas, participem das atividades acadêmicas e desenvolvam seus trabalhos e pesquisas em condições de igualdade. Todavia, como defende Ademar, a inclusão também contempla atitudes. “É importante que professores, colegas e a própria universidade compreendam as especificidades linguísticas e culturais das pessoas surdas. A acessibilidade não é apenas oferecer um serviço, mas criar condições para que todos possam participar plenamente da vida acadêmica”, salienta.

Ademar ingressou na turma de 2025 do PPGCOM da UFMG, durante o primeiro ano do curso, a acessibilidade foi garantida nas atividades acadêmicas. Entretanto, neste ano, essa realidade mudou, devido à greve dos servidores técnico-administrativos em educação, incluindo os intérpretes de Libras, iniciada em 10 de março.

“Coincidentemente, esse também foi o início do semestre letivo do PPGCOM, quando acontecem as primeiras aulas, encontros com novos estudantes e reuniões com professores. Nesse período, eu fiquei sem intérpretes de Libras. Por causa disso, perdi algumas aulas, eventos e reuniões acadêmicas. Depois, a universidade passou a contratar intérpretes por meio de uma empresa terceirizada, e a acessibilidade foi sendo retomada aos poucos”, relata o discente da UFMG. 

Para o estudante, a paralisação demonstra que a inclusão não pode depender de situações temporárias ou instáveis e que a acessibilidade precisa ser contínua. “Essa experiência mostrou que a permanência de estudantes surdos na pós-graduação depende não apenas do acesso à universidade, mas também da continuidade das políticas de acessibilidade ao longo de toda a formação”, reforça. 

A greve dos servidores públicos da instituição chegou ao fim em 13 de julho, após o fim do período letivo. A UFMG foi questionada sobre o assunto, porém, não se manifestou.

Até 17 de julho deste ano, a instituição apresentava 10.110 pós-graduandos (mestrado acadêmico e profissional, doutorado e pós-doutorado), em 93 PPGs (contabilizados somente uma vez os que apresentam os dois níveis), sendo 70 discentes com deficiência. 

De acordo com a UFMG, a universidade dispõe do Núcleo de Acessibilidade e Inclusão (NAI), órgão institucional responsável por apoiar “as medidas necessárias ao atendimento específico de pessoas com deficiência nos processos seletivos e durante o percurso acadêmico”.

Inserção das pessoas com deficiência na pós-graduação

A pós-graduação stricto sensu é um tipo de ensino superior que compreende o mestrado e o doutorado, podendo ser do tipo acadêmico ou profissional, em que os alunos se especializam em determinada área do conhecimento. 

Ao considerar a importância desse nível de formação acadêmica para o desenvolvimento científico e tecnológico do país, Joyce de Freitas defende que “a inclusão de Pessoas com Deficiência no ambiente acadêmico é uma questão de justiça social e contribui significativamente para a diversidade e o enriquecimento das perspectivas nos ambientes acadêmicos e na produção do conhecimento científico”.

Dados mais recentes da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), disponibilizados na Plataforma Sucupira, sobre a pós-graduação stricto sensu revelam que, em 2024, o Brasil contava com 432.888 pós-graduandos em atuação, distribuídos em 7.235 cursos. Desse total, segundo informações enviadas à reportagem do #Colabora, 4.042 pós-graduandos eram pessoas com deficiência, o que equivale a menos de 1% do total. 

A gente está ocupando os espaços. O que a gente não pode fazer é querer voltar para trás, querer [se] esconder. […] [Tem gente que] fala que a inclusão não funciona. Eu sou prova que a inclusão funciona, desde que você esteja disposto e com aliados para lutar porque não é uma coisa fácil

Cintia Soares
Jornalista e mestranda em Comunicação

Percebe-se que a presença das pessoas com deficiência na pós-graduação está concentrada no mestrado, sendo que, em 2024, esse grupo era composto por 2.954 alunos (acadêmico e profissional). No mesmo ano, dos 91.833 discentes titulados, 868 eram pessoas com deficiência. Já o número de evasões, somados os casos de abandono e desligamento, foi de 15.393 discentes, incluindo 150 alunos com deficiência.

Embora publicize alguns dados sobre a pós-graduação stricto sensu, declarados anualmente pelos próprios PPGs na Plataforma Sucupira, a fundação do Ministério da Educação (MEC) disse, em nota, que informações consolidadas sobre pessoas com deficiência “ainda dependem de tratamento estatístico e da consolidação de novas bases institucionais”. 

Para suprir essa lacuna, foi instituído, por meio da Portaria nº 99/2024, o Censo da Pós-Graduação stricto sensu no Brasil. O objetivo é “realizar um mapeamento abrangente das condições e dos aspectos sociodemográficos de pós-graduandos, docentes e técnicos, além de coletar dados detalhados sobre os cursos autorizados pelo MEC”. A previsão é que os resultados sejam divulgados em novembro deste ano. A expectativa, de acordo a autarquia, é que os subsídios do estudo sejam utilizados para “formular futuras políticas públicas voltadas à permanência, inclusão e redução de assimetrias”.

À reportagem do #Colabora, via assessoria de imprensa, a CAPES forneceu alguns dados sobre a presença das pessoas com deficiência na pós-graduação stricto sensu no Brasil, que foram utilizados para calcular a proporção desse grupo entre os discentes no período de 2020 a 2024, conforme observados a seguir: 

Infográfico colorido com taxa de PcD na pós-graduação por gênero. Em uma linha laranja, o número de estudantes masculinos cresce de forma constante, ligeiramente superior ao número de estudantes do gênero feminino a partir de 2022
Infográfico com taxa de PcD na pós-graduação por gênero (Arte: Lucas Kist)

Durante o período analisado, a taxa de presença de pessoas com deficiência na pós-graduação era semelhante entre os gêneros até 2022. Em 2023, houve um aumento na taxa masculina, que não foi acompanhada pela feminina, mantendo a diferença em 2024.

Infográfico colorido que mostra a taxa de PcD por região. O detalhamento está no texto abaixo
Infográfico com taxa de PcD por região; região Norte ocupa primeira colocação em 2024 (Arte: Lucas Kist)

Em relação à distribuição geográfica, as regiões Norte, Centro-Oeste e Sul se revezaram nas três primeiras posições de região com maior taxa de pessoas com deficiência durante o período analisado. Além disso, Sudeste (37%) e Sul (28%) foram as regiões com os menores crescimentos percentuais, correspondendo a aproximadamente metade do avanço no Nordeste no período (71%). 

Entretanto, é preciso ressaltar que, considerando somente os números brutos, o Sudeste é a região com mais discentes com deficiência em todos os anos no intervalo considerado, apesar de ser uma das regiões com menor representatividade desse grupo.

Infográfico colorido com Taxa de evasão, comparação de PcD com pessoas sem deficiência. As duas linhas estão bem próximas, com maior crescimento de ambas em 2022
Infográfico que compara taxa de evasão de pessoas com e sem deficiência nos últimos anos (Arte: Lucas Kist)

No mesmo período, as taxas de evasão entre discentes com e sem deficiência apresentaram comportamentos semelhantes, exceto em 2023, quando as pessoas sem deficiência tiveram maior taxa de evasão.

É importante lembrar que, embora a Lei de Cotas para o ingresso nas universidades e instituições federais de ensino técnico de nível médio brasileiras seja de 2012 (Lei nº 12.711), somente em 2023 a legislação foi atualizada, por meio da Lei nº 14.723, para ampliar a política pública para a pós-graduação stricto sensu. 

Joyce de Freitas reforça em sua dissertação que “as políticas de ações afirmativas na pós-graduação para pessoas com deficiência desempenham um papel crucial na construção de uma sociedade mais inclusiva e igualitária. No entanto, é fundamental que essas políticas sejam constantemente avaliadas e ajustadas para garantir que estejam verdadeiramente cumprindo sua missão de criar oportunidades justas e acessíveis para todos os estudantes”. 

Como frisado pela pesquisadora, a averiguação do cumprimento da legislação é essencial para assegurar os direitos conquistados. Contudo, a CAPES, responsável por avaliar e acompanhar os cursos de pós-graduação do Brasil, não atua como órgão fiscalizador direto dos processos seletivos dos programas. “A definição e a implementação de ações afirmativas cabem a cada instituição de ensino superior, respeitando a legislação vigente e a autonomia didático-científica e administrativa garantida pelo artigo 207 da Constituição Federal. No entanto, o órgão atua de forma indutora por meio da Avaliação Quadrienal”, posicionou-se em nota. 

A respeito da avaliação quadrienal dos PPGs e se a falta de acessibilidade impacta a nota do programa, o órgão informou que para este ciclo avaliativo 2025-2028, “aspectos relacionados à equidade, diversidade, inclusão, ações afirmativas, políticas de permanência e acessibilidade (física, digital e pedagógica) foram incorporados de maneira mais estruturada nos instrumentos de avaliação”. Ainda, há a previsão que os PPGs descrevam as ações promovidas sobre o assunto, “incluindo políticas para grupos historicamente sub-representados, como pessoas com deficiência”.

“Além disso, os Documentos de Área e Fichas de Avaliação podem detalhar a forma como esses aspectos serão considerados em cada área. A avaliação, contudo, é realizada de forma global, considerando o conjunto de quesitos, itens e indicadores definidos nos instrumentos avaliativos. Assim, eventual impacto na nota do programa dependerá da análise da área de avaliação, no contexto do conjunto dos elementos avaliados”, completou.

Os desafios ainda são muitos…

Para Ademar, as políticas públicas de inclusão são essenciais para ampliar o acesso das pessoas com deficiência ao Ensino Superior e à pós-graduação, ainda que existam falhas e/ou questões burocráticas, especialmente nas universidades públicas, que geram inseguranças nos estudantes com deficiência. 

“Acho que é impossível existir uma acessibilidade 100% perfeita, porque sempre vão surgir novos desafios. O mais importante é que a universidade esteja disposta a ouvir os estudantes, buscar soluções e melhorar sempre que for necessário. Quando existe esse compromisso, a inclusão acontece de forma mais efetiva e as pessoas com deficiência têm mais condições de participar da vida acadêmica”, avalia o discente da UFMG ao apontar a permanência dos alunos com deficiência como a principal barreira.

Na perspectiva de Cintia, a inclusão da pessoa com deficiência na pós-graduação ainda está começando e com muitas barreiras ainda a serem quebradas. “Não é uma coisa concreta ainda, é um sonho que você tem que construir, mas sonhos são construídos, né? […] A gente está ocupando os espaços. O que a gente não pode fazer é querer voltar para trás, querer [se] esconder. […] [Tem gente que] fala que a inclusão não funciona. Eu sou prova que a inclusão funciona, desde que você esteja disposto e com aliados para lutar porque não é uma coisa fácil”, opina a mestranda da Ufop.

Até o momento, a visita técnica a Ouro Preto foi uma ocasião marcante e representativa para Cíntia na pós-graduação – de muitos outros que virão. Para que participasse da atividade, a universidade disponibilizou um veículo para que Cíntia, na companhia da sua mãe e sua monitora, realizasse o percurso. 

O próprio itinerário da atividade foi pensado pela professora responsável e pela guia da visita para contemplar pontos da cidade em que o carro poderia parar. “Foi a primeira vez que eu senti, de fato, que a instituição que eu estudo também me queria presente naquela atividade. Eu não ia precisar forçar a barra, né? […] Foi um momento em que a gente entendeu que a inclusão sai da sala de aula, sai da instituição, e vai pra rua”, afirma.

“Foi um dia que eu vou lembrar para sempre porque […] era tão raro ter essa oportunidade [durante a escola] que quando teve eu falei: ‘nossa, que bonito! Tinha que ser assim sempre’. Mas que bom que a Ufop está mudando essa perspectiva dentro de Ouro Preto e Mariana, para a gente poder fazer um Ensino Superior que preze pela inclusão, mas pela permanência do estudante também”, ressalta.

Para o futuro, o que Cíntia deseja é que mais pessoas com deficiência, assim como ela, possam ocupar o espaço na pós-graduação.

*Esta reportagem é resultado do trabalho final de Thalia Gonçalves, desenvolvido como etapa de conclusão do curso #Colabora com Inclusão e Diversidade 2026, realizado com fomento da Associação Saúva.

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Thalia Gonçalves

Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e mestranda em Comunicação e Regionalidades pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É mineira de Mariana e autora do livro-reportagem “Mãos que contam histórias: vida e obra de artesãos cachoeirenses”. Já colaborou para veículos como Folha de S. Paulo e #Colabora.

Thalia Gonçalves

Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e mestranda em Comunicação e Regionalidades pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É mineira de Mariana e autora do livro-reportagem “Mãos que contam histórias: vida e obra de artesãos cachoeirenses”. Já colaborou para veículos como Folha de S. Paulo e #Colabora.

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