Com redução no Brasil, perda mundial de florestas tropicais cai 36% em 2025

Combate a incêndio na floresta na Amazônia: Brasil impulsionou redução da perda de florestas tropicais no mundo (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

Apesar das boas notícias, pesquisadores alertam para o avanço dos incêndios florestais

Por Oscar Valporto | ODS 13ODS 15
Publicada em 29 de abril de 2026 - 00:45
Tempo de leitura: 8 min

Combate a incêndio na floresta na Amazônia: Brasil impulsionou redução da perda de florestas tropicais no mundo (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)
Combate a incêndio na floresta na Amazônia: Brasil impulsionou redução da perda de florestas tropicais no mundo (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

A perda de florestas tropicais caiu 36% em 2025 em relação ao recorde de 2024, de acordo com novos dados da Universidade de Maryland (EUA) divulgados nesta quarta (29/04) pelo World Resources Institute (WRI) e disponíveis na plataforma Global Forest Watch (GFW) e no Global Nature Watch.
Grande parte da redução global foi impulsionada pelo Brasil, onde está grande parte da Floresta Amazônica, a maior floresta tropical do mundo.

A redução na perda florestal do Brasil foi de 42,4%. “O progresso do Brasil mostra o que é possível quando a proteção das florestas é tratada como uma prioridade nacional”, disse Mirela Sandrini, diretora executiva do WRI Brasil.

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Os pesquisadores alertam, contudo, para o avanço dos incêndios florestais. “A paisagem do Brasil está se tornando mais inflamável, e o aumento do risco de incêndios significa que a fiscalização por si só não será suficiente. Proteger esses avanços exigirá ampliar a prevenção liderada pelas comunidades e construir uma economia que recompense as florestas em pé”, afirmou a dirigente da WRI.

De acordo com os dados, o Brasil perdeu em 2025 1,63 milhão de hectares (Mha) de florestas tropicais primárias (ou seja, as que ainda não foram significativamente alteradas pela ação humana). A área é equivalente a 2,8 vezes o território do Distrito Federal e contrasta com a perda de 2,83 Mha em 2024, o que representa uma redução total de 42,4%.

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Desse total, 65,2% foram ocasionados por incêndios e 34,8% ocorreram por motivos não associados a incêndios, como desmatamento e conversão de áreas naturais. Os números indicam a menor perda já registrada no Brasil desde o início da série histórica, em 2002.

Os estados que registraram maior queda no índice de perdas de florestas primárias foram o Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Acre, Roraima, todos com redução acima de 40%. Na contramão estão o Maranhão, que registrou aumento na perda florestal, e Rondônia, que permaneceu com um índice considerado elevado (215 mil hectares).

A queda coincide com o fortalecimento de políticas ambientais e da fiscalização, incluindo o relançamento do plano federal de combate ao desmatamento (PPCDAm) e o aumento das penalidades para crimes ambientais. “Poucos países têm tantas oportunidades para fazer uma transição para uma economia de baixo carbono quanto o Brasil”, explica Mirela Sandrini, do WRI Brasil. “Agora, o país precisa avançar na implementação de mecanismos para financiar a proteção da natureza, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) e os mecanismos de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA)”.

De acordo com o estudo a Amazônia (queda de 41% na perda de florestas) e o Pantanal (- 70%) foram os biomas brasileiros que apresentaram os maiores declínios. O Cerrado teve uma redução de 12%, enquanto a Mata Atlântica e o Pampa diminuíram 6% e 5%, respectivamente. A Caatinga manteve-se estável, com um aumento de 2%.

Perda de florestas pelo mundo

Em 2025, o mundo perdeu 4,3 milhões de hectares (Mha) de floresta tropical primária — uma área aproximadamente do tamanho da Dinamarca. Apesar da queda, a perda ainda é 46% maior do que há uma década, com florestas primárias desaparecendo a uma taxa de 11 campos de futebol por minuto. “A redução na perda floresta da magnitude registrada em 2025 é algo animador — e demonstra o que ações governamentais decisivas podem alcançar”, afirmou a pesquisadora Elizabeth Goldman, codiretora do Global Forest Watch, do World Resources Institute.

A ambientalista, porém, alerta sobre a ameaça de multiplicação dos incêndios florestais. “Parte dessa queda reflete uma trégua após um ano extremo de incêndios. Fogo e mudanças climáticas se retroalimentam e, com a previsão do El Niño para 2026, investimentos em prevenção e no enfrentamento à essa questão serão essenciais à medida que condições extremas propícias a incêndios se tornem a norma”. destacou Goldman.

Mesmo considerando os avanços recentes, a perda global de florestas ainda está muito acima do nível necessário para cumprir a meta de 2030 de interromper e reverter o desmatamento — compromisso assumido por mais de 140 países na Declaração de Líderes de Glasgow. Os níveis atuais estão cerca de 70% acima do desejado.

Os pesquisadores apontam que políticas públicas eficientes estão desacelerando a perda florestal em importantes países tropicais, citando os casos de Brasil, Indonésia, Malásia e Colômbia, mas alertam que “existem também forças econômicas e ambientais, como as mudanças climáticas, que podem dificultar a sustentabilidade do declínio”.

De acordo com o estudo, a expansão da produção de commodities vem impulsionando a perda florestal na América Latina e no Sudeste Asiático, citando a criação mista de gado e soja na Bolívia, cacau e palma de óleo no Peru, seringais no Laos.

O estudo destaca que as florestas tropicais primárias são vitais para a estabilidade climática, a biodiversidade e para milhões de pessoas que dependem delas para alimentação, renda e proteção contra eventos climáticos extremos. Sua perda libera grandes quantidades de carbono e enfraquece uma das defesas naturais mais importantes do planeta contra as mudanças climáticas.

Alcançar as metas globais dependerá de liderança política contínua, investimentos e da implementação eficaz de instrumentos como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) e a regulamentação europeia contra o desmatamento (EUDR). “O progresso observado em países como Brasil e Colômbia é encorajador — mas ainda incerto”, afirma Rod Taylor, diretor global de florestas do WRI. “São exemplos do que pode ser feito, mas também lembram o quanto o futuro das florestas depende de vontade política e resiliência diante das mudanças climáticas”.

Para os pesquisadores, o ano de 2026 será decisivo — com a possível intensificação do El Niño aumentando o risco de incêndios e eleições nacionais em países-chaves que podem influenciar a continuidade desse progresso na redução das perdas florestais. O documento conclui enfatizando a necessidade de “dissociação da produção de commodities do desmatamento, do aumento de investimentos na prevenção de incêndios, maior apoio financeiro à proteção e restauração florestal, apoio contínuo aos povos indígenas e comunidades locais”.

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Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

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