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Mulheres formam redes de apoio na internet

Grupos ajudam a combater a violência, a arrumar emprego e até nas festas de aniversário dos filhos

Mulheres se unem em grupos de apoio formados na internet. Foto: Martin Barraud / NEW / Science Photo Library

Júlia teve ajuda para tirar de casa o marido que a ameaçava e agredia. Fernanda contou com uma vaquinha para o aniversário de 4 anos da filha. Janaína se sente à vontade para falar sobre suas dores sem medo de julgamentos. Se uma das críticas ao uso das redes sociais é o distanciamento da vida “real”, existe ao menos um lugar onde esses dois mundos estão diretamente ligados: as chamadas redes de mulheres, que funcionam especialmente no Facebook. Baseadas no conceito de sororidade — irmandade entre mulheres —, elas apoiam umas às outras das mais diversas formas, fazendo valer o lema: “uma por todas e todas por uma”.

Precisava de uma rede que me incentivasse no dia a dia e pela qual eu pudesse estar em contato com outras mulheres. Via que, quando eu perguntava algo na rede, eram homens que respondiam, e, quando as moças respondiam, elas eram engolidas junto comigo

Palmira da Costa
Historiadora

Historiadora e especialista em cheiros, Palmira Margarida Ribeiro da Costa, 34 anos, criou o grupo Deusas, Loucas, Feiticeiras, em 2014. “Precisava de uma rede que me incentivasse no dia a dia e pela qual eu pudesse estar em contato com outras mulheres. Via que, quando eu perguntava algo na rede, eram homens que respondiam, e, quando as moças respondiam, elas eram engolidas junto comigo”, lembra ela. Hoje, conta com 337 integrantes e quem quiser se candidatar a participar precisa ser indicada por alguma integrante e preencher um questionário. “No início, entrava quem pedisse. Com o tempo, fomos pegando casos muito graves lá dentro, e resolvi que o grupo deveria ser secreto, para a nossa segurança. Já fizemos muita coisa importante juntas. Já salvamos mulher em risco de vida, ajudamos outras em estado deplorável e que hoje estão bem, deram a volta por cima. Também fazemos muito networking”, explica Palmira.

O Deusas, Loucas, Feiticeiras nasceu em 2014 e já tem mais de 300 participantes. Foto Kamille Viola
O Deusas, Loucas, Feiticeiras nasceu em 2014 e já tem mais de 300 participantes. Foto Mayra Vaz

A professora Júlia (*nome fictício), 32 anos, foi uma dessas. Ela entrou no Deusas em abril de 2016 por indicação de uma prima. Com uma bebê de pouco mais de um mês em casa, sofria com o comportamento agressivo do marido direcionado a ela e à filha. “Eu contei no grupo, e as integrantes me incentivaram a ir à delegacia, que já era caso da Lei Maria da Penha. Várias mulheres se colocaram à disposição para ir lá em casa me conhecer, passar o dia comigo, ou para que eu fosse na casa delas. Inclusive havia advogadas no grupo que me ofereceram ajuda, se eu quisesse”, revela ela, que se separou logo em seguida. “Foi essencial, fundamental ter acolhimento das meninas. Nossa, me levantava! Quando eu ficava triste, fazia uma postagem. As que tinham meu celular sempre mantinham contato. Não cheguei a entrar em depressão por causa do acolhimento. O grupo me deu força para que eu resolvesse as questões com ele e mostrava que eu não podia aceitar aquela situação”, conta Júlia.

A estudante de Rádio e TV Guinevere Gaspari, 27 anos, é uma das administradoras do Minas da Eco, formado por alunas e ex-alunas da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com 840 integrantes. Criado em junho de 2015, o grupo surgiu a partir de um maior, que reunia homens e mulheres do curso. “Constantemente, tínhamos discussões no grupão envolvendo casos de machismo. O Minas surgiu logo após uma dessas discussões, que cobrava um posicionamento da Atlética em um caso de opressão ocorrido nos JUCS [Jogos Universitários de Comunicação Social] daquele ano”, lembra Guinevere.

Por ali, as situações também são as mais diversas. “Já houve denúncias sobre homens abusadores que são do nosso convívio; apoio financeiro (tanto diretamente, no modelo de vaquinha, como indiretamente, na ajuda de obtenção de emprego, por exemplo) e emocional. Ajuda para que algumas delas se livrassem de relacionamentos abusivos, por exemplo. Acho que, de uma maneira geral, o grupo sabe como acolher as demandas das mulheres dali”, exemplifica Guinevere.

Eu caí de paraquedas na UFRJ. Fui pela primeira vez na Zona Sul por causa da faculdade, sabe? Eu precisava desse apoio. A primeira ajuda significativa que elas me deram foi com uma vaquinha para pagar a passagem

Fernanda Alves
Estudante

Fernanda Alves, 21, estudante do 4º período, conta que o grupo foi determinante para sua adaptação à faculdade. Cotista, moradora de Mesquita, na Baixada Fluminense, e mãe de uma menina de 4 anos, ela diz que as colegas são suas madrinhas. “Eu caí de paraquedas na UFRJ. Fui pela primeira vez na Zona Sul por causa da faculdade, sabe? Eu precisava desse apoio. A primeira ajuda significativa que elas me deram foi com uma vaquinha para pagar a passagem, dentre várias outras coisas. Acho que a maior de todas foi a festa de 4 anos da Luiza, minha filha. Eu estava toda enrolada, não tive grana suficiente para fazer, e o pai dela não deu a parte dele. As meninas do grupo depositaram dinheiro, cada uma deu um pouco. Consegui fazer a festa e ainda comprar material escolar para ela”, comemora Fernanda. “Além do apoio psicológico, que sempre foi muito importante. Quando eu estava desabando e não tinha ninguém para conversar, de madrugada, chorando, postava no grupo e logo recebia muitos comentários me incentivando. No dia seguinte, as meninas vinham falar comigo na faculdade. O Minas da Eco me abraçou desde sempre, eu só tenho a agradecer”, diz.

Nany e Janaína criaram um espaço para discutir as questões das mulheres negras. Foto Kamille Viola
Nany e Janaína criaram um espaço para discutir as questões das mulheres negras. Foto arquivo pessoal

A psicóloga Fabiane Vieira de Souza, a Nany, 37 anos, e a educadora Janaina Portella, 36, sentiam falta de um espaço onde pudessem trocar sobre questões relativas às mulheres negras. Em junho de 2016, surgia o Espelho de Preta, hoje com 31 integrantes. “Minha hipótese, e foi o que nos levou a criar o grupo, é que mulher preta não consegue abandonar por muito tempo o perfil de guerreira, não se dá ao direito de ser frágil muito tempo. Porque, de uma forma ou de outra, a vida vai te exigir armaduras”, analisa Fabiane. “Vemos nossas mães, irmãs, amigas adoecendo por não conseguirem nem perceber suas dores, porque, em todas as estatísticas, estamos entre os piores escores, [somos] as que mais sofrem com a violência doméstica, as que mais veem seus filhos e filhas morrerem vitimados por causas não naturais, porque nosso fenótipo foi e ainda é ridicularizado pelo mundo dos cosméticos com aqueles ‘antes e depois’, somos satirizadas por humoristas, porque nosso cabelo ainda é fantasia de carnaval e por tantas outras coisas que nos faz sermos vistas não como pessoas, mas como um personagem, e isso está diretamente relacionado a outra questão, que é a solidão da mulher negra. Essa posição na base da pirâmide social nos coloca num lugar de vulnerabilidade, mas, ao mesmo tempo, são tantas demandas urgentes que ficamos sem tempo de olhar para essas dores, porque são feridas muito profundas. Mal curamos uma coisa e lá vem outro golpe, e aí acabamos implicadas na luta, ativismo, e deixamos o subjetivo para lá”, pondera.

Para Janaina, ter um espaço para expor suas fragilidades faz com que se sinta fortalecida. “Acredito que o grupo anda na contramão não só do Facebook, como da dinâmica da vida. Uma vida em que as pessoas se sentem na obrigação de mostrarem como estão ‘bem e felizes’. No grupo, sinto que isso não existe, falamos sobre nossas dores abertamente, pedimos ajuda quando a necessidade da alma grita. É um espaço de ser quem é. Sem medo de julgamentos – mesmo que eles existam, ainda assim temos o direito de ser. E esse cuidado com o universo da outra é extremamente feminino, é sagrado, é mágico”, elogia.

As Minas da Eco: muito apoio em todos os momentos. Foto Selfie
As Minas da Eco fazem uma selfie: muito apoio em todos os momentos

Escrito por Kamille Viola

Kamille Viola

Carioca da Tijuca e jornalista formada pela Escola de Comunicação da UFRJ. Trabalhou no jornal O Dia, por onde ganhou o Prêmio Imprensa Embratel em 2009 e o Prêmio Petrobras de Jornalismo em 2014. Também escreveu as revistas Bizz e Billboard. Atualmente, é colaboradora do site Women and Girls Hub, do site e da revista da União Brasileira de Compositores (UBC) e faz pesquisa e produção musical da série Show Mambembe, do Canal Futura. Está escrevendo a biografia autorizada de Martinho da Vila.

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