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As ovelhas entraram no jogo

Autora de livro sobre religião e política diz que o Brasil terá mais de um candidato com viés religioso em 2018

Para a professora Christina Vital, vários fatores influenciaram na vitória de Marcelo Crivella no Rio e não apenas o fato de ele ser evangélico. Foto Yosuyoshi Chiba/AFP
Para a professora Christina Vital, vários fatores influenciaram na vitória de Marcelo Crivella no Rio e não apenas o fato de ele ser evangélico. Foto Yosuyoshi Chiba/AFP

O ano de 2014 foi um divisor de águas. Foi ali que, nas palavras de Robson Rodovalho, Bispo da Igreja Sara Nossa Terra, os evangélicos deixaram de ser um número na estatística de votos apurados para serem negociadores, com um forte poder de barganha. Ou, dito de outra maneira, “as ovelhas iam se transformar em players”. Coincidência ou não, naquele ano houve um aumento considerável nas candidaturas com viés religioso, e não apenas entre os protestantes: 40% mais pastores e 15% mais padres.

Nas eleições de 2014, se candidataram 40% mais pastores e 15% mais padres. E o efeito disso foi a eleição da maior Frente Parlamentar Evangélica da história.

Christina Vital
Socióloga

Para a professora e pesquisadora Christina Vital, do Departamento de Sociologia da UFF, esse avanço da religião sobre a política está apenas começando. Autora do livro “Religião e política: medos sociais, extremismo religioso e as eleições de 2014”, Christina considera praticamente certa a presença de um representante do setor na campanha presidencial de 2018. E o candidato mais provável tem nome e sobrenome: Jair Bolsonaro, que foi batizado pelo Pastor Everaldo, padrinho tanto do deputado quanto de Eduardo Cunha (ex-presidente da Câmara dos Deputados) na Assembleia de Deus.

O livro, que será lançado nesta quarta-feira (22 de março), analisa as estratégias políticas dos evangélicos e tem como ponto de partida uma pesquisa feita em parceria pela UFF, o Iser e a Fundação Heinrich Boll. O foco foi a primeira candidatura confessional evangélica à Presidência da República, do Pastor Everaldo (PSC). Se, até então, a bibliografia especializada e as próprias lideranças evangélicas apresentavam como estratégia a manutenção de sua força nos legislativos estaduais e federal, as eleições 2014 mostraram um passo diferente, provocando especulações e temores.

Analistas políticos estimavam uma votação em torno de 8% a 10%, mas ele amargou apenas um quinto lugar, com 0,76% dos votos. “Acompanhar o processo eleitoral foi muito instrutivo sobre os acontecimentos que se desenrolaram de 2015 até aqui”, comenta a professora Christina Vital, que concedeu entrevista ao #Colabora. O livro foi escrito em coautoria com os professores Paulo Victor Leite Lopes e Janayna Lui. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

Christina Vital é professora e pesquisadora do Departamento de Sociologia da UFF. Foto Arthur Custódio
Christina Vital é professora e pesquisadora do Departamento de Sociologia da UFF. Foto Arthur Custódio

#Colabora – Como relacionar o tema do livro com a vitoriosa campanha de Crivella à prefeitura do Rio?

 Christina Vital – Em 2014, destaca-se a propositura da primeira candidatura confessional evangélica à Presidência da República. Expressava a tentativa de reunir em torno de um só nome todos os evangélicos, apresentando esta como a candidatura capaz de representar os valores tradicionais e cristãos que consolidaram a nossa cultura secular. De modo ostensivo, lideranças evangélicas foram à mídia e aos políticos dizer que a partir daquele momento os evangélicos passariam de “ovelhas a players”. De “número de votos” para os políticos nas eleições, os evangélicos passariam a ser negociadores, segundo declaração de Robson Rodovalho, Bispo da Igreja Sara Nossa Terra. Outra estratégia clara que se consolidava ali – e que vimos na campanha de Marcelo Crivella para prefeito do Rio – foi a de reunir líderes religiosos em torno de candidaturas evangélicas aos executivos. A partir de 2014 consolidou-se a importância de evangélicos se lançarem em candidaturas para os executivos e, sempre que possível, explicitando sua vinculação religiosa e lugar na hierarquia de igrejas, usando isso como capital na disputa.

É muitíssimo provável que tenhamos mais de um candidato declaradamente religioso concorrendo ao pleito em 2018…Quem estava na vez era o Jair Bolsonaro, que é da Assembleia de Deus e foi batizado pelo Pastor Everaldo

Christina Vital
Socióloga

#Colabora – A campanha de Crivella fez parte deste movimento de candidaturas religiosas?

 Christina Vital – Crivella não ganhou as eleições por ser evangélico, mas por um conjunto de fatores. Ele fez alianças com amplos setores da sociedade: do sindicato de mototaxistas aos empresários do turismo. Em segundo lugar, podemos destacar o perfil de esquerda do candidato opositor, Marcelo Freixo. A esquerda vem sofrendo com críticas severas no Brasil e no mundo. Um sentimento difuso de desconfiança pairava sobre a capacidade de gestão de Freixo. Crivella falava para cada eleitor a partir de uma técnica que privilegiava a atenção ao sofrimento e a promessa de remissão desses males. Para todos que moram e/ou conhecem a vida em favelas e periferias é fácil entender a força deste meio de contato porque estas pessoas sentem-se esquecidas, abandonadas. Diríamos que são as vítimas deste serviço público ineficiente. E Crivella falava em tirar as pessoas destas situações de sofrimento. Além do fato de Crivella ser um nome conhecido da população carioca como um todo, visto que já estava na sexta campanha. A persistência em se candidatar é uma estratégia fundamental de um político que almeja sucesso eleitoral.

#Colabora – Em quanto vem crescendo o registro de candidaturas religiosas? 

 Christina Vital – Nas eleições de 2014, se candidataram 40% mais pastores e 15% mais padres. E o efeito disso foi a eleição da maior Frente Parlamentar Evangélica da história. As frentes parlamentares vão oscilando ao longo das legislaturas. Contudo, em 2014, já tem início com um número grande de parlamentares a ela vinculados. Outro efeito foi a oficialização, em 2015, da Frente Parlamentar Católica, existente de modo informal desde 1991 no Congresso Nacional.

#Colabora – Qual a sua avaliação sobre a candidatura do Pastor Everaldo à Presidência da República, em 2014? 

 Christina Vital – A candidatura do Pastor Everaldo foi fracassada por um conjunto de fatores. Havia uma expectativa de que ele fosse ser o “Enéas” das eleições 2014. Analistas políticos não acreditavam em sua vitória, mas estimavam uma votação em torno de 8% a 10%. No entanto, ele termina em quinto lugar, com 0,76% dos votos. Os principais motivos seriam a morte de Eduardo Campos e a ascensão de Marina Silva, aglutinando lideranças evangélicas em torno de seu nome. Eles foram “abandonando o barco” ao longo da campanha e depois dividiram-se entre Dilma e Aécio. A pouca desenvoltura do pastor diante das câmeras ou o comentado caráter lacônico produzia especulações em torno de seu despreparo.

#Colabora – Tem como relacionar os altos índices de votos nulos, brancos e abstenções ao crescimento da quantidade de candidatos com vínculos religiosos ou o desencantamento é geral?

 Christina Vital – Esse é um ponto importante e por isso sou cautelosa ao falar em uma vitória absoluta de Crivella ou mesmo da força dos evangélicos. Tivemos o maior número de votos nulos, bancos e abstinências da história do município: 47%. Isso é em parte expressivo de um sentimento social difuso de atordoamento, desconfiança e medo diante do avanço das religiões em esferas antes percebidas como laicas, ou seja, não religiosas. A descrença diante da classe política atinge desde a direita mais conservadora até as esquerdas mais radicais.

#Colabora – A população começa a votar mais em candidatos vinculados a igrejas?

 Christina Vital – Isso sempre houve. Mas é verdade que estamos acompanhando um processo maior de confessionalização da política, quando os políticos se registram nos tribunais eleitorais com seus lugares nas hierarquias religiosas. E isso não existe só em relação aos evangélicos, mas também em relação aos católicos e religiosos afro-brasileiros. A descrença em relação “a tudo o que está aí” faz com que candidatos que não são tradicionalmente políticos venham tendo algum sucesso.

#Colabora – A senhora acredita que a próxima disputa presidencial terá um novo candidato assumidamente religioso buscando votos sem a camuflagem de outrora?

 Christina Vital – É muitíssimo provável que tenhamos mais de um candidato declaradamente religioso concorrendo ao pleito em 2018. Vale acompanhar as alianças que irão reunir em torno de suas candidaturas e o tipo de apresentação dessas vinculações religiosas.

#Colabora – A senhora faria alguma aposta? Existe uma bola da vez, um candidato natural para representar esse sentimento religioso?

 Christina Vital – Quem estava na vez era o Jair Bolsonaro, que foi batizado pelo Pastor Everaldo, que é padrinho tanto dele quanto de Eduardo Cunha (ex-presidente da Câmara dos Deputados) na Assembleia de Deus. Vamos acompanhar. O cenário ainda está muito instável.

Escrito por Paulo Gramado

Paulo Gramado

Carioca, jornalista, trabalhou nas redações dos jornais O Globo, Folha de S.Paulo, O Dia e Jornal do Brasil. Em Comunicação Corporativa, atuou como coordenador na Fundação Roberto Marinho e gerente de imprensa do Sesc Rio. Pós-graduado em Comunicação Empresarial, adora contar a história de pessoas que colaboram para a construção de uma sociedade mais harmônica e propositiva.

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