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A sombra de Belo Monte

Escaldados pelas promessas não cumpridas na construção da hidrelétrica, moradores temem a chegada da mina de Belo Sun

Reassentamento de Laranjeira: onde falta tudo, de saneamento a transporte público. Foto: André Teixeira

A construção da usina de Belo Monte já lhes tirou o peixe em abundância, o prazer de se banhar no rio Xingu a qualquer hora, a água limpa e a área de lazer, antes sem restrições. Acostumados a ter no rio a base de suas vidas, os moradores da gigante Altamira, da vizinha Senador José Porfirio, das comunidades ribeirinhas e das aldeias indígenas do sudoeste do Pará tiveram que se adaptar aos novos tempos. E as mudanças, para grande parte deles, infelizmente, não foram para melhor.  Por isso, andam sobressaltados com a chegada de um novo grande empreendimento à região: a mina de Belo Sun. Escaldados, temem se transformar de novo em vítimas de promessas não cumpridas, do descaso do poder público, e do crescimento desordenado provocado pela invasão de migrantes. Dessa vez, em busca do sonho do ouro. Andar por aquelas terras é se sensibilizar com histórias de pessoas que viram o sonho de uma vida melhor se transformar no pesadelo de, em meio a mais absoluta pobreza, não saber sequer de onde tirar o seu sustento. Conheça algumas delas.

Altamira: A vida onde falta tudo

João Neto: “Não sei o que vai acontecer com nossas terras, nem como minha família vai sobreviver. Foto: André Teixeira

Em Altamira, cidade do tamanho de Portugal, com 130 mil habitantes,  o que a o que a usina deixou  foi um rastro de miséria e tristeza.  O cenário é devastador para uma terra de patrimônio incalculável. Desde a inauguração da hidrelétrica, os problemas não param de se acumular. As promessas de emprego, mais escolas, mais hospitais, mais segurança, rede de água tratada e de coleta de esgoto, entre muitas outras melhorias, não saíram do papel. Assim como deixou a desejar o projeto de reassentamento da 5,8 mil famílias que viviam em áreas de risco.

Nas ruas de terra do reassentamento de Laranjeiras,  por exemplo, a cerca de 6 quilômetros do centro de Altamira, o esgoto corre a céu aberto, a iluminação é precária, não existe transporte público e uma legião de desempregados busca maneiras de continuar sustentando a sua família.

João Neto Carvalho de Souza, de 41 anos, é um dos moradores dessa Terra do Não.  “Não sei o que vai acontecer com nossas terras, nem como minha família vai sobreviver. Sempre vivemos da pesca e do que tiramos da terra”, desabafa o pescador, que viu o volume de peixes no Xingu cair drasticamente após a construção da usina. Ele, agora, vive de fazer bicos.  Antigo morador de Aparecida, o terreno onde morava, às marges do rio, foi desapropriado para a construção da hidrelétrica. Um ano e meio depois, ele ainda não se conforma em viver isolado no reassentamento, distante do centro da cidade e sem transporte público para se locomover. E teme que a vida possa piorar ainda mais com a chegada da mineradora canadense. O local onde ele mora com sua família, entre a Vila da Ressaca e Pirarara, é muito próximo de onde a empresa vai se instalar.

Josildo Carlos de Freitas, de 47 anos, presidente da Associação de Moradores de Laranjeiras, engrossa o coro dos descontentes.  Com pouco mais de um ano no local, está vendo sua casa rachar, seu negócio falir, sem qualquer perspectiva de uma vida melhor. “Deram cinco anos de garantia para nossas casas e a minha já está cheia de problemas”.  A Norte Energia, através de sua assessoria, informou que possui um canal aberto com a comunidade atendida pelas ações do Projeto Básico Ambiental (PBA) da Usina Hidrelétrica Belo Monte. “As demandas que são encaminhadas estão sendo avaliadas pela empresa, caso a caso, e as providências são tomadas caso o problema esteja previsto na garantia do imóvel”.

Josildo não vê a hora de sair do reassentamento. Eu tinha uma oficina mecânica na região próxima ao rio, ganhava bem e sustentava minha família. Hoje, nesse lugar distante, não tenho mais clientes”, reclama. É mais ou menos essa a situação de cerca de 2.800 famílias ribeirinhas, reassentadas em cinco áreas de Altamira: de profunda carência e falta de perspectivas.  

O pesadelo fica ainda maior diante da perspectiva da invasão de forasteiros, movidos pela ilusão de que Belo Sun vai se transformar em uma Serra Pelada, garimpo que atraiu milhares de pessoas, em busca de riqueza, na década de 80.  Com a automação do sistema, a mão de obra empregada será infinitamente menor. A previsão é de 2,5 mil trabalhadores.  Um número bem menor que o de empregados na construção da hidrelétrica: 33 mil.  “Já não tem trabalho e nem estrutura para nós. Imagine com mais famílias sem emprego e sem dinheiro?”, preocupa-se João Neto.

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Aldeia Muratu: foco de resistência

Bel Juruna, com seus filhos:  “Não queria essa casa. Gostava da minha, mais simples, de lavar roupa no rio, enquanto as crianças brincavam na água”. Foto: André Teixeira

O medo do que está por vir com Belo Sun também assusta os moradores das aldeias indígenas na Volta Grande do Xingu, como a Muratu, dos Jurunas, a cerca de 10 quilômetros da sede da mineradora. Ali, onde vivem 21 famílias,  o maior temor é que a empresa queira ocupar as terras para erguer seu empreendimento. Mas os moradores prometem fincar pé e garantem que dali não saem, por dinheiro nenhum do mundo.

Bel Juruna é a uma das figuras emblemáticas dessa resistência. Aos 29 anos, mãe de quatro filhos, carrega no olhar a tristeza de quem não está nada satisfeita com o curso da vida. Enquanto, numa manhã de sábado, a aldeia era invadida pelo som alto de uma música sertaneja, em sua casa, Bel ouvia música gospel. “Gosto de ouvir essas músicas para espantar os pensamentos negativos, coisas ruins como o álcool e as drogas”, diz, confirmando que é evangélica. “Mas só enquanto respeitarem a minha cultura”, ressalva. Quando recebeu a equipe do #Colabora, Bel lavava roupa no tanque e suas quatro crianças brincavam de pular elástico na sala.

Bel é agente de saúde e está estudando para se tornar técnica em enfermagem. Ela, que já não gostou nada das mudanças que vieram com Belo Monte, anda apreensiva com a chegada de Belo Sun.  Por causa da hidrelétrica, teve que se mudar para uma parte mais alta do terreno. O consórcio construiu novas casas para os moradores removidos da beira do rio“Eu não queria essa casa. Gostava da minha, mais simples, de lavar roupa no rio, enquanto as crianças brincavam na água. Hoje, não posso deixá-las brincando lá, porque não sabemos quando o nível da água vai subir. Queria plantar e colher, ter uma vida mais calma. Fomos empurrados para isso. Meus dois filhos mais novos não sabem pescar. Como um índio pode não saber pescar?”, indigna-se, enquanto torce uma roupa no tanque.

A tristeza de Bel fica ainda mais evidente quando ela chega à cozinha. Abre o armário, cheio de produtos industrializados, e dispara: “Nada aqui presta”, apontando para os pacotes de miojo e tubos de Ketchup. Na geladeira, carne e frango comprados no supermercado. Ela sabe que, em meio a tanta miséria, é privilegiada por ter condições de abastecer sua casa, mas não esconde seu desconforto com as mudanças que derrubaram muitas das tradições de seu povo. Mas, apesar de tudo, ela não quer sair da terra onde cresceu. Conta que parentes de aldeias no Mato Grosso já sugeriram que se mudasse para lá, com sua família. Com a força de uma guerreira, ela afirma que vai resistir.

Na Aldeia das Araras, um guardião das tradições

Leôncio: “Eu sei que quando morrer vou levar a cultura dos Araras comigo”. Foto: André Teixeira

Aos 80 anos, seu Leôncio Arara luta para manter as tradições de sua tribo, na aldeia Araras, também às margens do Xingu,  a 13,7Km das terra de Belo Sun. Preocupado com o futuro, fica melancólico ao falar de um tempo em que a pesca era farta, todos brincavam nas águas do rio e viviam muito bem, obrigado, sem energia elétrica e outros avanços da vida moderna. A aldeia está totalmente descaracterizada, com casas de alvenaria, posto de saúde e escola construídos pelo consórcio de Belo Monte.  Seu Leôncio foi o único morador que não permitiu que sua casa de madeira e palha fosse demolida e se recusou a sair de onde estava. Os peixes, fonte de sustento das famílias, desapareceram. Os Araras costumavam retirar do Xingu cerca de 300 quilos de pescado por semana. Hoje, com muita sorte, esse número chega a 50. “Eu sei que quando morrer vou levar a cultura dos Araras comigo. Os jovens já não se interessam mais pelas tradições. Deixo aqui as cestas de palha, que são tradicionais do nosso povo, mas ninguém se interessa”, comenta seu Leôncio, com um travo de tristeza.

Ilha da Fazenda: Eles querem sossego

Maria de Lima, a Deca: “Eu não saio. Temos nossa vida aqui. Somos veteranos, queremos paz e sossego.  Foto: André Teixeira

Maria de Lima, a Deca, é outro retrato da resistência. Filha da Ilha da Fazenda, professora e auxiliar de enfermagem, aos 57 anos rechaça a possibilidade de deixar o lugarejo.  Diante dos boatos de que vão haver remoções para a construção da mina de Belo Sun, ela nem pisca. Não há negociação. Dali, ela não sai. E não acredita que nada possa lhe tirar o direito de viver em paz, com liberdade, de forma simples e feliz. Indenização, possibilidade de fazer fortuna com o ouro que vai jorrar da mina, mudança para uma cidade grande… Nada disso a comove. Pelo contrário, a deixa mais irritada.

“Eu não saio. Temos nossa vida aqui. Somos veteranos, queremos paz e sossego. Não gosto da vida na cidade. Queremos jogar a rede e pescar nosso alimento, ver as crianças correndo, não desejamos sair daqui. Temos esse direito”, argumenta Deca. A professora só gostaria de ver concretizadas as promessas de dar à população direitos básicos, como saneamento, saúde… “As crianças estão bebendo água do poço, com coliformes fecais. Prometeram um motor para acionar a água que nunca veio, tal como o posto médico. Como vamos acreditar nas promessas agora”, comenta.

Como a professora Deca, Otávio Juruna, presidente da Associação de Moradores da Ilha da Fazenda, também afirma que vai resistir o quanto puder para não deixar aquelas terras.  “Eu não saio daqui. O que eu vou fazer lá fora? Em qualquer lugar que eu for estarei correndo perigo de vida”, diz o velho pescador de 66 anos, que só quer o luxo de uma vida simples.

Escrito por Claudia Silva Jacobs

Claudia Silva Jacobs

Carioca, formada em Jornalismo pela PUC- RJ. Trabalhou no Jornal Dos Sports, na Última Hora e no Globo. Mudou-se para a Europa onde estudou Relacões Políticas e Internacionais no Ceris (Bruxelas) e Gerenciamento de Novas Mídias (Birkbeek College). Foi produtora do Serviço Brasileiro da BBC, em Londres, onde participou de diversas coberturas e ganhou o prêmio Ayrton Senna de reportagem de rádio com a série Trabalho Infantil no Brasil. Foi diretora de comunicação da Riotur por seis anos e agora é freelancer e editora do site CarnavaleSamba.Rio. Está em fase de conclusão do portal cidadaoautista.rio.

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