Para todes: a reinvenção da língua portuguesa sem masculino ou feminino

(Ilustração: Claudio Duarte)

Depois de abandonarem X e @, defensores da linguagem neutra criam novas formas inclusivas, usando, por exemplo, E para substituir A e O em substantivos e adjetivos

Por Luiza Lunardi | ODS 10ODS 5 • Publicada em 29 de janeiro de 2021 - 10:30 • Atualizada em 11 de fevereiro de 2021 - 16:30

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(Ilustração: Claudio Duarte)

A história da linguagem acompanha a história humana no planeta. Desde que descobriu a comunicação por meio da voz e de símbolos, o ser humano passou a inventar, reinventar e renovar línguas a todo o momento, em uma atualização constante e ininterrupta. Apesar de ser um processo gradual e orgânico, de acordo com costumes e neologismos de cada época, uma inovação na língua portuguesa tem gerado controvérsias no mundo acadêmico e em debates na internet: o “gênero neutro”, proposta ideia que prega a adição de sentido não-binário a palavras que sejam marcadas pela dicotomia masculino/feminino – substituindo os arigos A e O, que definem gênero na nossa língua. A mudança é defendida por grupos identitários, principalmente em prol da visibilidade de pessoas trans não-binárias, com o objetivo de garantir maior inclusão.

Apesar de a polêmica existir na língua portuguesa, a discussão não é exclusiva de terras tupiniquins. Estudos realizados pela Universidade de Washington (EUA) com 3,9 mil falantes suecos indicam que a linguagem neutra de fato diminui preconceitos. Enquanto isso, na Espanha, a Real Academia do país (equivalente local à Academia Brasileira de Letras), se envolveu em polêmica em outubro de 2020, ao incluir o pronome neutro “elle” em seu observatório de palavras online e retirá-lo do ar três dias depois, após “confusão” entre internautas. A companhia aérea Japanese Airlines (JAL) anunciou que irá abolir o termo “senhoras e senhores” do chamamento de seus voos. Outras empresas do setor como Air Canada e EasyJet também mudaram para saudações de gênero neutro desde 2019.

Aqui no Brasil, o início do debate trazia elementos como o “x” e o “@” à tona, que seriam usados para substituir o “a” e “o” definidores de gênero das palavras. Entretanto, conforme aponta a ativista Rafaela “Rafuska” Queiroz, do Movimento Estamos Todes em Ação (META Brasil), os próprios grupos defensores da linguagem neutra colocaram em questão a utilização desses termos gráficos, por provocarem a exclusão de pessoas com deficiência. “O problema foi principalmente apontado por pessoas cegas ou com baixa visão, que fazem uso de leitores de tela em aparelhos eletrônicos. Aplicativos com essa finalidade dão erro ou leem a palavra de forma errada quando marcamos o gênero neutro a partir do ‘@’ ou do ‘x’”, descreve Rafuska. Professor de Língua Portuguesa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), André Conforte reforça que a linguagem neutra a partir desses caracteres seria igualmente problemática para outros grupos. “Também há pessoas disléxicas e adultas em processo de alfabetização, que teriam muitas dificuldades para entender”, complementa.

Para contornar as características excludentes, novas formas de uso de gênero neutro para o português foram criadas. O Manual para o uso da linguagem neutra em Língua Portuguesa, elaborado por Gioni Caê, estudante de Letras Português-Inglês da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), identifica quatro sistemas usados na linguagem neutra: Elu, Ile, Ilu e El. “Decidi juntar tudo o que tinha encontrado em um único local, para poder estudar e me adaptar. Daí surgiu o manual”, narra Gioni, que se identifica como pessoa não-binária e atende por pronomes masculinos.

Gioni Caê: Manual de Uso da Linguagem Neutra na Língua Portuguesa (Foto: Arquivo Pessoal)
Gioni Caê: Manual de Uso da Linguagem Neutra na Língua Portuguesa (Foto: Arquivo Pessoal)

O uso do gênero neutro vem se tornando uma realidade entre pessoas não-binárias. É o caso de Mar Facciolla, 21 anos, estudante de Psicologia de São Caetano do Sul, São Paulo, que se reconhece enquanto transgênero não-binárie, e pede que seja referide, a partir do sistema Elu. Para Mar, a consequência mais importante da adoção de linguagem neutra na língua portuguesa é a humanização de pessoas transvestigêneras (termo que une as palavras “travesti, transexual e transgênero”) não-binárias e pessoas intersexo na sociedade. “No dia-a-dia, nossa existência não está incluída na sociedade. Essa dicotomia que atravessa nossos corpos faz com que sejamos excluídes”, afirma.

Para ê estudante de Psicologia, o pronome é uma demarcação social. Mar explica que, ao chamar alguém por pronomes femininos ou masculinos, coloca-se o indivíduo em um espectro de feminilidade ou masculinidade. “Tudo na sociedade que está relacionado à ‘ela’ está intimamente associado ao feminino. Igualmente, tudo o que é ‘ele’ está relacionado à masculinidade. O pronome é uma expressão de gênero, então quando utilizam pronomes femininos ou masculinos para se referirem a mim, estão me colocando em um lugar que não é meu”, explica Mar.

Candidate não eleite a uma cadeira na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro em 2016 e 2020, Indianarae Siqueira construiu sua última campanha política fazendo uso integral da linguagem neutra. Em posts no Facebook, Indianarae conta que, após percorrer “todo o caminho da transição”, se encontrou sem gênero. “Nesse momento, tenho peitos, pau e barba. Tô em paz”, relata. Em outra postagem, explica a opção pela linguagem neutra no material de campanha. “Subverter a língua é também romper com padrões, amores. A língua portuguesa atribui gênero a muitas palavras e expressões que geram desigualdade e opressão. Já percebeu como o padrão para tudo é usar ‘o’ (masculino), e não o ‘a’ (feminino)? É por isso que escrevemos todos os materiais dessa campanha lindE usando a letra “e” que elimina o gênero das palavras que são ‘generificadas’ com ‘o’ ou ‘a’: assim qualquer pessoa pode se enxergar ali”, escreveu Indianarae, que teve 2.504 votos.

Mar Facciolli: "O pronome é uma expressão de gênero, então quando utilizam pronomes femininos ou masculinos para se referirem a mim, estão me colocando em um lugar que não é meu" (Foto: Arquivo Pessoal)
Mar Facciolli: “O pronome é uma expressão de gênero, então quando utilizam pronomes femininos ou masculinos para se referirem a mim, estão me colocando em um lugar que não é meu” (Foto: Arquivo Pessoal)

Longo caminho da língua

O Manual da Linguagem Neutra surgiu porque Gioni Caê, interessado no tema, achou informações espalhadas na internet, sem organização. “Na academia não achei nada”, conta. O manual, lançado em maio do ano passado, apresenta artigos, pronomes, adjetivos, preposições, quantificadores e palavras irregulares sob a ótica dos diferentes sistemas de linguagem neutra. Além disso, o guia também dá dicas de como reformular frases, suprimindo o uso de gênero. “Enquanto estava escrevendo, percebi que muitas pessoas poderiam estar na mesma situação que eu: querendo saber mais sobre a linguagem neutra, mas confusas com o que estava pela internet. Isso me fez querer disponibilizar esse material online, com todas as referências que encontrei”, acrescenta

Apesar de iniciativas como a do estudante, a linguagem neutra segue sem reconhecimento acadêmico na língua portuguesa. Para o professor André Conforte, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), a dificuldade de inserção do “gênero” está na quebra do fluxo contínuo da língua. “Não conheço um processo de mudança linguística que não tenha se dado de baixo para cima. Mudanças linguísticas impostas geralmente não acontecem e, quando acontecem, sofrem as resistências normais da língua. Por exemplo, quando o império romano impôs a sua língua (o latim) sobre a Península Ibérica, não foi a língua imposta que se estabeleceu por lá com o tempo. O latim veio como uma língua por cima, que chamamos ‘superstrato’, mas as línguas de ‘substrato’, que vieram por baixo, impuseram suas formas e normas também”, exemplifica.

A discussão sobre o assunto deve seguir na agenda dos brasileiros nos próximos anos. Para Gioni Caê, só o tempo dirá se a linguagem neutra vai ganhar visibilidade acadêmica e a popularização dos termos na sociedade em geral. “Não dá para colocar nada a força na vida de ninguém. É sempre importante termos respeito com todas as pessoas, e eu vejo a linguagem neutra assim. Como uma maneira de respeitar ês próximes”, afirma.

O respeito também pauta as atividades da ativista Rafuska Queiroz, responsável pelas redes sociais do META Brasil, onde faz uso da linguagem não-binária desde a criação do movimento no país. “Quando falamos em gênero neutro, falamos em respeito a outra pessoa. Socialmente podemos sim inserir o que é novo, e acho que ainda estamos nesse processo inicial. É um desafio usar o gênero neutro na linguagem, mas incluir não é simples, seja por não ser comum ou por não fazer parte da nossa vida. Mas é possível. Talvez para chegar até as normas da língua portuguesa seja necessário um novo processo, quase uma reforma ortográfica. Mas, nas nossas redes sociais e ao nos comunicarmos com não-bináries, podemos utilizar a linguagem neutra”, argumenta.

Apesar de já fazer uso da neutralidade na língua, Mar Facciolla acredita que a luta por direitos de pessoas trans não-binárias e intersexo precisa avançar mais antes de ser possível visualizar mudanças linguísticas estruturais. Para elu, é necessário institucionalizar os gêneros neutro não-binário e intersexo no sistema enquanto identificação pessoal, como já ocorre com feminino e masculino. A linguagem acompanharia este processo. “Precisamos que os gêneros neutro não-binário e intersexo sejam incluídos no RG, e automaticamente em todos os sistemas: SUS, Receita Federal, polícia…”, defende.

Para Mar, essas alterações precisam ser institucionalizadas primeiro. “Para depois que as pessoas tiverem conhecimento da nossa existência, a gente consiga fazer com que as mudanças linguísticas ocorram. Se a gente não existe para o Estado, como podem fazer uma reforma linguística pautada em quem não existe?”, questiona. O raciocínio é acompanhado pelo professor André Conforte. “A gente precisa mudar a sociedade. Em mudando a sociedade, pode ser que a língua acompanhe isso, que é o que geralmente acontece: a história interna da língua acompanha a história externa”, ensina.

 

Luiza Lunardi

Graduanda em Jornalismo na UFRJ, Luiza Lunardi é carioca na certidão de nascimento, mas carrega o mundo na alma. Com experiências em redação e assessoria de imprensa, sente-se livre escrevendo, principalmente sobre temas relacionados aos direitos humanos.

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