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Jovens matam aula pelo clima, menos no Brasil

Mais de cem países e quase duas mil cidades aderem ao movimento. Por aqui, evento no Facebook ganha modestas 19 confirmações de presença


A sueca Greta Thunberg, de 15 anos, exibe a placa "Greve escolar pelo clima" durante um protesto em novembro no ano passado (Foto Hanna Franzen / TT News Agency / AFP)
A sueca Greta Thunberg, de 16 anos, exibe a placa “Greve escolar pelo clima” durante um protesto em novembro no ano passado (Foto Hanna Franzen / TT News Agency / AFP)

Um rosto infantil entre duas longas tranças e uma capa de chuva amarela em tamanho muito maior que o seu. É com essa imagem, agora já emblemática, que Greta Thurnberg, uma jovem sueca de 16 anos, se tornou a grande responsável pela mobilização de milhares de estudantes na Europa, meninas principalmente, contra o descaso de seus governantes em relação às mudanças climáticas. Seguindo o exemplo de Greta, nesta sexta feira, 15/03, ao invés de irem para a aula, milhões de adolescentes vão às ruas protestar em favor do meio ambiente e contra a falta de ação das autoridades adultas para evitar o aquecimento global. Entretanto, pouco será visto no Brasil, onde a mobilização é mínima.

A UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) atribui o silêncio dos adolescentes brasileiros sobre as mudanças climáticas ao momento político. “A agenda de mobilizações da UBES e de todo o movimento secundarista está voltada para as graves tentativas de ataque a juventude e a educação pública promovidas pelo novo governo federal. A conjuntura nacional desse período coloca outras pautas como prioridade”, afirma a entidade, em posição oficial.

Em todo o mundo, 1895 cidades, de 116 países, participarão do movimento. Aqui no Brasil, a adesão das cidades cresceu nos últimos dias, mas permanece com pouca relevância, tanto em relação ao número de cidades participantes, quanto ao número de adeptos. Até a véspera da greve, o total de cidades participantes era de 21 – entre elas, se destacam: Rio de janeiro, São Paulo, Florianópolis, Belo Horizonte, Goiânia, Salvador, Recife e Juazeiro do Norte. A maioria das capitais do país não aderiu ao movimento e, mesmos nas cidades com organizadores, não há garantias de que os estudantes estarão presentes nas manifestações. O evento Global Strike For Future – FFF Brasil no Facebook tinha 19 confirmações. O evento Greve Estudantil pelo Clima, na mesma rede social, no Rio de Janeiro – marcado para a Assembleia Legislativa –  tinha 37 confirmações de presença. Mas qual o motivo para tão baixa adesão dos jovens brasileiros a um movimento que mobiliza jovens no mundo inteiro pelo futuro da humanidade?

Se os adultos não fazem seu dever de casa por que devemos fazer o nosso?

Greta Thurnberg
Estudante sueca

A desinformação é apontada como vilã por muitos adolescentes brasileiros. Presidente do grêmio estudantil da Escola Técnica Estadual Helber Vignoli Muniz, em Saquarema (RJ), e aluno do curso técnico de Meio Ambiente, Lucas Bragança, de 17 anos, nem sabia da existência do movimento na Europa e da greve estudantil marcada para esta sexta-feira, apesar de se achar informado sobre assuntos ambientais. “As pessoas só se preocupam com o meio ambiente quando a situação começa a fugir do controle e isso acaba fazendo com que as pessoas, em geral, não se informem devidamente sobre o assunto. Não adianta falar que a temperatura do planeta subiu 1 grau porque acham que é pouco, mas, se elas se informassem, veriam que esse 1 grau é suficiente para gerar uma seca em metade do planeta. Muitas pessoas ainda pensam que os recursos naturais são infinitos”, afirma.

Evento no Facebook: 19 confirmações (Reprodução)
Evento no Facebook: 19 confirmações (Reprodução)

Raphael Lacerda, 16 anos, integrante do grêmio do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, também credita a desmobilização dos jovens à falta de conscientização. Mesmo acostumado a participar de lutas estudantis, não sabia da greve pelo clima.  “Eu acredito que deveria haver um grupo organizando esse movimento no Brasil. Poderiam ser os movimentos estudantis, inclusive os grêmios. Se houvesse, por exemplo, um grupo estudantil responsável pela divulgação, acredito que muitos teriam abraçado a causa”.

Desde agosto do ano passado, entretanto, o protesto de Greta Thurnberg tomou, primeiro a Europa, e foi se espalhando. Toda sexta-feira, durante o horário da aula (aproximadamente sete horas), ela ia para a frente do Parlamento sueco, carregando uma placa de madeira com os dizeres: Skolstrejk for Klimatet (greve escolar pelo clima). Essa manifestação solitária logo ganhou adeptos e a atenção da mídia e, em pouco tempo, se transformou no movimento Fridays For Future.

Manifestação de estudantes contra o aquecimento global em Nantes, na França: movimento espalhado pela Europa (Foto: Stelle Ruiz/Nurphoto)
Manifestação de estudantes contra o aquecimento global em Nantes, na França: movimento espalhado pela Europa (Foto: Stelle Ruiz/Nurphoto)

As greves estudantis começaram a pipocar pela Europa a partir das mensagens fortes e diretas de Greta. “Se os adultos não fazem seu dever de casa por que devemos fazer o nosso?” “Por que vamos estudar se não vamos ter futuro?”. Em dezembro, ela discursou na Conferência do Clima das Nações Unidas (COP24) em Katowice, na Polônia. No mês de janeiro, participou do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça e em fevereiro, estava na sétima marcha juvenil, junto da ativista Anuna De Wever, de 17 anos, em Bruxelas. As viagens de Greta foram feitas de trem, pelo grande impacto ambiental dos aviões.

No Brasil, entretanto, onde está a maior floresta úmida do mundo e com quase 50% da biodiversidade do planeta, é baixo o interesse para assuntos referentes ao meio ambiente – principalmente entre os adolescentes. De acordo com estudo realizado pelo Instituto Akatu, especializado em consumo consciente, a preocupação com questões ambientais tende a crescer entre pessoas mais velhas. Nas redes sociais brasileiras, os estudantes secundaristas, que são a cara ao movimento FridaysforFuture e a greve global pelo clima no resto do mundo, dão lugar para jovens adultos e pais preocupados com o futuro nada promissor para seus filhos.

Pesquisador do Programa de Planejamento Energético da COPPE/UFRJ, Bruno Cunha acredita que o desinteresse se deve a uma defasagem na educação básica, já que esse tema não é obrigatório nas escolas. “É preciso melhorar e muito a nossa educação climática. Minha expectativa em relação à greve global do dia 15 é que se intensifique a provocação de um movimento de educação climática em que jovens terão papel central na educação/sensibilização de adultos”, afirma

Os últimos relatórios da ONU afirmam que o planeta tem um limite de dois anos para reduzir drasticamente as emissões de dióxido de carbono e zerá-las até 2050. Mantendo o aquecimento global em 1,5 graus Celsius, seria possível evitar eventos extremos que fatalmente ocorrerão se a humanidade mantiver o mesmo ritmo atual. Bruno Cunha analisa que os perigos desse aumento de temperatura já estão sendo sentidos atualmente: “Há estudos que mostram que o padrão de chuvas na região Sudeste do Brasil pode estar se alterando com o aquecimento global, de modo que São Paulo, por exemplo, deverá ter mais chuvas nos próximos anos. As emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa) que estão afetando o clima têm origem em ações e demandas humanas, muitas vezes, em excesso. Será necessária uma mudança de comportamento, no sentido de ceder níveis de conforto ou alterar padrões de consumo com altos impactos. Somente com isso, aliado, claro, à eficientização na indústria e geração elétrica a partir de fontes limpas e renováveis, é que conseguiremos reduzir nossas emissões, de modo a garantir um futuro não tão obscuro para as próximas gerações”, acrescenta.

Vozes solitárias

Organizador do FridaysForFuture de Juazeiro do Norte, o estudante de pedagogia Davi Mota, 20 anos, criou a arte dos cartazes usados para divulgação de cada cidade participante, e também a página do Facebook, Instagram e o grupo de Whatsapp do evento no Brasil. “Conheci o Friday For Future e a Greve Geral pelo Clima só no domingo passado e fiquei decepcionado por nunca ter ouvido falar no Brasil sobre o movimento nem sobre a Greta. Resolvi criar toda a rede social, Instagram, página do Facebook (hoje temos duas, uma da FFF Brasil e outra da Greve Geral) e o grupo no WhatsApp com a intenção de encontrar outros jovens que também não tinham informação sobre o movimento, se preocupam com a causa e querem mobilizar suas cidades. Precisamos ser mais vistos por nossas ações e tirar a imagem negativa de que os estudantes brasileiros não lutam pelo meio ambiente”.

Para Davi, o motivo do baixo engajamento entre os jovens se deve somente à falta de informação e não a um desinteresse sobre o tema. “Em apenas dois dias mobilizamos 60 estudantes, com apenas 160 seguidores no Instagram. Imagina se nosso alcance fosse maior? Já recebemos pessoas de projetos importantes como Engajamundo, Criativos da Escola e 350.org”, disse.

Tm Ramsay: ambientalista aos 15 anos (Foto: Arquivo Pessoal)
Tom Ramsay: ambientalista aos 15 anos (Foto: Arquivo Pessoal)

Diferente da maioria dos outros organizadores do FridaysForFuture no Brasil, Tom Ramsay,15 anos, ainda é estudante do ensino médio e organiza o evento Fridays for Future na cidade de Florianópolis junto com a amiga Isaura Souza, de 16 anos. Aluno de escola que utiliza a pedagogia Waldorf e nascido em um lar de vegetarianos, acabou se envolvendo naturalmente em projetos de agricultura sustentável, agroecologia e a permacultura. “Vi que para tornar a agricultura sustentável, é preciso realmente mudar a mentalidade do consumidor, de quem ele compra e o que ele consome”, afirma o estudante, que já tinha lido sobre o movimento de Greta e tem uma amiga na Groenlândia que também está organizando uma greve climática em sua cidade.  

Tom Ramsay admite que, entre seus colegas, os problemas climáticos não são tratados como prioridade. “Mesmo eu vivendo em uma ‘bolha’ de mais conscientes, as pessoas sabem que é urgente, mas não fazem nada… Ou fazem pouco. Tem essa consciência, mas falta iniciativa. Tanto que mais ou menos um terço da minha turma pelo menos vai na greve climática”, afirma o estudante.

 


Escrito por Barbara Lopes

Formada em Letras/Literaturas pela Universidade Federal Fluminense, carioca que não vai à praia, mas vive na floresta e na selva da cidade. Cursando graduação em Jornalismo na UFRJ. Acredita que a leitura e o diálogo transformam o mundo.

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