Duas décadas da Marcha das Margaridas

Marchas das Margaridas de 2019 em Brasília: milhares de mulheres reunidas na defesa dos direitos das trabalhadoras ruais, das pautas femininas e do meio ambiente (Foto: Divulgação)

Uma das maiores mobilizações de mulheres da América Latina chega aos 20 anos. A pandemia tirou a marcha da rua, mas a festa ocorreu virtualmente

Por Liana Melo | ODS 1ODS 10ODS 5 • Publicada em 13 de agosto de 2020 - 09:13 • Atualizada em 18 de agosto de 2020 - 10:24

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Marchas das Margaridas de 2019 em Brasília: milhares de mulheres reunidas na defesa dos direitos das trabalhadoras ruais, das pautas femininas e do meio ambiente (Foto: Divulgação)

Duas décadas depois da primeira Marcha das Margaridas, mulheres do campo, da floresta, das águas e da cidade se reuniram nesta quarta-feira (12/08), virtualmente, para celebrar os 20 anos do encontro. Foi um dia de festa em forma de ato político. Afinal, o encontro é um tributo a Margarida Maria Alves, que foi assassinada em Alagoa Grande, na Paraíba, por lutar pelos direitos dos trabalhadores rurais. O crime ocorreu em 1983 e até hoje o assassinato continua impune. A líder sindical foi silenciada, mas sua luta se transformou em uma das maiores mobilizações femininas da América Latina.

A marcha teve início no ano 2000 e, à época, o objetivo era tirar a mulher do campo da invisibilidade. À medida que o evento foi crescendo sua identidade política foi evoluindo e agregando mulheres das florestas, das águas e das cidades. Desde então, de quatro em quatro anos, a Marcha das Margaridas reúne cerca de 100 mil mulheres que saem dos seus territórios em direção a Brasília para denunciar a cultura patriarcal e machista. A última Marcha ocorreu em 2019.

É uma mulherada plural e diversa, com vários sotaques, de diferentes cores, do campo e da cidade, agricultoras familiares, camponesas, indígenas, quilombolas, assentadas, acampadas, sem-terra, extrativistas, quebradeiras de coco, ribeirinhas, pescadoras, sertanejas…

Mazé Morais, coordenadora da Marcha das Margaridas: “a Marcha não é só o momento em Brasília: existe todo um processo de mobilização, formação e construção na base” (Foto: Divulgação)

“É importante colocar que a Marcha não é só o momento em Brasília. Existe todo um processo de mobilização, formação e construção na base. É muito simbólico as mulheres marcharem onde está o centro do poder e dizerem quais as suas necessidades e os seus desejos”, analisa Mazé Morais, coordenadora da Marcha.

Sob a coordenação da Secretaria de Mulheres da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), a Marcha das Margaridas conta com a parceria de um pool de movimentos sociais, grupos feministas, centrais sindicais e organizações internacionais. O aniversário de 20 anos foi o momento para criticar a retirada de direitos dos trabalhadores do campo e da cidade, e denunciar o aumento da violência doméstica contra a mulheres.  “A marcha é um ato de amor e solidariedade. E por termos dores em comum, lutamos juntas e nos tornamos mais fortes a cada marcha”, ressaltou Rosmarí Malheiros, secretária de Meio Ambiente da Contag.

Mulheres do Brasil inteiro mandaram vídeos com depoimentos sobre a trajetória da Marcha das Margaridas; os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, também. “Assim como até agora não foram identificados e presos os mandantes do assassinato de Marielle, até hoje, 37 anos depois, não foram punidos os mandantes e assassinos de Margarida Alves. Mas ela trouxe à luz milhões de Margaridas, que mesmo perseguidas, envergam mas não quebram”, disse Dilma. A cantora Zélia Duncan cantou.  E agradeceu: “Obrigada pelo orgulho que vocês nos devolvem de sermos mulheres, de estarmos juntas, e de podermos ter coragem. Vida longa à Marcha das Margaridas”.  Lia de Itamaracá e Susi Monte Serrat também cantaram em homenagem à luta das mulheres. Também participaram as atrizes Letícia Sabatella e Maria Casadavall, a líder indígena Sônia Guajajara, a ex-ministra Eleonora Menicucci e a governadora Fátima Bezerra, do Rio Grande do Norte, única mulher a governar um estado brasileiro atualmente.

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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