Da agricultura sem agrotóxico aos mutirões de reflorestamento e cultivo de plantas medicinais, tudo é agroecologia. No Complexo de Favelas da Maré, Zona Norte do Rio, o grupo Ecoa Maré utiliza a educação socioambiental como ferramenta de conscientização de jovens. Numa área remanescente de Mata Atlântica também na Zona Norte do Rio de Janeiro, o Centro de Integração na Serra da Misericórdia (CEM) oferece cursos comunitários de agroecologia, cozinha solidária e cuidados com a agrofloresta, numa região vizinha aos complexos da Penha e do Alemão.
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Essas e outras iniciativas agroecológicas trocaram experiências no Plante Rio 2026, evento fomentado pela Associação Saúva e Jataí Investimentos e organizado pela Fundição Verde. O Ecoa Maré apresentou uma exposição sobre a relação das pessoas com a Baía de Guanabara, no Rio. Todos os dias, três milhões de litros de resíduos líquidos – o equivalente a 15 caminhões-pipa de 200 mil litros – são descartados indevidamente na Baía. de acordo com dados do projeto Baía Viva em 2025.
Coordenadora pedagógica do Observatório de Favelas, Grasiela Cordeiro reforçou que as soluções ambientais, de sustentabilidade e de agroecologia estão nas periferias há muito tempo. Ela destaca que, por vezes, a pessoa já pratica a agroecologia na sua comunidade, mesmo sem conhecer o nome. Para ela, aproximar a periferia desses debates fortalece e impulsiona práticas agroecológicas. “Quando um favelado escuta outro, essa comunicação ganha, além da qualidade técnica, potencial de alcance; e eu acredito que isso faz toda a diferença”, explicou.
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Veja o que já enviamosNa roda de conversa “Economia para um Planeta Vivo”, agricultores, pesquisadores e articuladores de finanças sustentáveis discutiram o impacto de práticas socioambientais para a economia. O economista Francisco Figueiredo apontou a existência de uma perspectiva ocidentalizada do “corte”, individualizando causas, problemas e demandas. Frente a essas marcas coloniais, práticas de agricultura alternativas ao modelo de agricultura convencional, contrapõem este resquício colonial através da reconexão com a terra. “As comunidades tradicionais estão vivendo fins de mundo há 500 anos; agora a fronteira do agronegócio está invadindo cada vez mais esses territórios, e essas pessoas resistindo: então vale a pena olhar o que eles (povos tradicionais) estão fazendo”.
Para Leandro Almeida, um dos fundadores da Associação Saúva e da Jataí Investimentos, práticas agroecológicas devem andar juntas. “Existe uma falta de reconhecimento da realidade dessas empresas com a realidade das pessoas em não conseguir alinhar os mesmos valores, e a ideia que estamos tentando exercitar é alinhar os mesmos valores”. Para ele, estar ao lado de iniciativas e premissas sustentáveis fortalece a própria economia e as empresas. “Desenhar um novo modelo econômico é pensar em um formato de achar novas formas de se relacionar”


Na Fazenda São Luiz, em São Joaquim da Barra, no interior de São Paulo, o Mutirão Agroflorestal realiza atividades com sistemas agroflorestais desde 1997. A atuação teve início com um mutirão focado na restauração de uma mata ciliar local. Hoje, além de produção agrícola e florestal, o projeto na Fazenda São Luiz também reúne iniciativas de restauração ambiental na região e educação ambiental, e principalmente desenvolvimento de novos métodos e técnicas de manejo da terra.
Patrícia Vaz, uma das integrantes do Mutirão Agroflorestal, a agroecologia é um mecanismo de repensar a forma de se relacionar com o solo. “Quando a gente trabalha com a natureza, ela é tão forte, que eu tenho a nítida sensação de que não fiz nada, quem fez tudo foi ela”, disse. O movimento atua em áreas urbanas e rurais em diferentes regiões do Brasil. No Plante Rio 2026, o Mutirão Agroflorestal celebrou 30 anos de atuação com uma exposição de fotografias, livros, manuscritos e objetos que registram diferentes momentos da trajetória do grupo. “A agrofloresta é uma agricultura de relações, é um sentimento de fazer parte de um todo”, acrescentou Patrícia Vaz.
E essa agroecologia acontece no dia a dia dos territórios, como acentuou Márcio Mendonça, integrante da Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA), para quem a diversidade de adaptação a ambientes torna a agroecologia uma ferramenta mais sustentável e harmônica com a natureza.


O Brasil tem, desde 2012, a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO), criada para estabelecer diretrizes sobre o papel desta produção agrícola em contribuir para o desenvolvimento sustentável e a qualidade de vida da população. Apesar da institucionalização para proteção e impulsionamento de práticas de agriculturas sustentáveis alternativas ao modelo de agricultura convencional, a política ainda enfrenta desafios para sua implementação nos territórios. Márcio Mendonça, da AS-PTA, reiterou o papel dos movimentos sociais socioambientais de pressionar por mais leis e garantias efetivas. “É fazer essa prática incidir em mais políticas públicas”.
Na prática, apesar de existirem diretrizes para a promoção de iniciativas agroecológicas, nem todos conseguem ter acesso a esse amparo. Foi o que mostrou o relatório “Mapeamento Agroecologia, Território e Justiça Climática”, realizado pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Participaram da pesquisa 503 experiências de agroecologia localizadas em 307 municípios. Dessas, apenas 37,2% das experiências disseram acessar políticas públicas.
A pesquisa também apontou como essas pessoas identificam na agroecologia um caminho para combater as mudanças climáticas em diferentes âmbitos. Das 503 iniciativas 70,7% afirmam lidar com manejo e conservação do solo, 42% conservação da água, além da diversificação dos sistemas produtivos (63%), do plantio de árvores e reflorestamento (56,9%), da compostagem (52,7%) e do tratamento ecológico de esgotos (26,2%).
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