Câmara aprova PL dos Minerais Críticos com incentivos ao extrativismo

Foto colorida que mostra máquinas trabalhando em área de mineração. O solo está totalmente cinza. Debate sobre o PL dos Minerais Críticos envolve riscos ambientais

Entidades apontam ameaças ao meio ambiente e aos povos e comunidades tradicionais. Proposta será analisada no Senado

Por Micael Olegário | ODS 12
Publicada em 7 de maio de 2026 - 09:00  -  Atualizada em 7 de maio de 2026 - 10:13
Tempo de leitura: 7 min

Foto colorida que mostra máquinas trabalhando em área de mineração. O solo está totalmente cinza. Debate sobre o PL dos Minerais Críticos envolve riscos ambientais
Projeto cria fundo para financiar projetos de mineração; debate envolve soberania econômica brasileira (Foto: José Cruz / Agência Brasil)

A Câmara de Deputados aprovou na noite desta quarta-feira (06/05) o Projeto de Lei 2.780/2024 que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A proposta prevê incentivos governamentais e prioridade de licenciamento para projetos do setor. Entidades socioambientais denunciam riscos de expansão do modelo extrativista em áreas sensíveis, como terras indígenas.

O PL 2.780/2024 estabelece regras e bases normativas para a pesquisa, a extração, o beneficiamento e a industrialização de minerais essenciais para setores estratégicos. O texto também cria o Comitê de Minerais Críticos e Estratégicos (CMCE), vinculado ao Conselho Nacional de Política Mineral.

Esse comitê será responsável por analisar e homologar a mudança de controle societário, direta ou indireta, de mineradoras que atuam em áreas com minerais críticos e estratégicos, inclusive, terras raras. A proposta inclui ainda um Fundo Garantidor da Atividade Mineral (Fgam) com aporte de R$ 2 bilhões da União, podendo alcançar R$5 bilhões.

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O PL dos Minerais Críticos tramitou em regime de urgência na Câmara e foi aprovado em votação simbólica, após apresentação de um texto substitutivo pelo relator, Arnaldo Jardim (Cidadania-SP). Além das questões socioambientais, a proposta levanta debates sobre a soberania econômica brasileira.

Lacunas e fiscalização

O texto do PL dos Minerais Críticos cita termos como “preservação do interesse nacional”, “desenvolvimento sustentável” e “responsabilidade socioambiental”. A proposta menciona a elaboração de mecanismos de rastreabilidade da cadeia produtiva, porém, não apresenta critérios robustos para fiscalização do setor.

“O projeto permite acelerar o licenciamento sem reforçar controle técnico e fiscalização. Isso aumenta a insegurança jurídica, a judicialização e gera atrasos. Embora mencione a observância das normas ambientais, ele não cria mecanismos adicionais de controle, fiscalização ou qualificação da análise”, observa Adriana Pinheiro, assessora de Incidência Política e Orçamento Público do Observatório do Clima.

Em nota sobre o tema, o Greenpeace Brasil também criticou a falta de transparência e garantia de amplo debate durante a tramitação do PL. A entidade menciona o risco do PL dos Minerais Críticos de aprofundar conflitos, pressionar ecossistemas e reproduzir práticas incompatíveis com uma transição energética justa.

“Tudo indica que o texto está sendo feito para agradar à indústria da mineração e ao agro. Não à toa, o relator tem mencionado novas isenções, além das que já existem para esses setores”, aponta Gabriela Nepomuceno, especialista em Políticas Públicas do Greenpeace Brasil. 

Outro ponto de atenção da proposta é a abertura de precedente para a mineração no oceano, chamada de em mar profundo. Esse tipo de iniciativa pode colocar em risco a biodiversidade marinha e comprometer funções essenciais dos oceanos, como a regulação climática e o armazenamento de carbono.

Povos tradicionais

O texto aprovado na Câmara também gerou críticas em relação à escuta de povos e comunidades tradicionais. O direito à consulta prévia, livre e esclarecida, nos termos da Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) foi incluído pelo relator após o debate no Plenário. 

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Em nota, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) manifestou preocupação com a possibilidade de silenciamento e novas violações de direitos. “A exploração de recursos naturais, ainda que estratégica, não pode sacrificar povos indígenas nem comprometer a integridade dos territórios que sustentam a diversidade socioambiental do país”, diz um dos trechos da nota.

“A experiência recente mostra que o avanço de empreendimentos minerais, especialmente ligados à transição energética, já vem sendo acompanhado por conflitos, judicialização e violações contra povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais”, pontua Thales Machado, assessor de Defesa dos Direitos Socioambientais da Conectas Direitos Humanos.

Foto colorida que mostra imagem aérea da planta da mineradora Serra Verde, em Minaçu, Goiás. Mineração de terras raras
Planta da mineradora Serra Verde, em Minaçu (GO); venda para empresa estadunidense está sendo questionada (Foto: Divulgação / Serra Verde Pesquisa e Mineração)

Soberania e terras raras

Os chamados minerais críticos e estratégicos (lítio, cobalto, níquel, cobre, entre outros) são essenciais para a transição energética, além de serem utilizados na produção de fertilizantes e na indústria tecnológica. Entre esses minerais estão as chamadas terras raras, grupo de 17 elementos químicos (lantanídeos + escândio e ítrio) usados na produção de ímãs, motores elétricos, telas, entre outros equipamentos modernos.

O relator Arnaldo Jardim mencionou que a proposta cria um “marco legal robusto para o desenvolvimento da cadeia de minerais críticos e estratégicos”, além de colocar o Brasil na posição de se tornar um “grande produtor de óxidos de terras raras”. O país detém a segunda maior reserva do mundo desse conjunto de minerais, atrás apenas da China.

Por outro lado, representantes da oposição criticaram a falta de parâmetros para atuação de capital estrangeiro no setor. “A lei precisa deixar claro até onde o capital estrangeiro pode ou não intervir nos interesses brasileiros. Estamos tratando aqui de uma área absolutamente estratégica para o desenvolvimento no século XXI”, disse a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

Recentemente, a única mina de terras raras em operação no país: a Serra Verde, em Minaçu (GO) – foi comprada pela empresa estadunidense USA Rare Earth, por cerca de US$ 2,8 bilhões. Parlamentares do PSOL encaminharam à Procuradoria-Geral da República (PGR) um pedido de anulação da venda, citando “possível invasão de competência da União”.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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