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O efeito estufa da eleição de Trump

Vitória do Republicano é terrível ameaça a avanços sobre aquecimento global

Donald Trump: ameaça de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris
Donald Trump: ameaça de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris. Foto de Timothy A. CLARY/AFP

A vitória de Donald Trump provoca calafrios. Considere, por exemplo, o futuro da humanidade e do planeta. Não se trata de exagero retórico. Ele quer jogar no ralo as conquistas arduamente obtidas pela comunidade internacional nos últimos 40 anos, no que se refere ao combate à emissão de gases-estufa e às metas para manter a Terra habitável para as futuras gerações.

Enquanto Trump saboreia a vitória, a Conferência da Onu Sobre Mudanças Climáticas (COP 22) se realiza até dia 18 em Marrakesh, no Marrocos. O principal foco da conferência é pôr em prática o Acordo de Paris, negociado em novembro de 2015 e aprovado a 12 de dezembro por 197 países, com total apoio do presidente Barack Obama.

Uma das promessas de Trump é retirar os EUA do tratado. Ou seja: livrar o segundo maior poluidor do mundo dos compromissos assumidos com outras 197 nações e com o futuro da humanidade. O que está, aliás, em linha com declarações do ainda candidato de que o aquecimento global não passa de um embuste criado pela China para prejudicar a competitividade da indústria americana.

Vamos ver algumas das iniciativas prometidas por Trump:

  1. Retirada dos EUA do Acordo de Paris

A meta do tratado é manter o aumento da temperatura média global em menos de 2ºC acima dos níveis pré-industriais e fazer um esforço para ir além – limitar essa elevação a 1,5º C.  O Brasil assumiu o compromisso de cortar as emissões de gases-estufa em 37% até 2025, com o indicativo de redução de 43% até 2030, em comparação aos níveis de 2005.

Em tese, se Trump cumprir a promessa, a China poderá ir em duas direções: manter os compromissos assumidos no tratado e sacramentar os EUA como o grande vilão climático mundial; ou se sentir livre para também deixar de cumpri-lo, o que seria o pior dos mundos

Trump pode simplesmente retirar os EUA do acordo firmado por Obama? Segundo a Ministra do Meio Ambiente da França, Ségolène Royal, não. Ela disse ao jornal inglês “Independent” que o acordo proíbe a saída de um país signatário por  três anos, mais um ano de “aviso prévio”, o que daria um período de estabilidade de quatro anos.

Alvo da declaração de Trump sobre o “embuste” do aquecimento global, a China, o maior poluidor, tornou-se recentemente  o maior investidor mundial em energia renovável. Confrontado com a promessa do presidente eleito dos EUA de retirar seu país do tratado, o principal negociador chinês, Xie Zhenhua, disse ao Independent: “Se eles resistirem à tendência (de aceitar as provas científicas do aquecimento global), acho que não terão o apoio da população e o progresso econômico e social do país será afetado. Entendo que um líder sábio deve adotar posições de acordo com as tendências globais”.

Em tese, se Trump cumprir a promessa, a China poderá ir em duas direções: manter os compromissos assumidos no tratado e sacramentar os EUA como o grande vilão climático mundial; ou se sentir livre para também deixar de cumpri-lo, o que seria o pior dos mundos.

2. Derrubada das medidas pró-ambiente do governo Obama

A política ambiental de Trump é pautada por sua negação de que as mudanças climáticas sejam reais ou relevantes. Segundo  o site Law Street Media, seu plano original era abolir inteiramente a Agência de Proteção Ambiental (EPA), cujo raio de ação foi significativamente ampliado por Obama. Mas como isto não está entre seus poderes unilaterais, o que contará mesmo é quem ele escolherá para dirigir a agência. Se depender de quem indicou para chefiar a equipe de transição, a situação é preocupante. Trata-se de Myron Ebell, diretor do Centro para Energia e Meio Ambiente, um think tank conservador, que usa dados científicos questionáveis para denunciar o “alarmismo global sobre o aquecimento”.

Ebell acredita que o Clean Power Plan (Plano da Energia Limpa), de Obama, que mudará profundamente  a produção futura de energia nos EUA, é não só um enorme desperdício de recursos públicos mas também ilegal, devido à carga de regulamentação que impõe aos negócios no país.

3) Remover o máximo possível de regulamentação

Trump e equipe encaram as exigências criadas nos últimos anos para que as atividades econômicas emitam menos poluentes como obstáculos ao crescimento da produção e à criação de empregos. Segundo Law Street Media,  os planos do presidente eleito incluem a liberação de espaços federais sob proteção, na terra e no mar, para exploração de petróleo e gás.

Colocar uma área sob proteção federal  é uma das poucas armas de um presidente dos EUA  para proteger o meio ambiente. Tanto George W. Bush quanto Bill Clinton usaram amplamente esse recurso, no caso de Clinton especificamente para evitar que companhias de óleo e gás fizessem perfurações em determinadas áreas. “A tentativa de Trump de usar seu futuro poder como chefe do Executivo para remover esses obstáculos é como se um presidente lutasse diretamente contra o legado de outro”, observou o site Law Street Media.

4) Ênfase na produção de óleo e gás

Em artigo no site “The Conversation”, o diretor do Instituto de Energia da Universidade de Michigan, Mark Barteau, relatou que a produção doméstica de óleo e gás aumentou substancialmente, tornando os EUA os maiores produtores mundiais de energia e reduzindo a dependência americana do óleo importado de 57% para 24%, desde a eleição do presidente Obama.

Trump fala numa “revolução energética”, que produziria uma “nova e vasta riqueza” para o país.  Nada a ver com a revolução energética preconizada por Obama, baseada, em grande parte, em novas tecnologias e em energias renováveis e limpas. Para Trump, trata-se de abrir novas áreas, inclusive sob proteção, para a produção de óleo, gás  e até mesmo carvão, num perigoso retrocesso.

A única limitação em sua política “perfure, baby, perfure” e “cave, baby, cave” é o reconhecimento de que as comunidades devem ter o direito de opinar sobre a permissão para, por exemplo, o uso da técnica de fraturamento hidráulico, utilizada na obtenção de óleo e gás de xisto.

5) Ameaça à Energia renovável

Trump fez declarações no mínimo preocupantes sobre fontes renováveis de energia. A seu ver, energia solar é OK, mas pouco competitiva em termos de custos. Ele também sugeriu que a energia eólica é uma “matadora de águias” e deixa para trás carcaças de turbinas obsoletas na paisagem. Na sua concepção, nenhuma das duas merece subsídios.

Por outro lado, afirmou que protegerá o Renewable Fuel Standard (RFS – Padrão de Combustível Renovável), que estimula a produção de biocombustíveis, como etanol à base de milho. Mas ele deverá descobrir que esta é uma questão controversa entre seus próprios partidários, variando de acordo com os diferentes interesses dos estados.

Segundo Mark Barteau, a “revolução energética”  de Trump se baseia na expansão da produção convencional de energia e na oposição a tudo que a limite. E sua política para o clima é totalmente afinada com a visão de que os controles sobre a emissão de gases-estufa devem ser eliminados.

Para Khalid Pitts, diretor do grupo ambientalista americano Sierra Club, “os líderes mundiais evoluem, mas a ignorância científica de Donald Trump continua a mesma”. Em declaração ao “Independent”, frisou que “eleger um defensor da teoria da conspiração científica na questão climática, como Trump, tornará os EUA alvo de chacota e prejudicará nosso papel de liderança mundial. Não se negocia com o derretimento de geleiras, nem com a elevação dos mares. A incapacidade moral de Donald Trump de reconhecer a crise climática pode muito bem significar um desastre em escala planetária”.

Escrito por Trajano de Moraes

Trajano de Moraes

Jornalista com longas passagens por Jornal do Brasil, na década de 1970, e pelo Globo (1987 a 2014), sempre tratando de temas de Política Internacional e/ou Economia. Estava posto em sossego quando foi irresistivelmente atraído pelos encantos do Projeto#Colabora. E resolveu sair da toca.

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