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João Silvério: ‘Envelhecer é pior entre LGBTs por conta do medo da solidão’

Escritor e fundador do 'Jornal Lampião', em plena ditadura, relembra relação conturbada com o pai: 'Não era o macho que ele esperava'


Em seu amplo apartamento localizado no Centro de São Paulo, onde vive com o companheiro e suas duas cachorras, João Silvério Trevisan nos recebe para aquela que seria a última entrevista da série “LGBT+60: Corpos que Resistem”. Com a agenda cheia, remarcamos algumas vezes o encontro. Além de participações em seminários, João, que é escritor, se ocupava com a reedição do livro “Devassos no Paraíso”, obra em que percorre a história da homossexualidade no Brasil da colônia à atualidade.

João também é cineasta, jornalista, dramaturgo, entre outras atividades. Está concorrendo ao prêmio Jabuti de melhor romance pelo livro “Pai, Pai”, de 2017, que narra a difícil relação entre ele e seu pai. Antes da primeira pergunta, Silvério pede desculpas por estar resfriado e com a fala um pouco comprometida.

João Silvério passou 10 anos no seminário: ‘Me diziam que isso era uma coisa da adolescência, que iria passar. Eu me preocupava, porque não passava nunca’, diz sobre homossexualidade (Foto: Felippe Franco)

“Tive uma infância muito difícil e não gostaria de, em hipótese alguma, voltar para lá. Eu tinha muito medo do meu pai e eu não conseguia entender por que eu apanhava tanto”, conta. Só mais tarde, ele viria a descobrir que o que o incomodava era o fato de o filho ser caracterizado como “maricas. “Eu não era o macho que ele esperava”.

Acho que, entre mortos e feridos, nós estamos vivos. E não apenas vivos como sobreviventes zumbis, mas nós estamos bem vivos

João Silvério

Durante a conversa, João ainda recorda os 10 anos em que passou por dois seminários. Foi a saída encontrada para fugir da violência paterna. Na ditadura militar, mudou-se para o exterior (México e EUA) em exílio voluntário. Ao retornar para o Brasil, funda o Jornal Lampião, publicação de resistência durante os anos de censura promovida pelo golpe.

Foram quase 40 minutos de conversa. Por conta de toda sua pesquisa sobre homossexualidade, João tem muito o que falar sobre os mais diversos assuntos. Entre eles, a chegada da terceira idade. “O medo de envelhecer é muito pior dentro da comunidade LGBT por conta do medo da solidão”, acredita.

‘Sou escritor e entre outros componentes da minha personalidade, eu sou homossexual’, afirma João Silvério Trevisan, fundador do Jornal Lampião (Foto: Yuri Fernandes)

Fica triste ao saber que o vídeo final teria não mais do que 10 minutos. Pede a gravação completa para deixar em seus arquivos. Terminada a entrevista, me despeço e espero o Uber na porta do prédio. Minutos depois, desce Trevisan. Ele se despede novamente. Atravessa a rua correndo, afinal o sinal acabara de abrir. O pique nem de longe lembra um senhor de 74 anos. João Silvério é um resistente.

Aproveito para relembrar o que ele disse ao final da gravação: “Eu acho que entre mortos e feridos, nós estamos vivos. E não apenas vivos como sobreviventes zumbis, mas nós estamos bem vivos. E nós fizemos tudo o que fizemos por conta da nossa experiência com a dor”.

João Silvério é o último entrevistado da série ‘LGBT+60: Corpos que Resistem’. ‘O preconceito na terceira idade LGBT é muito presente, muito óbvio’, conta. (Foto: Felippe Franco)

LGBT+60: CORPOS QUE RESISTEM

 


Escrito por Yuri Fernandes

Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é mineiro de Ipatinga. Sempre sonhou em morar no Rio de Janeiro e realizou seu desejo em 2014 ao passar para o programa de estágio da TV Globo. Trabalhou nas redações do "Bom Dia Brasil", do "Jornal Nacional" e do "EGO". Tem grande interesse em pautas de inclusão social e diversidade de gênero. Acredita que o jornalismo pode e deve ser usado como forma de combater a opressão a minorias. Cresceu vendo novelas e sempre manteve essa paixão viva.

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3 Comentários

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  1. As entrevistas são de uma sensibilidade incrível, impossível não ser tocado de alguma forma. Respeito pela história dessas pessoas, aliás histórias que dizem também sobre nós enquanto coletivo. Me acalenta em tempos tão difíceis como os atuais, que exigem mais do que nunca resistência. Gratidão.

  2. Obrigado pelo vídeo (lindo) e pela matéria! João Trevisan é inspiração das grandes. Eminente nesse momento sombrio pra nós.

    PS: me junto ao coro dele, queria muito o vídeo completo 🙁

  3. Oie. Sou Kelly Cristina Martins. 38 anos mulher trans e tenho uma historia muito forte pra contar. Sou uma das poucas sobreviventes deste mundo hostil que prega o ódio à diversidade. Se quiserem entre em contato comigo

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