João Nery: a morte de um herói

Morre, aos 68 anos, primeiro homem trans a fazer cirurgia de redesignação sexual no Brasil. Ele dizia: 'a sociedade machista não aguenta o feminino'

Por Yuri Fernandes | ODS 5 • Publicada em 25 de outubro de 2018 - 22:40 • Atualizada em 3 de março de 2020 - 18:09

Morre, aos 68 anos, primeiro homem trans a fazer cirurgia de redesignação sexual no Brasil. Ele dizia: 'a sociedade machista não aguenta o feminino'

Por Yuri Fernandes | ODS 5 • Publicada em 25 de outubro de 2018 - 22:40 • Atualizada em 3 de março de 2020 - 18:09

Compartilhe

Durante entrevista, João Nery lamenta transfobia: ‘Mortes terríveis, de formas dilacerantes e com o objetivo de humilhar depois da morte’. (Foto: Yuri Fernandes)

Faleceu hoje no Rio, aos 68 aos,  o psicólogo e ativista  João Nery. Ele foi o primeiro homem trans a fazer uma cirurgia de redesignação sexual no Brasil. Realizada em plena ditadura militar, o procedimento era considerado mutilação de um humano. João foi um dos entrevistados da série do #Colabora “LGBT+60: Corpos que Resistem”. Durante uma conversa emocionante com a nossa equipe, ele deixou uma linda mensagem: “Eu não me arrependo de nada do que eu fiz na minha vida. O importante é viver cada dia, porque é realmente o presente que você vive”.

LEIA MAIS: conheça outras histórias no especial LGBT+60

João Nery recebeu a equipe do #Colabora em sua casa, em Niterói, para aquela que seria sua primeira entrevista após o tratamento de quimioterapia e uma das últimas de sua vida. Ele descobriu um câncer no pulmão em agosto do ano passado.

Com o apoio de uma bengala, ele caminha pela sala procurando objetos e imagens que poderiam servir para ilustrar a entrevista. Em uma estante repleta de livros, vejo uma foto antiga da família. Peço a João que aponte a se próprio na imagem. “Adivinha? Olha a minha cara emburrada porque colocaram esse vestido em mim”, ele ri. De fato, o semblante de João se diferenciava dos outros. Já eram os principais sinais de uma resistência que duraria por toda sua vida. “Todo mundo me acha um herói corajoso, não sou. Eu não poderia viver como mulher, seria um inferno pra mim”.

João Nery: ‘Todo mundo me acha um herói, não sou. Eu não tinha saída’
‘Quanto mais feminina for uma bicha, exatamente aquele bichinha pintosa, bem desmunhecativa, essa é uma heroína, essa desmistifica exatamente toda essa hipocrisia social’  (Foto: Yuri Fernandes)

Antes de as câmeras serem ligadas, o autor do livro “Viagem Solitária – Memória de um transexual 30 anos depois” pede que as perguntas da entrevista sejam lidas antes. Eu mostro e explico que elas estão divididas em tópicos que vão da infância até sobre suas expectativas diante de Brasil tomado por uma onda enorme de intolerância.

Não é possível que uma pessoa se incomode com a conduta sexual de outra se isso não for um problema pra ela

João Nery
Homem trans, 68 anos

Em pouco menos de dois minutos, João lê tudo e afirma: “Vamos lá. Vou tentar responder de uma vez”. A facilidade em conectar um tema ao outro me impressiona. Enquanto ele fala, com um pouco de dificuldade devido ao tratamento, eu risco as questões que estavam sendo respondidas. Por fim, deixo meu bloquinho de lado para concentrar ao máximo nas palavras de João.

LEIA MAIS: Ana e Tereza, mulheres trans e cis, são casadas há 40 anos

LEIA MAIS: casal superou a agressão homofóbica e saiu fortalecido

LEIA MAIS: Aos 67 e 72 anos, elas sonham com o casamento

“Olha, tudo o que estou falando eu já disse muitas vezes, mas essa entrevista está sendo diferente”, ele observa durante a gravação. E realmente estava. Segundo João, diante da morte, alguns valores que achava tão indispensáveis na vida foram refeitos. E mesmo com as novas limitações, afirma: “Eu sempre acho que estou na melhor fase da minha vida. Se eu não me fizer feliz, quem vai fazer?”.

João Nery: ‘Todo mundo me acha um herói, não sou. Eu não tinha saída’
João mostra a foto em que aparece de vestido e com a cara emburrecida (Foto: Yuri Fernandes)

Semanas após a entrevista, no início de setembro, Nery anunciou que o câncer havia chegado ao cérebro, no estágio 3. Espalhando uma corrente de solidariedade nas redes sociais, ele contou que seguirá escrevendo seu próximo livro: “Velhice Transviada”. João aproveitou para deixar um recado aos jovens: “Não se acovardem. Ser o que somos não tem preço. Viver uma mentira nos enlouquece”.

João é casado, pai de um filho. Na adolescência, era visto “como uma moça para os conhecidos, e como um rapazinho para os desconhecidos”. Se formou em Psicologia, mas perdeu o diploma após mudar o nome quando isso ainda era crime. Hoje, está desempregado e sem aposentadoria.

João é um resistente.

LGBT+60: CORPOS QUE RESISTEM

 

 

Yuri Fernandes

Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é mineiro de Ipatinga. Sempre sonhou em morar no Rio de Janeiro e realizou seu desejo em 2014 ao passar para o programa de estágio da TV Globo. Trabalhou nas redações do "Bom Dia Brasil", do "Jornal Nacional" e do "EGO". Tem grande interesse em pautas de inclusão social e diversidade de gênero. Acredita que o jornalismo pode e deve ser usado como forma de combater a opressão a minorias. Cresceu vendo novelas e sempre manteve essa paixão viva.

Newsletter do Colabora

Nossa newsletter é enviada de segunda a sexta pela manhã, com uma análise do que está acontecendo no Brasil e no mundo, com conteúdo publicado no #Colabora e em outros sites.

3 comentários “João Nery: a morte de um herói

  1. Jordhan Lessa disse:

    Parabéns pelo trabalho realizado com enorme sensibilidade, creio que, talvez, nunca tenha sido tão importante o registro de nossas histórias, existimos re-existimos e não temos armários para voltar, nossos corpos podem até serem apagados, mas sempre existiremos na história recente da humanidade por causa de olhares iguais ao seu, obrigado!

  2. Dioniso disse:

    Jovem, João Nery NUNCA fez cirurgia de redesignação. Parem de apagar a história dos homens trans e reescrever como bem quiserem.
    A cirurgia que ele fez foi a mastectomia, somente. E não deixou de ser homem por não se adequar ao padrão cis, pelo contrário: foi muito mais homem que qualquer um quem tenha ganhado de bandeja isso logo ao nascimento, pois lutou pra ser reconhecido assim.

  3. Maria do Carmo Gonçalves disse:

    Parabéns Dionísio pelo seu esclarecimento.
    Fiquei emocionada com a reportagem, uma linda história de vida que não pode ser escrita de qualquer maneira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *