Doação com ‘business plan’

‘Quando se trata de ajudar os outros, uma atitude irrefletida muitas vezes significa ineficácia’, defende MacAskill

Movimento em favor de um altruísmo mais eficaz ganha adeptos no mundo todo

Por Claudia Sarmento | ODS 17 • Publicada em 20 de dezembro de 2015 - 09:03 • Atualizada em 21 de dezembro de 2015 - 11:15

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‘Quando se trata de ajudar os outros, uma atitude irrefletida muitas vezes significa ineficácia’, defende MacAskill
'Quando se trata de ajudar os outros, uma atitude irrefletida muitas vezes significa ineficácia', defende MacAskill
‘Quando se trata de ajudar os outros, uma atitude irrefletida muitas vezes significa ineficácia’, defende MacAskill

Quando era estudante de pós-graduação na Universidade de Oxford, o escocês William MacAskill tinha dúvidas sobre que carreira queria seguir e como ajudar quem precisa. Seu desejo era fazer diferença, investindo em algo que tivesse o potencial, quem sabe, de salvar uma vida. Ou várias. O jovem transformou essa busca por uma boa causa em pesquisa científica. Quem já passou pelo Reino Unido sabe que o que não falta em cidades como Londres são cartazes anunciando todo tipo de campanha. Impossível entrar no metrô ou ligar a TV sem se deparar com pedidos de doações que vão do combate à malária à adoção de um urso polar. Para decidir que ação  priorizar, MacAskill defende que é necessário ir além das boas intenções, escolhendo uma causa que tenha impacto real. Em outras palavras, ele não acha que devemos apenas nos preocupar em fazer o bem, e sim em fazer o melhor possível.

Muito frequentemente deixamos de pensar cuidadosamente sobre como ajudar os outros, acreditando equivocadamente que a aplicação de dados e racionalidade a um esforço de caridade rouba o ato da virtude

William MacAskill
Autor do livro “Doing Good Better”

Com a ajuda de outro pesquisador, Toby Ord, o jovem – que hoje, aos 28 anos, é professor de Filosofia em Oxford – iniciou o movimento Altruísmo Eficaz, explicado num livro que está entre os melhores de 2015, segundo a imprensa britânica. “Doing Good Better” (“Fazendo o Bem Melhor”, em tradução livre) explica como otimizar a vontade de ajudar o próximo. Parece racional demais para uma decisão, muitas vezes, tomada com base na emoção? Sim. Mas é exatamente esse o ponto de MacAskill. Como o mundo não é feito de Mark Zuckerbergers que têm bilhões de dólares para doar, ele acredita que é essencial conhecer as ações mais efecientes, representadas pelas ONGs que produzem mais resultados por dólar investido.

As ideias de MacAskill e Ord abriram um debate no mundo da filantropia. Nem todos os especialistas no assunto concordam com sua visão, mas o conceito do Altruísmo Eficaz vem, por outro lado, conquistando uma série de adeptos e ganhou até uma conferência global realizada em agosto na sede do Google, na Califórnia. “Quando se trata de ajudar os outros, uma atitude irrefletida muitas vezes significa ineficácia”, defende MacAskill.

O escocês não ficou apenas na teoria, ajudando a criar duas ONGs. A Giving What We Can e a 80000 Hours. A primeira incentiva doadores a oferecerem 10% do que ganham para instituições filantrópicas, auxiliando os participantes a escolherem as melhores para que o dinheiro não seja desviado por políticos corruptos ou administração caótica, problemas comuns nos países que mais precisam de ajuda. A segunda – cujo nome vem da média de horas trabalhadas por uma pessoa ao longo da vida – dá conselhos sobre escolhas profissionais que podem fazer alguma diferença em campanhas sociais.

Não há dúvidas sobre como um voluntário do Médicos Sem Fronteira, por exemplo, está lutando por um mundo melhor. Mas um banqueiro ou um empresário, na visão de MacAskill, poderia contribuir de forma ainda mais ampla se doasse parte de seus lucros para a redução das desigualdades globais. Esse conceito, o do “ganhar para dar”, é um dos pontos mais criticados pelos opositores do Altruísmo Eficaz, porque nos leva a crer que, para abraçar uma causa humanitária, é mais produtivo arrumar um emprego em Wall Street do que numa ONG.

MacAskill, porém, reforça que seu objetivo não é desmerecer a filantropia feita de forma puramente intuitiva, mas ressalta que, quando começou a aplicar a tese do custo-benefício em campanhas de combate à pobreza, descobriu que as melhores ONGs são centenas de vezes mais eficientes que as organizações tidas como meramente “boas”.  A aplicação do pensamento quantitativo na caridade já conquistou nomes como o filósofo autraliano Peter Singer, que se transformou num dos porta-vozes do Altruísmo Eficaz, e Jaan Tallinn, co-fundador do Skype.

As informações das organizações humanitárias nem sempre são transparentes ou pelo menos divulgadas de forma organizada, deixando os doadores sem saber como sua contribuição foi aproveitada. Além disso, há campanhas com muito mais visibilidade que outras. MacAskill sugere, portanto, cinco perguntas que servem como guia para quem quer abraçar uma causa com eficiência: Quantas pessoas se beneficiam e por quanto? Esse é o projeto mais eficiente que eu posso adotar? Essa é uma área negligenciada? O que aconteceria sem esse investimento? Quais as chances de sucesso e o quão bem-sucedida a campanha pode ser? O autor dá respostas para essas perguntas com base em números e muitos exemplos.

Os casos são a parte mais interessante do estudo, mesmo para quem não concorda com a filosofia de MacAskill. Seu livro conta, por exemplo, a história de um casal de pesquisadores de Harvard, Michael Kremer e Rachel Glennester, que investigaram por que a distribuição de livros não estava melhorando o desempenho escolar de crianças no Quênia. Na comparação dos dados entre escolas que eram beneficiadas pelo programa e as que não eram, perceberam que não havia grande diferença no resultado dos alunos. Sugeriram então o aumento do número de professores, mas a iniciativa tampouco trouxe uma grande mudança. Até que, por recomendação de um amigo do Banco Mundial, começaram a combater verminoses entre as crianças – problema que afeta mais de um bilhão de pessoas no mundo. Ao distribuírem remédios que podem ser comprados por baixo custo, viram o índice de absenteísmo escolar no Quênia despencar 25%. Cada US$ 100 gastos no programa garantiram um total de dez anos a mais de frequência escolar entre os alunos.

Os parasitas causam anemia, problemas intestinais e afetam o sistema imunológico, aumentando o risco de malária, entre outras doenças. Desde 2007, Michael Kremer e Rachel Glennester dirigem uma ONG que presta assistência a governos de países em desenvolvimento no combate a parasitoses. Já atingiram 40 milhões de pessoas, e sua organização (Deworm the World Initiative) é considerada uma das mais eficientes do planeta.

“Muito frequentemente deixamos de pensar cuidadosamente sobre como ajudar os outros, acreditando equivocadamente que a aplicação de dados e racionalidade a um esforço de caridade rouba o ato da virtude”, explica MacAskill. Segundo ele, crises provocadas por desastres naturais são outro exemplo de como pessoas bem- intencionadas podem acabar fazendo doações desnecessárias caso não tenham acesso a dados. Devastado por um terremoto em 2010, o Haiti recebeu toneladas de doações, mas não havia infra-estrutura para administrar a ajuda enviada. O Japão, atingido por uma tsunami em 2011, também recebeu tanto material que a Cruz Vermelha precisou divulgar um comunicado pedindo a suspensão das doações.

MacAskill e defensores do Altruísmo Efetivo têm razão em estimular a análise das informações disponíveis para que doadores tomem decisões com base em necessidades reais e possam acompanhar o impacto de suas ações. O único problema é que – para quem está disposto a ajudar os outros – emoção e empatia sempre terão um peso na decisão. Além disso, eles têm propostas controversas. Acreditam que boicotar produtos produzidos em fábricas com mão de obra barata e péssimas condições de trabalho, as chamadas sweatshops, é contraprodutivo, pois o resultado, ou seja, desemprego, pode ser ainda pior para trabalhadores de países como Bangladesh.

De qualquer maneira, entre defensores e críticos, o conceito do Altruísmo Efetivo vem avançando e várias instituições já se consideram parte do movimento, entre elas a elogiada GiveWell, que avalia programas filantrópicos, em termos de vidas salvas ou condições de vida melhoradas, recomendando as melhores. Como sua lista acaba atraindo um maior número de doadores para as organizações indicadas, várias ONGs hoje buscam a GiveWell para requisitar sua análise.

MacAskill encerra seu livro lembrando o exemplo de Oskar Schindler, empresário polonês que fabricava munição para os nazistas e foi visto, inicialmente, como oportunista. Ao tomar conhecimento do Holocausto, Schindler passou a subornar oficiais para salvar seus funcionários judeus. Salvou mais de mil vidas. “Você pode pensar que a guerra é um momento incomum e que, portanto, o altruísmo de Schindler não é realmente relevante para nossas vidas. O que vimos neste livro é que isso não é verdade. Cada um de nós tem o poder de salvar dezenas ou centenas de pessoas, ou de melhorar significativamente o bem-estar de milhares. Talvez não ganhemos livros ou filmes sobre nós, mas podemos fazer o bem em quantidades surpreendentes, exatamente como Schindler fez”, conclui.

Claudia Sarmento

Trabalhou por mais de 20 anos no jornal O Globo, mas não gostava de ficar muito tempo no mesmo lugar. Foi editora de Mundo e da Revista da TV, gerente de produtos, e, mais recentemente, correspondente no Japão. Há um ano trocou Tóquio por Londres, onde acaba de completar um mestrado em Cultura Digital pelo King's College.

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