Diversidade, inclusão e sustentabilidade são o caminho para o turismo pós-pandemia

Praia de Sibaúma, com o Chapadão de Pipa ao fundo: Rio Grande do Norte foi um dos destinos brasileiros a discutir turismo sustentável na WTM Latin America, principal evento do setor de viagens no Brasil | Foto de Carla Lencastre

Um dos principais eventos da área no Brasil, WTM Latin America discute questões ambientais e a participação essencial de comunidades locais e LGBT+ na retomada do setor de viagens

Por Carla Lencastre | ODS 12 • Publicada em 20 de agosto de 2021 - 09:58 • Atualizada em 1 de setembro de 2021 - 08:20

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Praia de Sibaúma, com o Chapadão de Pipa ao fundo: Rio Grande do Norte foi um dos destinos brasileiros a discutir turismo sustentável na WTM Latin America, principal evento do setor de viagens no Brasil | Foto de Carla Lencastre

Depois de quase um ano e meio de pandemia, está claro que não teremos nenhum pacto global pelo bem comum. Mas ainda assim é animador ver a World Travel Market Latin America, a versão latino-americana de um dos maiores e mais importantes eventos de turismo do mundo, dedicar três dias a discussões sobre diversidade, inclusão e sustentabilidade no setor de viagens. A nona edição da feira WTM Latam foi realizada virtualmente em São Paulo semana passada e teve a participação de mais de três mil profissionais da área, incluindo representantes de 20 países. Além de mais de quatro mil encontros de negócios, que acrescentaram um inesperado dia extra à feira, foram os conteúdos relevantes dos painéis, com abordagens bem diferentes das edições pré-pandemia, os grandes destaques da WTM.

Empresas nacionais e internacionais de diversos segmentos do setor de viagens apresentaram iniciativas práticas para alcançar metas de carbono neutro, enquanto destinos turísticos brasileiros e estrangeiros mostraram o que estão fazendo para gerar renda para comunidades locais ou atender melhor a visitantes LGBT+, entre outros exemplos. “Esta edição do WTM provou que o turismo pode ser diverso e inclusivo”, aponta o consultor Hubber Clemente, do Afroturismo Hub. “E quando se trata de diversidade e inclusão, como diz o Emicida, tudo é para ontem”.

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Em um evento deste porte há também greenwashing, o marketing verde, ou, algo como “sustentabilidade de fachada”, como destinos que não conseguem apresentar exemplos práticos do que dizem estar fazendo ou empresas conhecidas por deixar fortes pegadas ambientais se dizendo sustentável. Mas o saldo dos painéis é positivo. E o WTM, dirigido pela primeira vez por Simon Mayle, britânico residente no Brasil, tem também o mérito de passar uma mensagem civilizadora para um setor ainda tão desconectado do desenvolvimento sustentável: não haverá viagens nem turismo se não houver um planeta saudável.

A Euromonitor International, empresa de análise de mercado presente em 15 países incluindo o Brasil, apresentou uma pesquisa com dados demográficos e socioeconômicos focados no setor de turismo e fez projeções para a retomada. À medida em que a vacinação progredir, a recuperação da indústria global se dará em algum momento entre 2022 (cenário mais otimista) e 2024. A consultora Marilia Borges destaca que inovação será fundamental na retomada: “Digitalização e sustentabilidade serão dois pilares das melhores práticas do turismo. A pandemia acelerou inovações, e estão surgindo novos mercados e modelos de negócios. Consumidores em todo o mundo passaram a valorizar mais empresas que tratam bem as pessoas e se preocupam em diminuir emissões de carbono. Turistas estão ávidos para entender qual o impacto social e ambiental que estão causando nos destinos visitados”.

Digitalização e sustentabilidade serão dois pilares das melhores práticas do turismo. (…) Turistas estão ávidos para entender qual o impacto social e ambiental que estão causando nos destinos visitados

Marilia Borges
Consultora da Euromonitor Internacional

Os dados da Euromonitor mostram que as comunidades locais que seguirem pelo caminho da sustentabilidade serão protagonistas nesta recuperação. Diversas pesquisas mostram que há um número cada vez maior de pessoas que buscam experiências mais autênticas e querem viajar para gerar um impacto positivo.

Mas como atrair este turista mais responsável? E como conscientizar o visitante? Transformar o discurso em prática nem sempre é fácil e um painel com três destinos nacionais apontou alguns caminhos da iniciativa pública, ainda bem incipiente no Brasil quando o assunto é turismo sustentável.

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Os lugares não poderiam ser mais diferentes: a cidade de Foz do Iguaçu (Paraná) e os estados do Rio Grande do Norte e de Mato Grosso do Sul. Paulo Agnelli, secretário de turismo de Foz do Iguaçu, chamou a atenção para uma peculiaridade do turismo na cidade:

“Foz do Iguaçu não é uma cidade turística. É uma cidade com pontos turísticos. O visitante não interage com os moradores. Por isso queremos criar atrações no Centro, para que haja uma interação que gere renda direta para quem vive na cidade.”

Entre estas novas atrações que valorizam a sustentabilidade e a diversidade, está, por exemplo, um circuito de bicicleta por templos de diferentes religiões. Apesar do discurso, Foz do Iguaçu chamou a atenção em de 2020 ao promover o turismo irresponsável no auge da primeira onda de covid-19 no país, como contamos aqui no #Colabora. Agnelli reconhece: “Foram tomadas decisões equivocadas no início da pandemia.”

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Em outra ponta do país, o Rio Grande do Norte também promete que o turismo será diferente daqui para frente. “Além de preservar o meio ambiente, é fundamental que a atividade turística gere renda para a comunidade local, diz Leonardo Seabra, da Empresa Potiguar de Promoção Turística (Emprotur), que reconhece que o caminho é longo: “A pandemia nos impulsionou a buscar soluções e acelerou algumas iniciativas. Não podemos exaurir nossos recursos naturais e temos que nos promover a partir da visão de sustentabilidade. Mas ainda estamos na fase inicial. Um dos nossos pilares é investir em capacitação. Estamos desenvolvendo roteiros que contemplem todos os princípios sustentáveis, segmentados para diferentes públicos, e que gere renda para o destino. Porque não há desenvolvimento sustentável com evasão de renda”.

Entre o Paraná e o Rio Grande do Norte, o Mato Grosso do Sul foi outro estado brasileiro a apresentar suas iniciativas sustentáveis na feira WTM Latin America. Ou ações responsáveis, como prefere Bruno Wendling, presidente da Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul, órgão governamental. “Bonito tem 60% da população ligada ao turismo. O baixo impacto ambiental e a organização estão DNA, e a maior parte dos empreendedores é local, de pequenos negócios a grandes investidores. Não precisa de grandes ajustes. Já em Corumbá estamos em fase de transição dos ribeirinhos, da pesca de subsistência para a prática esportiva, e começamos a trabalhar roteiros de base comunitária”.

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Wendling chamou a atenção também para a importância do turismo LGBT+ no estado. “Promovemos um workshop de hospitalidade, que contou com mais de 100 empresários e teve fila de espera. Não basta dizer que o destino é LGBT+. É preciso estar preparado para receber este turista. Criamos uma marca para o turismo LGBT+ e fizemos uma campanha no Instagram com casais de verdade, com alcance de mais de 150 mil pessoas. Estamos prontos para voltar a receber o turista LGBT+ internacional, que ia muito ao Pantanal. Mas será preciso uma política pública para reposicionar a imagem do Brasil para o visitante internacional”, acrescentou Wendling em um painel moderado por Clovis Casemiro, coordenador de Turismo LGBT+ no Brasil da IGLTA (International Gay and Lesbian Travel Association).

A WTM é um evento generalista de turismo, e não específico sobre desenvolvimento sustentável. O fato de temas como diversidade, inclusão e sustentabilidade estarem sendo discutidos por tanta gente ao longo de três dias de uma feira de negócios ressalta a importância do debate para o setor de viagens. Além de cobrar iniciativas práticas de órgãos públicos e empresas privadas para ontem, é sempre bom lembrar que só existe turismo sustentável onde há turistas responsáveis. Cada um tem que fazer a sua parte.

Carla Lencastre

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou por mais de 25 anos na redação do jornal O Globo nas áreas de Comportamento, Cultura, Educação e Turismo. Editou a revista e o site Boa Viagem O Globo por mais de uma década. Anda pelo Brasil e pelo mundo em busca de boas histórias desde sempre. Especializada em Turismo, tem vários prêmios no setor e é colunista do portal Panrotas. Desde 2015 escreve como freelance para diversas publicações, entre elas o #Colabora e O Globo. É carioca de mar e bar. Gosta de dias nublados. Ama viajar. Está no Instagram e no Twitter em @CarlaLencastre 

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