Hotel sustentável: segmento cresce durante a pandemia

Mirante do Gavião, às margens do Rio Negro, no Amazonas: hotel integrado à natureza e à comunidade local | Foto de divulgação/Jean Dallazem

Ecobnb, ‘hotéis além do verde’, 'casas únicas’: há novas opções comprometidas com o meio ambiente e com as comunidades locais para serem priorizadas na retomada das viagens

Por Carla Lencastre | ODS 12 • Publicada em 9 de julho de 2021 - 09:23 • Atualizada em 19 de julho de 2021 - 18:35

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Mirante do Gavião, às margens do Rio Negro, no Amazonas: hotel integrado à natureza e à comunidade local | Foto de divulgação/Jean Dallazem

Há boas intenções. Pesquisas recentes mostram que viajantes de todo o mundo, brasileiros inclusive, gostariam de retomar as viagens de maneira mais sustentável, priorizando acomodações em meio a natureza, que se preocupam com as comunidades locais e não causam danos ao meio ambiente. Hotelaria e sites de reservas de hotéis e aluguéis de casas identificaram a tendência, que teve início antes da pandemia e cresceu nos últimos meses. Para atender a esse turista teoricamente mais consciente, plataformas de aluguéis de imóveis de temporada e hotéis, de pousadinhas econômicas a propriedades de luxo, tentam destacar de maneira clara o que a acomodação está fazendo para reduzir o impacto ambiental de suas atividades e se tornar um “hotel sustentável”.

Para quem realmente pensa em voltar a viajar de forma mais responsável, há novas opções para ajudar a escolher onde se hospedar. A plataforma italiana Ecobnb, por exemplo, lista hotel sustentável e, também, casas para alugar. O site é claramente inspirado no Airbnb, que criou seções para “viagens de natureza” e “acomodações únicas”. Há também um novo selo da hotelaria de luxo, o Beyond Green, algo como “além do verde”, que reúne hotéis em todo o mundo que “honram e celebram a natureza, a cultura e a comunidade”. E há endereços independentes que fazem a coisa certa. Mas é preciso prestar atenção nos detalhes. No site de reservas de hotéis Booking.com, por exemplo, “iniciativas sustentáveis” podem significar simplesmente “opção de reutilizar toalhas” e “possibilidade de não optar pela limpeza de quarto todos os dias”. Sim, em 2021 ainda há propriedades se vendendo como sustentáveis só porque oferecem arrumação de quarto sob demanda e não trocam as tolhas de banho diariamente.

Mais: Como deixar as pegadas de carbono leves ao viajar

Ecobnb: hotel sustentável pode economizar água e salvar árvores

No Ecobnb a lista de requisitos para um hotel ser considerado sustentável é um pouco mais consistente. O site surgiu na Itália pré-pandemia, e começou a chamar a atenção de 2020 para cá. A plataforma reúne acomodações que se identificam como ecológicas, seguindo políticas sustentáveis em relação ao meio ambiente e às comunidades locais. Há casa na árvore, fazenda orgânica, hotel sustentável. O Ecobnb promete que cada noite em uma das acomodações do portfólio evita o consumo de 302 litros de água e significa uma economia média de 8kg de dióxido de carbono (CO2), o que equivale a preservar 295 árvores. Até abril de 2021, segundo a edição espanhola da revista de viagens Condé Nast Traveler, o Ecobnb teria “salvado” mais de 1,5 milhão de árvores.

Em cinco idiomas (italiano, inglês, francês, espanhol e alemão), o site lista cerca de 1.500 endereços na Itália, mas há ainda dezenas de opções em outros países europeus e mais algumas mundo afora, incluindo uma única no Brasil. A plataforma também oferece pacotes de viagem com atividades locais, como duas noites no Piemonte com visitas a vinícolas familiares e degustação de trufa comprada diretamente do trifolau (o caçador).

O hotel sustentável que representa o Brasil no Ecobnb é a Fazenda São Jorge, em Taboquinhas, com roteiros de ecoturismo a 30km das praias de Itacaré. Dá para chegar até a fazenda no Sul da Bahia de ônibus ou em transporte providenciado pela hospedagem; os alimentos servidos são orgânicos ou locais; o lixo é reciclado; as lâmpadas economizam energia; a água da chuva é reaproveitada.

Hotéis precisam atender ao menos a cinco de dez critérios sustentáveis

Para fazer parte do Ecobnb é preciso contemplar ao menos cinco de dez requisitos de sustentabilidade. Além dos cinco critérios atendidos pela São Jorge, os outros cinco são energia 100% renovável, construção verde, painéis solares para água quente, redutores de fluxo de água, e produtos de limpeza ecológicos.

Em toda a América do Sul, há apenas três outras hospedagens no Ecobnb: uma casa em Maras, a 40km de Cusco, no Peru; outra no litoral do Uruguai, a 40km de Punta del Este, e um hotel boutique vegano no Centro de Buenos Aires, o Marcel. O número de critérios sustentáveis atendidos pode variar: cinco requisitos no Brasil, seis no Uruguai, sete na Argentina e oito no Peru. As diárias vão de € 14 (cerca de R$ 90) no hotel sustentável baiano a € 80 (em torno de R$ 500) na casa para até cinco pessoas nos Andes peruanos.

Mais: Como reconhecer um hotel vegano

Airbnb: pesquisas mostram viajantes preocupados com a natureza

Site líder de aluguéis de casa de temporada, o Airbnb acompanha a mudança de perfil dos viajantes, que estariam privilegiando o turismo de natureza, ou ecoturismo. Pesquisa de maio de 2021 mostra que, nos quatro primeiros meses do ano, a procura por “acomodações únicas” na plataforma explodiu em relação a 2019 e prevaleceu em sete de cada dez buscas. Em relação ao mesmo período de 2019, o aumento foi de 94%. “Acomodações únicas” no Airbnb significam, entre outras opções, barcos, ilhas particulares e fazendas.

A procura por hospedagens rurais também aumentou em todo o mundo, inclusive no Brasil, segundo o mesmo estudo. Entre as noites reservadas no país para o período de 1º de junho a 31 de agosto de 2021, 21% são em casas no campo. Pode parecer pouco, mas em 2019, neste mesmo período do ano, acomodações rurais brasileiras respondiam por 7% das reservas. Em 2015, em todo o Airbnb, as reservas de hospedagens campestres não chegavam a 10%.

Outra pesquisa do site, de fevereiro de 2021, destaca que 94% dos viajantes buscariam uma viagem sustentável, 77% dos viajantes preferiam hospedagens pouco usuais e “autênticas”, e 44% pensavam em acomodações na natureza. Um estudo da empresa de pesquisa de mercado QY Research mostra que o ecoturismo movimentava globalmente, antes da pandemia, US$ 13 bilhões ao ano.

Hotel sustentável: Mirante do Gavião
Mirante do Gavião: funcionários locais e e-commerce para a ajudar a comunidade durante a pandemia | Foto de divulgação/Jean Dallazem

Turismo regenerativo: hotel além do sustentável

Para a parte do setor de viagens e turismo que realmente leva sustentabilidade a sério, hotel sustentável é até um conceito que está ficando ultrapassado. Porque respeito é importante, mas não é o suficiente. Além de preservar os lugares visitados, é necessário haver um envolvimento social, econômico e cultural para combater desigualdades e tornar melhor o destino e a vida da população local. É o que setor vem chamando de viagem regenerativa. O termo “regeneração” pode ser novidade neste mercado, mas já é usado há tempos em outras áreas, como arquitetura e design, associado à economia circular.

No turismo o impacto positivo pode significar a compensação das emissões de carbono da viagem, a recuperação de um ecossistema ou a melhora das condições econômicas da comunidade local. Viagem regenerativa não é uma atividade de nicho, como o turismo de aventura, e não substitui o turismo sustentável. É complementar. Durante a pandemia a tendência da regenerative travel foi percebida por publicações estrangeiras especializadas em viagens ou não, como The New York Times e Forbes.

No Brasil, o lodge de selva Mirante do Gavião, em Novo Airão, a três horas por terra de Manaus, é um bom exemplo. Totalmente integrado à Floresta Amazônica, às margens do Rio Negro, promove um turismo responsável visando ao bem-estar da comunidade. No hotel, 90% dos funcionários são moradores da região. Durante os quatro primeiros meses da pandemia, quando esteve fechado, o Mirante do Gavião criou um e-commerce para vender para todo o Brasil as belas peças em marchetaria feitas pelos artesãos locais.

Outro exemplo brasileiro é a Comuna do Ibitipoca, que faz parte do portfólio de uma plataforma de viagens online criada pouco antes da pandemia, a Regenerative Travel. Em uma fazenda do século 18 em Minas Gerais, o hotel compensa carbono localmente, plantando árvores nativas da Mata Atlântica em parceria com as comunidades vizinhas.

Mais: Hotelaria sustentável em tempos de pandemia

Hotel sustentável: Xigera Safari Lodge
Elefantes em frente ao Xigera, em Botswana: novo lodge africano monitora a fauna local | Foto de divulgação

Os ODSs da ONU aplicados a um hotel sustentável

Para dar mais visibilidade ao hotel que vai além do sustentável, surgiu no final de 2020 a marca Beyond Green, criada pelo mesmo grupo empresarial americano que administra um selo de qualidade da hotelaria internacional, o Preferred Hotels & Resorts. Em Botswana, no Delta do Okavango, fica o novo Xigera Safari Lodge, um dos 24 membros fundadores da Beyond Green, que tem representantes de 15 países em cinco continentes. O hotel sustentável, e além, monitora toda a fauna e flora local, em um compromisso assumido com o Departamento de Vida Selvagem e Parques Nacionais, órgão do governo federal. Os resíduos orgânicos da cozinha do lodge africano são transformados em adubo, e doado às comunidades locais para uso em suas plantações. Móveis, objetos de decoração e obras de arte foram encomendados a artistas e designers africanos, a maioria jovens. E por aí vai.

A proposta da Beyond Green é “levar o turismo sustentável a um outro nível” e reunir hotéis, resorts e lodges que contribuem para o bem-estar social e econômico das comunidades locais protegendo o patrimônio natural e cultural e respeitando o meio ambiente. Sempre seguindo como parâmetros os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODSs) das Nações Unidas.

 

Carla Lencastre

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou por mais de 25 anos na redação do jornal O Globo nas áreas de Comportamento, Cultura, Educação e Turismo. Editou a revista e o site Boa Viagem O Globo por mais de uma década. Anda pelo Brasil e pelo mundo em busca de boas histórias desde sempre. Especializada em Turismo, tem vários prêmios no setor e é colunista do portal Panrotas. Desde 2015 escreve como freelance para diversas publicações, entre elas o #Colabora e O Globo. É carioca de mar e bar. Gosta de dias nublados. Ama viajar. Está no Instagram e no Twitter em @CarlaLencastre 

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