‘E la nave va’: Unesco pressiona e Itália, de novo, veta cruzeiros em Veneza

O transatlântico MSC Orchestra, com mais de 90 mil toneladas, deixa a Laguna de Veneza em meio a um protesto ambiental contra os navios gigantes de passageiros no centro histórico da cidade italiana (Foto de Marco Sabadin/AFP – 5/6/2021)

Navios gigantes de passageiros são banidos do centro histórico da cidade em mais uma reviravolta na disputa entre economia e meio ambiente travada por ambientalistas, moradores e governo

Por Carla Lencastre | ODS 11 • Publicada em 16 de julho de 2021 - 08:23 • Atualizada em 2 de setembro de 2021 - 14:38

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O transatlântico MSC Orchestra, com mais de 90 mil toneladas, deixa a Laguna de Veneza em meio a um protesto ambiental contra os navios gigantes de passageiros no centro histórico da cidade italiana (Foto de Marco Sabadin/AFP – 5/6/2021)

Tudo mudou, nada mudou. Deve ter sido a sensação dos moradores de Veneza quando o MSC Orchestra adentrou a laguna da cidade no início de junho com suas 92,4 mil toneladas. Estava aberta a temporada de cruzeiros de 2021. Parte dos moradores foi para os canais protestar. A Unesco avisou que iria estudar rebaixar Veneza para a lista de patrimônios mundiais ameaçados caso os transatlânticos continuassem a atracar no centro histórico. A resposta à pressão da agência das Nações Unidas veio rápida. Em 13 de julho a Itália anunciou, mais uma vez, que os navios gigantes de passageiros estão proibidos de aportar no centro da cidade.

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Em março deste ano, o governo italiano já tinha banido os cruzeiros do centro histórico de Veneza. Mas não há outro porto na região com capacidade para receber transatlânticos, que são fundamentais para a economia municipal totalmente dependente do turismo. Economia essa devastada com a pandemia.

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Veneza mudou drasticamente desde fevereiro de 2020. Passou de símbolo do pior do turismo de massa, com cerca de 30 milhões de visitantes por ano, para cidade fantasma. Encontrar o equilíbrio entre os interesses econômicos do setor de turismo local, que movimentava em torno de € 3 bilhões por ano, e a preservação e regeneração do sofrido meio ambiente é o desafio atual da cidade de 1.600 anos.

As restrições de combate a covid-19 em Veneza foram suspensas em meados de maio. Duas semanas depois, e após um hiato de 18 meses, o MSC Orchestra foi o primeiro cruzeiro a visitar a cidade. O navio tem capacidade para três mil passageiros e quase mil tripulantes. A empresa, que também opera no litoral brasileiro, é a mesma do Opera, que em 2019 abalroou outra embarcação bem menor no Canal de Giudecca, único acesso a Veneza para grandes navios. A nova proibição anunciada pelo governo italiano começou a vigorar em 1º de agosto.

No final de agosto, Veneza assumiu a vocação para parque temático. Segundo o jornal italiano La Stampa, em 2022 a cidade vai cobrar ingressos de quem não estiver hospedado lá. Catracas foram instaladas nos acessos antes da pandemia. Nesta nova fase, visitantes teriam também que agendar a visita, o que de fato pode ajudar a manter sob controle o danoso turismo de massa.

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Economia x meio ambiente: grupos ativistas se dividem quanto aos cruzeiros em Veneza

As reações à chegada do Orchestra, em junho, foram conflitantes. Houve quem respirasse com alívio, como o fotógrafo Maurizio Torresan: “Pensei: ‘finalmente’. Pela economia de Veneza, precisamos dos grandes navios”, disse ao jornal britânico The Guardian. Houve quem se sentisse enganado: “Além da poluição e dos danos ao frágil ecossistema da laguna e a às fundações das construções, os navios são um símbolo do turismo de massa que devastou Veneza”, contrapôs Marta Sottorica, porta-voz do grupo ativista No Grandi Navi, apoiado por ambientalistas. Veneza tem também um grupo ativista chamado Si Grandi Navi, com apoiadores das milhares de pessoas que dependem da indústria de cruzeiros para viver.

Na partida do Orchestra, uma imagem simbolizou a disputa que já dura ao menos uma década. Quando saiu da laguna, o navio foi escoltado tanto por rebocadores com trabalhadores do porto (que empregava cinco mil pessoas antes da pandemia), parte do grupo que defende os cruzeiros por motivos econômicos, quanto por pequenas embarcações com manifestantes contra os navios gigantes, que reúne pessoas preocupadas, com toda a razão, com a fragilidade do meio ambiente local, incluindo o impacto do desembarque de turistas em massa em um único dia.

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A Unesco avisou, no final de junho, que o rebaixamento de Veneza seria discutido na 44ª reunião do Comitê de Patrimônio Mundial, na segunda quinzena de julho. Três semanas depois do anúncio da agência da ONU veio a resposta do governo italiano: navios gigantes banidos da laguna a partir de 1º de agosto de 2021 e canais de Veneza considerados monumento nacional. Este não é o primeiro alerta da Unesco. Em 2019 a agência já tinha chamado a atenção para o estrago causado na cidade pelo fluxo de cruzeiros.

Cruzeiros em Veneza
Manifestantes protestam contra os navios gigantes em Veneza no dia da partida do MSC Orchestra, o primeiro a visitar a cidade depois de 18 meses (Foto: Marco Sabadin/AFP – 5/6/2021)

Porto alternativo não tem infraestrutura para receber grandes navios de passageiros

Navios de passageiros começaram a visitar Veneza no final da década de 1990. Há alguns anos, depois de muitos protestos e manifestações, foram proibidos de atracar ao lado da Praça de São Marcos, cartão-postal da cidade. Mas continuaram atravessando os principais canais e atracando em um outro porto urbano. Até porque há uma questão técnica. Em março deste ano, quando o governo federal anunciou que os cruzeiros seriam direcionados “temporariamente” para o porto comercial e industrial de Marghera, a infraestrutura portuária não foi levada em conta. O porto precisa passar por adaptações para receber passageiros, o que ainda não aconteceu. Nem o canal de acesso é largo e profundo o suficiente para receber navios do porte das atuais embarcações.

Pela nova decisão, as grandes companhias de cruzeiros terão que tirar Veneza de seus itinerários até que o porto de Marghera passe pelas reformas necessárias, com tempo de duração estimado em seis meses. A construção de um novo terminal está nos planos para um futuro mais distante, e ambientalistas defendem que seja na ilha do Lido, na entrada da laguna. Segundo o jornal The New York Times, o governo federal está estudando compensações financeiras para os trabalhadores portuários afetados pela suspensão dos cruzeiros em Veneza.

A Cruise Lines International Association (Clia), a associação comercial do setor, diz que “aguarda alternativas de ancoragem a tempo da temporada de 2022”. Seguiremos acompanhando os episódios do novo renascimento veneziano.

Carla Lencastre

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou por mais de 25 anos na redação do jornal O Globo nas áreas de Comportamento, Cultura, Educação e Turismo. Editou a revista e o site Boa Viagem O Globo por mais de uma década. Anda pelo Brasil e pelo mundo em busca de boas histórias desde sempre. Especializada em Turismo, tem vários prêmios no setor e é colunista do portal Panrotas. Desde 2015 escreve como freelance para diversas publicações, entre elas o #Colabora e O Globo. É carioca de mar e bar. Gosta de dias nublados. Ama viajar. Está no Instagram e no Twitter em @CarlaLencastre 

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