Prédios modernos poluem área histórica e Unesco tira de Liverpool o título de Patrimônio Mundial

Panorama da área histórica de Liverpool, à beira do Rio Mersey, com as novas construções do terminal de ferries (à esquerda) e do museu da cidade | Foto de Carla Lencastre/2016

Construção do novo estádio de futebol do Everton, em região portuária com armazéns vitorianos, foi decisiva para cidade inglesa ser desclassificada pela agência da ONU

Por Carla Lencastre | ODS 11 • Publicada em 26 de julho de 2021 - 07:37 • Atualizada em 9 de agosto de 2021 - 14:40

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Panorama da área histórica de Liverpool, à beira do Rio Mersey, com as novas construções do terminal de ferries (à esquerda) e do museu da cidade | Foto de Carla Lencastre/2016

A Unesco ameaçou mover Veneza para a lista de patrimônios ameaçados, mas foi outra cidade europeia a ser rebaixada durante a 44ª reunião anual do Comitê de Patrimônio Mundial, realizada na China em julho de 2021. Rebaixada não, desclassificada por “perda irreversível de valor histórico”, segundo a agência das Nações Unidas. Liverpool, cidade inglesa famosa pelo futebol, a música, a arquitetura vitoriana das construções à beira-rio e o importante passado como porto comercial nos séculos 18 e 19, perdeu o status de Patrimônio Mundial por alterações urbanísticas que descaracterizaram a histórica área portuária.

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A aprovação este ano para a construção na orla portuária do estádio de meio milhão de libras do Everton FC, que, junto com o Liverpool FC, representa a cidade na Premier League, o principal campeonato de futebol inglês, foi o que faltava para a perda de status. Liverpool, 360km a noroeste de Londres, entrou na cobiçada lista de Patrimônio Mundial em 2004. A mudança de visual do conjunto arquitetônico às margens do Rio Mersey começou há cerca de uma década, quando surgiram na região os primeiros edifícios com fachadas espelhadas. Depois de advertências, em 2012 a Unesco rebaixou a cidade para a lista de patrimônios ameaçados. O cartão vermelho veio, com trocadilho, no novo estádio do Everton, que será erguido à beira-rio a pouco mais de dois quilômetros de distância da área histórica.

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Em 49 anos de Patrimônio Mundial, esta é somente a terceira vez que um lugar é retirado definitivamente da lista da agência da ONU. Os outros casos foram Dresden, na Alemanha, em 2009, quando uma ponte de quatro pistas foi erguida no Vale do Rio Elba, e o Santuário do Órix-da-arábia, em Omã, em 2007, por conta de caça ilegal e redução da área protegida de vida selvagem para permitir prospecção de petróleo. O Reino Unido tem ainda 31 lugares na lista de Patrimônio Mundial (no Brasil, com a recente adição do Sitio Roberto Burle Marx, no Rio de Janeiro, são 23). Uma nova ameaça de rebaixamento britânico para a categoria de patrimônios em perigo pairava sobre o círculo de pedras de Stonehenge, por conta de um polêmico túnel planejado para a região a 150km de Londres. Em 30 de julho, a Suprema Corte britânica considerou ilegal a construção do túnel. A decisão foi comemorada por arqueólogos, grupos ambientalistas e druidas.

Liverpool: escolha entre estimular a economia ou proteger o patrimônio cultural

Quando o primeiro navio gigante de cruzeiros da temporada de 2021 entrou na Laguna de Veneza, no início de junho, a Unesco avisou que iria discutir o rebaixamento da cidade italiana para a lista de patrimônios ameaçados. Não demorou para que o governo italiano proibisse, mais uma vez, transatlânticos no Canal de Giudecca, o principal da cidade. Como em Veneza, a situação em Liverpool envolve uma complexa discussão entre economia e preservação. Steve Rotheram, prefeito da área metropolitana da cidade, disse à BBC: “Lugares como Liverpool não deveriam ser confrontados com a escolha binária entre manter o status de patrimônio ou regenerar comunidades negligenciadas e gerar empregos”.

A agência das Nações Unidas alega que a região das docas vitorianas perdeu “autenticidade e integridade”. Em um artigo publicado no jornal britânico The Guardian, Oliver Wainwright lembra que o ex-prefeito Joe Anderson, que deixou o cargo em dezembro de 2020, dizia que o título da Unesco era “apenas um diploma na parede”. A prefeita atual Joanne Anderson (nenhum parentesco) considerou a decisão da Unesco “incompreensível” e disse à BBC que a orla “nunca esteve em melhores condições e se beneficiou dos milhões de libras investidos”.

Área portuária de Liverpool
Da esquerda para a direita, uma das Três Graças encoberta pelo novo terminal de ferries e ao lado da “três desgraças”, prédios modernos de fachadas escuras, e do Museu de Liverpool | Foto de Carla Lencastre/2016

Prédios históricos, edifícios modernos e Beatles formam o ex-Patrimônio Mundial

Atingida durante a Segunda Guerra Mundial, a área portuária de Liverpool entrou em declínio e foi fechada em 1972. A restauração e a revitalização da orla começaram no início da década de 1980. Hoje o ponto de partida para visitar o ex-Patrimônio Mundial é a Royal Albert Dock. À margem do Rio Mersey, os armazéns em pedra avermelhada, tijolo e ferro, sem estrutura em madeira e à prova de fogo, foram construídos em meados do século 19 e são um dos dois principais conjuntos arquitetônicos históricos da região.

O outro grupo, meio quilômetro adiante, é formado pelas Three Graces, três imponentes prédios comerciais do início do século 20: os edifícios do Porto de Liverpool, da Cunard e da Royal Liver, uma companhia de seguros. O Cunard Building, antiga sede da empresa marítima de mesmo nome, já foi cenário de cinema, como no filme Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016). Hoje abriga a nova British Music Experience, museu interativo de rock e pop britânicos que tem no acervo peças como figurinos de David Bowie.

Na Albert Dock, um dos imensos armazéns é o endereço do Merseyside Maritime Museum. O museu conta a história portuária da cidade, incluindo capítulos vergonhosos como o comércio de escravizados. Em outro galpão está a filial da Tate londrina e sua coleção de arte moderna e contemporânea. Um terceiro armazém é a sede do museu multimídia The Beatles Story, com memorabilia, fotos e reproduções de ambientes importantes na história dos quatro rapazes de Liverpool, como o Cavern Club, outra atração turística da cidade.

Área de Liverpool sonde será construído o novo estádio do Everton FC
Vista área do local de construção do novo estádio do Everton FC, ao lado do Rio Mersey | Foto de Paul Ellis/AFP/24-02-2021

Os filhos mais famosos de Liverpool também são homenageados no Pier Head, em frente às Three Graces e parte do ex-Patrimônio Mundial. Em dezembro de 2015, 50 anos depois da última apresentação dos Beatles na cidade natal, foram inauguradas quatro estátuas em bronze, em tamanho natural, de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Dois anos antes, as docas viram crescer um trio de prédios modernos de fachada escura, chamado pelos detratores de “Three Disgraces”. Na mesma área ficam os modernos Museum of Liverpool, sobre a cidade, inaugurado há uma década, e Mersey Ferry Terminal, ambos criticados pela arquitetura contrastante com a herança histórica da região. O novo estádio do Everton ficará a pouco mais de dois quilômetros ao norte da região do Pier Head.

Saindo da área portuária rumo ao norte, a uns 20 minutos de carro acompanhando a margem do rio, encontra-se a foz do Mersey e Crosby Beach. Com uma grande variação entre as marés alta e baixa, a praia no Mar da Irlanda não faz parte da área que era considerada Patrimônio Mundial, mas é uma das paisagens mais estranhamente belas de Liverpool. Nas areias movediças espalha-se a instalação de arte contemporânea Another Place. São cem esculturas em ferro do artista londrino Antony Gormley, representando corpos humanos como o dele, espalhadas ao ar livre e vulneráveis à maresia e à lama. De volta a região portuária, mais dez ou 15 minutos de carro levam aos estádios de Anfield, casa do Liverpool FC, e Goodison Park, onde o Everton joga desde 1892. Estádio que em 2024 será substituído pela nova construção à beira-rio que tirou Liverpool da lista de Patrimônio Mundial.

Carla Lencastre

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou por mais de 25 anos na redação do jornal O Globo nas áreas de Comportamento, Cultura, Educação e Turismo. Editou a revista e o site Boa Viagem O Globo por mais de uma década. Anda pelo Brasil e pelo mundo em busca de boas histórias desde sempre. Especializada em Turismo, tem vários prêmios no setor e é colunista do portal Panrotas. Desde 2015 escreve como freelance para diversas publicações, entre elas o #Colabora e O Globo. É carioca de mar e bar. Gosta de dias nublados. Ama viajar. Está no Instagram e no Twitter em @CarlaLencastre 

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