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#RioéRua: a cidade contra a chuva e o baixo astral

Fica difícil encontrar o espírito carioca entre tantas tragédias


Prainha de São Francisco sob chuva (Foto Oscar Valporto)
Prainha de São Francisco sob chuva (Foto Oscar Valporto)

Este #RioéRua surgiu do reencontro de um carioca com sua terra depois de oito anos, como uma forma de celebrar a cidade que, impulsionada pela geografia, a natureza e o clima, empurra seus moradores para fora dos ambientes fechados, para a mistura das ruas. É fevereiro, o Rio está cheio de visitantes, a cidade se prepara para o Carnaval, o sol estava se pondo às 8h da noite: mesmo assim, esta alma carioca, já bem chamuscada por um inferno astral caprichado, não tem clima para caminhar festiva pela rua depois desta sequência de tragédias.

É verdade que tempestades de verão e suas consequências fazem parte da vida do Rio há mais de um século mas a enxurrada da quarta-feira, dia 6, no Centro, na Zona Sul e na Barra foi tão violenta que deixou cariocas em pânico e o Brasil assustado com as imagens da TV e os vídeos postados na internet e multiplicados pelo whatsapp. Amigos da Bahia mandaram mensagem preocupados. Por acaso, o temporal ficou concentrado na área mais privilegiada da cidade; o número total de vítimas fatais – sete – fica distante de outras estatísticas mórbidas causadas pelas chuvas no Rio. Mas um casal e seu filho morreram no desabamento da casa em Guaratiba; uma empregada doméstica foi soterrada na Rocinha; uma moradora perdeu a vida da mesma forma no Vidigal; um advogado e uma bacharel em Direito foram as vítimas fatais do ônibus engolido pela terra na Avenida Niemeyer.

Largo do Machado: lá havia a Lagoa Carioca (Foto Oscar Valporto)
Largo do Machado: lá havia a Lagoa Carioca (Foto Oscar Valporto)

A chuva já havia diminuído no meio da madrugada mas a cidade continuava completamente alagada com carros boiando no Centro e da Zona Sul e ruas com aspecto de rios. Vale aqui um parêntesis #RioéRua sobre a história de uma cidade que tem toda sua história ligada à ocupação de áreas alagadas. Quando ocuparam o Morro do Castelo, para começar a organizar a cidade, em 1567, os portugueses estavam cercados de lagoas que foram sendo aterradas na medida que a capital da província e, depois, do Brasil colônia, ia se urbanizando. Havia a Lagoa de Santo Antônio onde hoje é o Largo da Carioca; a Lagoa do Boqueirão começava perto do Aqueduto da Lapa e chegava até o Passeio Público; a Lagoa do Polé ficava próximo ao Campo de Santana. Havia lagoas, depois aterradas também, onde hoje são o Largo do Machado – chamada Lagoa da Carioca, formada pelo rio que dá nome aos nascidos na cidade – e a Rua Marquês de Olinda, em Botafogo. A própria Lagoa Rodrigo de Freitas perdeu quase a metade de seu espelho d’água original – inclusive a área do Jockey Club foi, um dia, lagoa, como parecia ser durante o temporal.

Os governantes do Rio de Janeiro sempre quiseram fazer a cidade avançar para cima do mar. Nas obras de ampliação do porto, sumiram a prainha de São Francisco, a praia da Gamboa, a praia da Saúde, a praia Formosa. A Igreja de Santa Luzia, no centro da cidade, ficava à beira-mar; hoje fica a dois quilômetros da baía de Guanabara: entre ela e o mar, apareceram a Avenida Beira-Mar, a Esplanada do Castelo, o Aeroporto Santos Dumont, o Aterro do Flamengo. Antes do século XX começar, tinha uma prainha em frente à igreja. O mar também batia na mureta da Glória e chegava na praia do Russel, onde hoje tem uma praça com a estátua de São Sebastião: tudo aterrado.  O bairro da Urca inteiro é fruto de aterro.

Estátua do padroeiro da cidade onde ficava a Praia do Russel (Foto Oscar Valporto)
Estátua do padroeiro da cidade onde ficava a Praia do Russel (Foto Oscar Valporto)

Durante o século XX, enquanto a cidade roubava espaço do mar, a lógica urbana expulsava os mais pobres do centro: começava a ocupação desordenada dos morros e, atrás dela, uma série de tragédias causadas pelos temporais. A cada chuvarada de verão, deslizamentos e mortes. O Rio de Janeiro atravessou assim quase todo o século, mas faz algum tempo que a tecnologia de contenção de encostas, os modernos aparelhos da meteorologia para detectar tempestades e as sirenes de alarme conseguiram reduzir o número de vítimas. No temporal do dia 7, os alarmes da prefeitura demoraram a ser acionados e muitos cariocas foram pegos de surpresa: na melhor das hipóteses, ficaram ilhados e dormiram fora de casa; na pior, viveram o drama dos moradores da Rocinha e do Vidigal.

Nos dias seguintes, a tragédia mudou de endereço: 10 meninos, que sonhavam com a glória nos campos de futebol, carbonizados no incêndio no Ninho do Urubu, Centro de Treinamento do Flamengo, na Barra da Tijuca; 13 jovens adultos, todos aparentemente envolvidos com o tráfico de drogas, todos aparentemente fuzilados, de acordo com a Defensoria Pública, na mais letal operação policial na cidade desde 2007. E, na segunda-feira, lá em São Paulo, o Rio perdeu Ricardo Boechat – nascido na Argentina e criado em Niterói – que tinha o espírito crítico, irreverente, debochado e generoso, um espírito carioca (ou como os cariocas idealizam seu espírito e de sua cidade).

Em frente à Igreja Santa Luzia havia uma prainha (Foto Oscar Valporto)
Em frente à Igreja Santa Luzia havia uma prainha (Foto Oscar Valporto)

E chegamos às vésperas de outra quarta-feira e, desta vez, a prefeitura disparou todo tipo de alarme, prevendo um dia de temporal. As aulas das redes de ensino municipal e estadual foram suspensas; empresas liberaram funcionários; reuniões foram adiadas. A tempestade prevista não veio. O Carnaval se aproxima: os blocos se preparam para tomar as ruas e de debochar do bispo, do juiz, do capitão, da pastora, do embaixador, do deputado. E tem Marielle no samba da Mangueira, Xangô no afro samba-enredo do Salgueiro, Clara Nunes inspirando a Portela. Pode ser até que o Rio consiga espantar o baixo astral e a chuva. Mas pode ser que não.

#RioéRua


Escrito por Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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