Bicicletas são 10 vezes mais importantes do que carros elétricos para zerar emissões

Nova ciclovia em Londres, criada durante a pandemia: pesquisa mostra que bicicletas produzem 10 vezes menos emissões de carbono do que carros elétricos (Foto: Dominika Zarzycka/NurPhoto/AFP – 07/03/2021)

De acordo com pesquisa, pessoas que pedalaram tiveram 84% menos emissões de carbono em suas viagens diárias em relação a quem usou outro transporte

Por The Conversation | ODS 11ODS 7 • Publicada em 3 de junho de 2021 - 12:44 • Atualizada em 4 de junho de 2021 - 11:19

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Nova ciclovia em Londres, criada durante a pandemia: pesquisa mostra que bicicletas produzem 10 vezes menos emissões de carbono do que carros elétricos (Foto: Dominika Zarzycka/NurPhoto/AFP – 07/03/2021)

(Christian Brand*) Em 2020, apenas um em cada 50 carros novos era totalmente elétrico no mundo – um em 14 no Reino Unido. Parece impressionante, mas mesmo que todos os carros novos fossem elétricos agora, ainda levaria de 15 a 20 anos para substituir a frota mundial de carros movidos a combustível fóssil.

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A economia de emissões com a substituição de todos os motores de combustão interna por alternativas com zero de carbono não será alimentada com rapidez suficiente para fazer a diferença necessária no tempo que podemos poupar: os próximos cinco anos . Enfrentar as crises de poluição do clima e do ar exige a redução de todos os transportes motorizados, especialmente os carros particulares, o mais rápido possível. Focar apenas em veículos elétricos está desacelerando a corrida para emissões zero.

Em parte, isso ocorre porque os carros elétricos não são verdadeiramente carbono zero – extrair minério, matéria-prima para suas baterias, fabricá-las e gerar a eletricidade com a qual elas funcionam produz emissões.

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Transporte é um dos setores mais desafiadores para descarbonizar devido ao uso pesado de combustível fóssil e à dependência de infraestrutura intensiva em carbono – como estradas, aeroportos e os próprios veículos – e também à forma como incorpora estilos de vida dependentes de automóveis. Uma maneira de reduzir as emissões do transporte de forma relativamente rápida, e potencialmente global, é trocar os carros por bicicletas, e-biking (bicicleta elétrica) e caminhadas – as viagens ativas, como são chamadas.

Mobilidade ativa é mais barata, mais saudável, melhor para o meio ambiente. E as viagens não chegam a ser mais lentas em ruas urbanas congestionadas. Então, quanto carbono ele pode economizar diariamente? E qual é o seu papel na redução das emissões do transporte em geral?

Em uma nova pesquisa , meus colegas e eu revelamos que as pessoas que caminham ou andam de bicicleta têm uma pegada de carbono menor nas viagens diárias, inclusive em cidades onde muitas pessoas já fazem isso. Apesar de algumas caminhadas e trajetos de bicicleta complementem viagens motorizadas em vez de substituí-las, mais pessoas mudando para mobilidade ativa equivaleria a reduzir as emissões de carbono do transporte – diariamente e regularmente.

Estacionamento de bicicletas em Paris: incentivo para uso de transporte mais saudável, mais limpo, confiável e que evita engarrafamentos (Foto: Andrea Oliveira / Hans Lucas / AFP - 21/03/2021)
Estacionamento de bicicletas em Paris: incentivo para uso de transporte mais saudável, mais limpo, confiável e que evita engarrafamentos (Foto: Andrea Oliveira / Hans Lucas / AFP – 21/03/2021)

Carros x bicicletas

Nossa pesquisa acompanhou cerca de quatro mil pessoas em Londres, Antuérpia, Barcelona, ​​Viena, Orebro, Roma e Zurique. Ao longo de um período de dois anos, nossos participantes completaram 10 mil registros no diário de viagem que serviram como relatórios de todas as viagens feitas a cada dia, seja indo para o trabalho de trem, levando as crianças para a escola de carro ou andando de ônibus para a cidade. Para cada viagem, calculamos a pegada de carbono.

Surpreendentemente, as pessoas que pedalaram diariamente tiveram 84% menos emissões de carbono em todas as suas viagens diárias do que aquelas que não o fizeram. Também descobrimos que quem trocou o carro por bicicleta por apenas um dia por semana reduziu sua pegada de carbono em 3,2 kg de CO₂ – equivalente às emissões de dirigir um carro por 10 quilômetros, comer uma porção de cordeiro ou chocolate, ou enviar 800 e-mails .

Quando comparamos o ciclo de vida de cada modo de viagem, levando em consideração o carbono gerado ao fazer o veículo, abastecê-lo e descartá-lo, descobrimos que as emissões do ciclismo podem ser mais de 30 vezes menores para cada viagem do que dirigir um automóvel movido a combustível fóssil, e cerca de dez vezes menor do que dirigir um elétrico.

Também estimamos que moradores de áreas urbanas que deixaram de dirigir para andar de bicicleta em apenas uma viagem por dia reduziram sua pegada de carbono em cerca de meia tonelada de CO₂ ao longo de um ano e economizaram as emissões equivalentes de um voo de Londres para Nova York, atravessando o Atlântico. Se apenas um em cada cinco residentes de áreas urbanas mudasse permanentemente seu meio de transporte dessa forma nos próximos anos, isso reduziria – estimamos – as emissões de todas as viagens de carro na Europa em cerca de 8%.

Quase metade da queda nas emissões diárias de carbono registradas em 2020 – durante os bloqueios provocados pela pandemia de covid-19 no mundo inteiro – veio de reduções nas emissões de transporte. A pandemia forçou países em todo o mundo a se adaptarem para reduzir a propagação do vírus. Foi assim em quase toda a Europa e outras partes do mundo.

No Reino Unido, caminhadas e uso de bicicletas registraram grande impulso: aumento de 20% no número de pessoas que caminham regularmente; e crescimento de 9% no número de viagens de bicicleta durante a semana e de 58% nos fins de semana, em comparação aos níveis de antes da pandemia. Isso aconteceu, apesar de muitos usuários regulares de bicicletas, terem passado a trabalhar em casa .

A mobilidade ativa oferece uma alternativa aos carros que garante o distanciamento social. Ajudou as pessoas a se manterem seguras durante a pandemia e poderia ajudar a reduzir as emissões à medida que o confinamento fosse amenizado, principalmente porque os altos preços de alguns veículos elétricos provavelmente afastarão muitos compradores em potencial.

Então: a corrida começou. As viagens ativas podem contribuir para enfrentar a emergência climática mais cedo do que os veículos elétricos, ao mesmo tempo em que fornecem transporte acessível, confiável, limpo, saudável. E acabam com os congestionamentos.

*Christian Brand é cientista ambiental e professor de Transporte, Energia e Meio Ambiente da Unidade de Estudos de Transporte (Universidade de Oxford/Inglaterra)

The Conversation

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