Jogos de Tóquio têm número recorde de atletas no time olímpico de refugiados

Time olímpico de refugiados desfila na Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio em 23 de julho de 2021 | Foto de Tetsu Joko/Yomiuri Shimbun/AFP

Em sua segunda Olimpíada, delegação reúne atletas de 11 países, incluindo o congolês Popole Misenga, que treina no Brasil

Por Carla Lencastre | ODS 10 • Publicada em 20 de junho de 2021 - 13:11 • Atualizada em 27 de julho de 2021 - 08:25

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Time olímpico de refugiados desfila na Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio em 23 de julho de 2021 | Foto de Tetsu Joko/Yomiuri Shimbun/AFP

Rio de Janeiro, 5 de agosto de 2016. Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos no Estádio do Maracanã. Para muita gente a maior lembrança do desfile das delegações é a de Pita Taufatofua, atleta com o peitoral besuntado de óleo de coco que levou a bandeira de Tonga. Mas quem fez história no desfile foi Rose Nathike Lokonyen, nascida no Sudão do Sul, à frente do primeiro time olímpico de refugiados. Em 23 de julho de 2021, na abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio, o esportista de Tonga não decepcionou e desfilou novamente sem camisa e lambuzado. Mas foram os refugiados que continuaram fazendo história.

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O segundo time olímpico de refugiados reúne 29 atletas de 11 países, que competem sob a bandeira do Comitê Olímpico Internacional (COI), carregada pela nadadora síria Yusra Mardini e pelo maratonista da Eritreia Tachlowini Gabriyesos. Na parte final da Cerimônia de Abertura da Olimpíada de Tóquio, seis esportistas entraram no estádio levando a bandeira olímpica que seria hasteada. Cada um representava um continente, e o halterofilista Cyrille Tchatchet simbolizava o time olímpico de refugiados. Cyrille nasceu em Camarões e hoje vive no Reino Unido.

Assista: Vídeo (legendado em português) com o time olímpico de refugiados em Tóquio

Os 29 nomes do time olímpico foram selecionados entre os 56 que fazem parte do programa de apoio a atletas refugiados do COI. Além dos índices esportivos, foram levados em conta critérios como gênero e região, para que a equipe formasse um painel representativo. “Vamos enviar uma mensagem poderosa de solidariedade, resiliência e esperança para o mundo”, disse Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional (IOC na sigla em inglês), na apresentação virtual do time olímpico de refugiados. A delegação se encontrou pela primeira vez como uma equipe em meados de julho em Doha, no Catar. De lá seguiu para o Japão.

Time olímpico de refugiados na cerimônia de abertura da Rio 2016
O primeiro time olímpico de refugiados desfila na cerimônia de abertura da Rio 2016, no Estádio do Maracanã, com a sul-sudanesa Rose Nathike Lokonyen levando a bandeira do COI | Foto de Pedro Ugarte/AFP/5-8-2016

De 2016 para cá a crise dos refugiados em todo o mundo só aumentou. O relatório anual do Alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) mostra que o número cresceu 4% de 2019 para 2020. Hoje são 82,4 milhões de pessoas fora de suas casas, incluindo 48 milhões de deslocados internos, dentro de seus países, especialmente no continente africano. O documento foi apresentado em Genebra, na Suíça, em 18 de junho, às vésperas do Dia Mundial dos Refugiados. A data criada pela ONU estabeleceu o 20 de junho como um dia para conscientização sobre essa tragédia humanitária global.

O COI, que há 25 anos trabalha em parceria com o Acnur, anunciou os nomes da equipe olímpica de refugiados também em junho, no dia 8. Na Rio 2016 o time foi formado por dez atletas de quatro países. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio, são 29 esportistas de 11 nacionalidades. Seis integram a equipe olímpica de refugiados pela segunda vez. Como no Rio, a delegação entrou no estádio no início do desfile da Cerimônia de Abertura, logo depois da Grécia.

Quem são os atletas do time olímpico de refugiados nos Jogos de Tóquio

Olimpíadas são feitas de histórias humanas, vitoriosas ou não, de superação e alegria, ou de dor e fracasso. São feitas também de recordes, positivos e negativos. Vamos aos nomes e números que formam a equipe olímpica de refugiados.

O time olímpico de refugiados em Tóquio, o segundo da história moderna dos jogos, reúne 29 atletas de 11 nacionalidades competindo em 12 esportes. São 10 mulheres e 19 homens que treinam em 14 países, inclusive o Brasil. É o caso do judoca Popole Misenga, da República Democrática do Congo. Misenga mora no Rio de Janeiro e foi um dos dez integrantes da primeira equipe olímpica de refugiados, em 2016. Rose Nathike Lokonyen, a corredora sul-sudanesa que levou a bandeira do COI em 2016 e treina no Quênia, também fará novamente parte da equipe olímpica de refugiados e disputará em Tóquio os 800 metros.

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Além de Popole e Rose, os outros quatro atletas que também estiveram na Rio 2016 são a nadadora síria Yusra Mardini, que mora na Alemanha que carregou a bandeira olímpica em Tóquio; a corredora Anjelina Nadai Lohaliht e os corredores James Nyang Chiengjiek e Paulo Amotun Lokoro, os três do Sudão do Sul e treinando no Quênia.

Em 2016, os dez esportistas foram reconhecidos como refugiados ao competir sob a bandeira olímpica. Com histórias de esperança e superação, conquistaram o coração do público, mas não medalhas. Quem sabe em Tóquio será diferente?

Os nomes e as modalidades dos 29 atletas do time olímpico de refugiados em Tóquio

  • Atletismo. Dorian Keletela, 100m masculino. Nasceu no Congo, treina em Portugal. Rose Nathike Lokonyen, 800m feminino. Nasceu do no Sudão do Sul, treina no Quênia. James Nyang Chiengjiek, 800m masculino. Nasceu do no Sudão do Sul, treina no Quênia. Anjelina Nadai Lohalith. 1.500m feminino. Nasceu do no Sudão do Sul, treina no Quênia. Paulo Amotun Lokoro, 1.500m masculino. Nasceu do no Sudão do Sul, treina no Quênia. Jamal Abdelmaji Eisa Mohammed, 5.000m masculino. Nasceu no Sudão, treina em Israel. Tachlowini Gabriyesos, maratona. Nasceu na Eritreia, treina em Israel.
  • Badminton. Aram Mahmoud, simples masculino. Nasceu na Síria, treina na Holanda.
  • Boxe. Wessam Salamana, peso leve masculino. Nasceu na Síria, treina na Alemanha. Eldric Sella Rodriguez, peso médio masculino. Nasceu na Venezuela, treina em Trinidad e Tobago.
  • Canoagem velocidade. Saeid Fazloula, caiaque simples 1.000m masculino. Nasceu no Irã, treina na Alemanha.
  • Ciclismo. Masomah Ali Zada, contra o relógio feminino. Nasceu no Afeganistão, treina na França. Ahmad Badreddin Wais, contra o relógio masculino. Nasceu na Síria, treina na Suíça.
  • Halterofilismo. Cyrille Fagat Tchatchet II, até 96kg masculino. Nasceu em Camarões, treina no Reino Unido.
  • Judô. Sanda Aldass, time misto feminino. Nasceu na Síria, treina na Holanda. Ahmad Alikaj, time misto masculino. Nasceu na Síria, treina na Alemanha. Muna Dahouk, time misto feminino. Nasceu na Síria, treina na Holanda. Javad Mahjoub, time misto masculino. Nasceu no Irã, treina no Canadá. Popole Misenga, time misto masculino. Nasceu na República Democrática do Congo, treina no Brasil. Nigara Shaheen, time misto feminino. Nasceu no Afeganistão, treina na Rússia.
  • Karatê. Wael Shueb, kata masculino. Nasceu na Síria, treina na Alemanha. Hamoon Derafshipour, kumite até 67kg masculino. Nasceu no Irã, treina no Canadá.
  • Luta greco-romana. Aker Al Obaidi, até 67kg masculino. Nasceu no Iraque, treina na Áustria.
  • Natação. Alaa Maso, 50m nado livre masculino. Nasceu na Síria, treina na Alemanha. Yusra Mardini, 100m borboleta feminino. Nasceu na Síria, treina na Alemanha.
  • Taekwondo. Dina Pouryounes Langeroudi, até 49kg feminino. Nasceu no Irã, treina na Holanda. Kimia Alizadeh, até 57kg feminino. Nasceu no Irã, treina na Alemanha. Abdullah Sediqui, até 68kg masculino. Nasceu no Afeganistão, treina na Bélgica.
  • Tiro. Luna Solomon, carabina de ar 10m feminino. Nasceu na Eritréia, treina na Suíça.

 

Carla Lencastre

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou por mais de 25 anos na redação do jornal O Globo nas áreas de Comportamento, Cultura, Educação e Turismo. Editou a revista e o site Boa Viagem O Globo por mais de uma década. Anda pelo Brasil e pelo mundo em busca de boas histórias desde sempre. Especializada em Turismo, tem vários prêmios no setor e é colunista do portal Panrotas. Desde 2015 escreve como freelance para diversas publicações, entre elas o #Colabora e O Globo. É carioca de mar e bar. Gosta de dias nublados. Ama viajar. Está no Instagram e no Twitter em @CarlaLencastre 

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