Mundo com fome desperdiça comida e privilegia produção insustentável de alimentos

Distribuição de comida para crianças na África do Sul durante a pandemia: fome avança no mundo mas um terço dos alimentos produzidos é desperdiçado (Foto: Marco Longari/AFP – 18/07/2020)

Agricultura intensiva tradicional polui solos e rios e consome 70% da água; falta apoio para alternativas agroecológicas

Por José Eduardo Mendonça | ODS 1ODS 2 • Publicada em 4 de outubro de 2021 - 09:18 • Atualizada em 9 de outubro de 2021 - 10:55

Compartilhe

Distribuição de comida para crianças na África do Sul durante a pandemia: fome avança no mundo mas um terço dos alimentos produzidos é desperdiçado (Foto: Marco Longari/AFP – 18/07/2020)

A agroecologia cuida não só de humanos, mas de todos os ecossistemas do qual dependemos. Na agricultura química, plantam-se alimentos de apenas um tipo. São usados fertilizantes, pesticidas, herbicidas, acesso à água e, se necessário, polinizadores para maximizar as colheitas.

Na agroecologia, busca-se cuidar não apenas de humanos, mas também dos ecossistemas. A agroecologia descobre modos de exterminar as pestes ao mesmo tempo em que trata de atingir o equilíbrio ecológico. Aceita uma pequena perda de suas colheitas, protege seus habitats de predadores e introduz formas de controle biológico para obter um ecossistema muito mais robusto e resiliente.

Leu essa? Com pandemia, fome no mundo aumentou em 40% e atinge mais de 800 milhões

Enquanto isso, em todo mundo, um terço dos alimentos são perdidos ou jogados fora, custando à economia global cerca de US$ 1 trilhão anualmente. A agricultura intensiva é culpada por poluir solos, rios e mares, e, apenas ela, utiliza 70% do fornecimento de água potável.

Temos 16,75 milhões de pessoas morrendo de fome e temos centenas de milhões de pessoas a caminho da fome. Quantas pessoas sabem disso?

David Beasley
Diretor-executivo do Programa Mundial de Alimentos

O modo como produzimos alimentos também é responsável por cerca de um terço dos gases de efeito estufa, que aquecem o planeta. São emitidos de diversas maneiras: quando as florestas são derrubadas e o que dela se produz é transportado pelo mundo em navios, aviões e planetas, que consomem muitos combustíveis fósseis, e quando o gado e outros animais arrotam metano.

Como mudar este cenário? Este foi o tema discutido no final de agosto, quando representantes de 148 governos participaram de diálogos nacionais para coletar ideias e potenciais, com a participação de milhares de pessoas e de ONGs que também contribuíram com o processo.

A crise da covid-19 tornou mais difícil a vida dos agricultores. O aumento nos preços estrangulou as finanças, e, com recursos desviados para medidas emergenciais de mitigação para que comunidades pudessem ficar em casa, a vida de todos tornou-se difícil. Mas práticas agroecológicas parecem ter permitido suportar a pandemia melhor que o agronegócio. Porém a produção agroecológica está trabalhando sem apoio.

A agroecologia oferece a capacidade de fazer o que governos, corporações e agências de ajuda não podem fazer: acabar com a fome. Famílias que nela se envolveram melhoraram indicadores de renda e nutrição.

Com ideias do Fórum Econômico Mundial e com ajuda das indústrias de produtos químicos, as soluções apresentadas na reunião da ONU são muito menos imaginativas. Elas não foram longe o bastante, nem reconheceram os danos ambientais causados pela agricultura industrial. Este suposto método de plantar comida é um dos maiores emissores de gases de efeito estufa.

Em julho, a Rockefeller Foundation revelou que enquanto os americanos consumiram US$ 1,1 trilhão em alimentos em 2009, os custos adicionais externos de saúde, meio ambiente, mudança do clima, biodiversidade e custos econômicos associados com o setor foram de US$ 2,1 trilhões. Esta é uma grande dívida que nunca poderá ser paga. O restante do mundo leva o peso nas costas, e as firmas por trás disso são aquelas que ofereceram soluções no encontro.

O Programa de Alimentos da ONU, a maior agência humanitária do mundo, tem um orçamento de cerca de US$ 5 bilhões e 20 mil funcionários. E recebeu o Prêmio Nobel da Paz no ano passado por seus esforços de combater a fome e impedir que ela possa ser utilizada como arma em zonas de conflito. Seu diretor-executivo, David Beasley, disse acreditar que as pessoas não têm consciência de como a agência enfrenta a dura tarefa de lidar com a fome mundial em meio a guerras, mudança do clima e governos corruptos.

“Temos 16,75 milhões de pessoas morrendo de fome e temos centenas de milhões de pessoas a caminho da fome. Desde a covid, este número aumentou de 135 milhões de pessoas para 270 milhões. Quantas pessoas sabem disso?” disse ele.

“Estivemos em todo canto, do Afeganistão a Venezuela, Haiti, Etiópia. Oitenta por cento de nossas operações são em áreas de guerra e conflito. Estamos vendo o que acontece. E posso dizer que está muito, muito ruim. Assistimos a mil pessoas morrendo de fome por hora”, enfatizou Beasley.

José Eduardo Mendonça

Jornalista com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de S. Paulo. Criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de reportagens sobre energia limpa. Nos últimos anos vem se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade.

Newsletter do Colabora

Nossa newsletter é enviada de segunda a sexta pela manhã, com uma análise do que está acontecendo no Brasil e no mundo, com conteúdo publicado no #Colabora e em outros sites.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *