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Mudanças nas linhas de ônibus: só desenhando

Alteração nos trajetos dos ônibus envolve algumas boas intenções e muita desinformação


Uma pesquisa feita pela Secretaria de Transportes mostrou que 54% das linhas que circulam no Rio tinham mais de 50% de seus trajetos idênticos ao longo das viagens
Uma pesquisa feita pela Secretaria de Transportes mostrou que 54% das linhas que circulam no Rio têm mais de 50% de seus trajetos idênticos ao longo das viagens

Na portaria do meu edifício surgiu um abaixo-assinado dos moradores do entorno da Rua General Glicério contra o fim – comenta-se – das linhas 183 e 184 (Laranjeiras-Centro, uma linha expressa, via Túnel Santa Bárbara, e outra que vai pingando pelo Largo do Machado, Catete, etc.). O que incomodava os moradores era menos o fechamento das linhas e mais a total falta de informação sobre as mudanças. Haverá linhas substitutas na Rua das Laranjeiras? Ou o novo trajeto obrigará todo mundo a fazer uma baldeação hoje inexistente?

Aliás, desde que a prefeitura se jogou nos planos de reestruturação das linhas municipais que passam pela Zona Sul, em outubro do ano passado, é uma confusão danada com o usuário final. Imaginem quanta dor de cabeça até o fim deste mês, quando o programa de mudanças finalmente termina (era para terminar em março, mas as datas foram antecipadas). Lembro-me que em janeiro, quando começou a segunda etapa da segunda fase de implantação das mudanças, a criação de quatro linhas, a modificação de outras quatro e a extinção de sete deixou muita gente indignada. Tudo porque, ao fim e ao cabo, ia ter que pegar mais conduções para chegar e sair do trabalho ou porque não sabia exatamente que linha substituta pegar.

A prefeitura diz que  os moradores  que se sentirem prejudicados pela mudança ou extinção de determinada linha podem recorrer à subprefeitura do seu bairro ou à própria Secretaria de Transportes ou apelar aos vereadores e deputados nos quais votaram.

Mas a reestruturação das linhas não chega a ser uma má ideia, ao menos na teoria. Conversei com a Secretaria Municipal de Transportes e eles me explicaram o fundamento da coisa. Quando a prefeitura finalmente decidiu licitar um setor que sempre foi um ôba-ôba no Rio – o dos ônibus -, com seu poderoso lobby junto à Câmara dos Vereadores da cidade e à Assembleia Legislativa (não faltam insinuações e acusações na imprensa de ligação entre clãs políticos locais e contribuições generosas feitas pelas empresas de ônibus às campanhas desses políticos), a Secretaria de Transportes fez uma pesquisa e constatou que 54% das linhas que circulavam no Rio tinham mais de 50% de seus trajetos idênticos ao longo das viagens. A imensa maioria passando pela Zona Sul, indicando um subaproveitamento de outras vias importantes, como a Linha  Amarela, o Aterro do Flamengo ou o Alto da Boa Vista.

Diz a secretaria: “Diante desse cenário, racionalizar as linhas de ônibus que percorrem nos mesmos trajetos as distâncias mais longas, transportando poucos passageiros, tornou-se fundamental para oferecer um serviço mais organizado, com a melhor utilização dos corredores BRS e a consequente redução no tempo de viagem dos usuários.

O projeto elimina linhas sobrepostas, extinguindo-as ou encurtando seus trajetos. A extinção de linhas não representa redução da frota de ônibus que atende a população. As linhas sobrepostas são substituídas por um conjunto enxuto de novos serviços, batizados de linhas troncais, integradas e circulares (e que levam ao centro, grifo meu). Nesse processo, as já existentes linhas diretas, responsáveis pelas principais ligações entre as Zonas Sul, Norte e Oeste, foram mantidas. A secretaria determinou a ampliação da frota desses serviços, a fim de aumentar a frequência dos ônibus nas ruas.

O desenho da nova rede promove a ligação entre a Zona Sul e o Centro por meio de dois corredores principais, que concentram a maioria dos serviços: Leblon, Ipanema, Copacabana e Centro, via Aterro do Flamengo; e São Conrado, Gávea, Jardim Botânico, Botafogo e Centro, via Praia do Flamengo.

Por esses corredores trafegam as linhas troncais (responsáveis pela ligação direta com o Centro), que recebem os passageiros das linhas integradas oriundos das zonas Norte e Oeste. Os novos serviços também incluem linhas circulares dentro da Zona Sul para evitar o transbordo de passageiros cujo destino não depende da passagem pelos corredores troncais.

A ligação direta entre as regiões foi otimizada pelas linhas mais rápidas, chamadas diametrais, que conectam as zonas Norte e Sul pelos túneis Rebouças e Santa Bárbara, facilitando o acesso a essas regiões. A ligação entre a Zona Oeste e o Centro também conta com serviços diretos, sem a necessidade de transbordo, pela Linha Amarela e pelo Alto da Boa Vista.

Contudo, para dar mais eficiência ao novo sistema – a exemplo do que ocorre em outros países do mundo -, alguns passageiros (cerca de 20%) precisam fazer baldeações. Elas são necessárias para tornar o acesso a diferentes regiões da cidade mais organizado e ágil.

Ao final da implementação de todo o projeto, haverá 35% de redução da frota que passa pela Zona Sul da cidade. Para organizar o novo sistema, 70% das linhas que trafegam pela Zona Sul estarão aglutinadas, assegurando mais eficiência para os novos trajetos”.

Vocês entenderam? Eu, que me considero uma pessoa esclarecida, entendi mais ou menos. É uma reestruturação complexa e é aí, na comunicação do detalhe ao público, que mora o diabo. Porque a tarefa de explicar aos usuários finais sobre como essas mudanças afetam seus trajetos ficou a cargo da Rio Ônibus, a associação que reúne os consórcios de empresas de ônibus municipais. Mas cadê as campanhas de massa? Cadê os cartazes nos pontos avisando sobre as trocas? Cadê um canal de fácil acesso, seja na internet, seja um aplicativo para celular, seja um telefone mesmo, capaz de responder à seguinte pergunta: “Eu pegava a linha X indo de tal lugar e saltava em tal lugar. E ela acabou. O que eu tenho que fazer agora e quanto tempo e dinheiro isso me custará? A baldeação pode ser coberta pelo Bilhete Único?” Diz a Rio Ônibus, através de sua assessoria, que não é bem assim. Que quem determina o esquema de comunicação aos usuários nos pontos de maior movimentação é a Secretaria de Transportes do Município. E que, uma vez isso determinado, eles colocam agentes para informar as pessoas sobre as mudanças. A Secretaria afirma que a Rio Ônibus não realiza esse trabalho de informação de forma exemplar e que até multa a Rio Ônibus pela falta de cartazes explicativos nos pontos, por exemplo. Enfim, é um jogo de empurra.

A Fetranspor – federação que reúne as empresas de ônibus do Rio – criou um aplicativo que se chama “Vá de ônibus”, que em tese se destina a explicar os trajetos da cidade, incluindo os BRTs. O aplicativo é instável e cheio de bugs. Em primeiro lugar, é em inglês (oi?), e todas as vezes que eu tentei descobrir como ir da Rua General Glicério, em Laranjeiras, até a Avenida Rio Branco, no Centro, sem baldeações, o aplicativo não entendia nem onde eu estava nem para onde queria ir e voltava a me perguntar as mesmas coisas. Uma frustração.

No mapa de informações de mobilidade da cidade, uma iniciativa bem-intencionada do Lab.Rio – instituição criada para aproximar os moradores da cidade da prefeitura -, os mapas são confusos e trazem informações curiosas, mas a interatividade é zero. Parece que a equipe de projetos digitais do prefeito Eduardo Paes nunca ouviu falar em Google Maps. Falta serviço. Nas estatísticas, uma tabela gigante em PDF vai mostrando o trajeto de cada linha na base do itinerário, como se todos os moradores fossem obrigados a saber de cor o nome das ruas por onde passam. Na página da Rio Ônibus – o grupo de consórcios que dominam as linhas de ônibus e (agora) as de BRT da cidade -, há um mapa ainda mais chinfrim, com os pontos finais e terminais rodoviários urbanos.

A Secretaria lista algumas vantagens do novo sistema:

  • Na primeira semana de implementação do projeto, 20 ônibus deixaram de circular por hora no Centro do Rio. A partir da segunda etapa, iniciada no dia 24 de outubro, mais 50 ônibus deixaram de percorrer por hora os corredores BRS de Copacabana. No total, já são menos 70 ônibus trafegando, por hora, pelas faixas BRS das Avenida Presidente Antônio Carlos e Rua Primeiro de Março, no Centro.
  • No BRS Nossa Senhora de Copacabana, houve redução de 11% no número de ônibus circulando pela faixa exclusiva, no pico da manhã. Antes da racionalização, 245 ônibus passavam por hora pela região; agora são 219. No pico da tarde, eram 209 coletivos e, agora, 191 ônibus por hora.
  • No BRS da Barata Ribeiro, a redução do número de ônibus que passam por hora pela faixa seletiva foi de 16% no pico da manhã, passando de 293 ônibus por hora para 246; no pico da tarde, de 11%, passando de 175 para 156 coletivos.

E por aí vai. Maravilha, mas cadê a orientação final ao usuário a cabo da Rio Ônibus? A prefeitura diz que vai lá e multa o consórcio, mas, e daí? Cadê a informação? A prefeitura diz que os moradores que se sentirem prejudicados pela mudança ou extinção de determinada linha, podem recorrer à subprefeitura do seu bairro ou à própria Secretaria de Transportes ou apelar aos vereadores e deputados nos quais votaram. Foi o que fizeram os moradores do Leme, que evitaram o fim de algumas linhas e convenceram a prefeitura. Isso depende essencialmente da capacidade de mobilização dos cariocas. E o fato é que se não houve mobilização e reclamação e busca por informações, não será a prefeitura ou a Rio Ônibus que informarão quem quer que seja. E os transtornos estarão aí, massacrando ainda mais a vida de todo mundo.

Após a publicação deste post, recebemos os seguintes mensagens da Secretaria Municipal de Transportes e da Rio Ônibus: 

A Secretaria Municipal de Transporte mandou os seguintes comentários sobre o fim das linhas 183 e 184 que terminam na Rua General Glicério, em Laranjeiras:

As linhas 180, 183 e 184 serão extintas e no lugar delas serão criadas duas novas linhas, as troncais 7 e 8.  A T7 vai ligar Laranjeiras à Central do Brasil enquanto que a T8, que também vai para o Centro, tem como destino outra região: o Largo da Carioca. Essas linhas, por serem troncais, vão passar pela Rua das Laranjeiras, que é a “artéria” central do bairro.

Apesar das mudanças, a General Glicério não ficará desatendida. A linha 580, que hoje faz o trajeto Largo do Machado-Cosme Velho (integração com o Metrô) terá seu trajeto alterado e, em vez de ir até o Cosme Velho, a linha irá até o final da General. Já os passageiros que usavam a 580 para seguir até o Cosme Velho passam a contar com as linhas circulares 1 e 2.

As mudanças estão sendo feitas porque havia três linhas de ônibus saindo de Laranjeiras para o Centro da Cidade, fazendo com que esses ônibus ocupassem um espaço muito grande na Central do Brasil, área de grande concentração de veículos. Desta forma, a ida dos moradores do bairro ao Centro foi reorganizada por duas linhas radiais (troncais 7 e 8) cada uma cobrindo uma região específica do Centro, dividindo melhor os passageiros, e não concorrendo mais entre si.

E como as circulares 1 e 2 (também chamadas de linhas turísticas, porque passam pelos principais pontos turísticos da Zona Sul, como o Corcovado) já levam os passageiros até o Cosme Velho, a 580 terá o trajeto alterado para atender a General, consolidando, dessa forma, o trabalho de reorganização das linhas do bairro.

Essas mudanças estão previstas para serem implementadas a partir do dia 20 de fevereiro.

A Rio Ônibus mandou o seguinte e-mail, a respeito do esforço de comunicação das empresas de ônibus sobre a reestruturação. 

A Rio Ônibus atua em complemento ao trabalho da Prefeitura do Rio de informação aos passageiros desde a primeira etapa da racionalização das linhas de ônibus da Zona Sul, em outubro.

Em todas as oito etapas até o momento, agentes de informação foram distribuídos por 94 pontos de maior movimentação de passageiros distribuindo 600 mil folhetos. Esse trabalho é realizado normalmente desde a semana anterior às mudanças até a semana seguinte. Ao todo, 2.150 cartazes foram colados nos ônibus e em pontos de parada dos BRSs das linhas modificadas, e placas foram instaladas nos pontos finais das linhas que sofreram alteração. Todas as informações em folhetos, cartazes e placas passam pela aprovação prévia da Secretaria Municipal de Transportes. Os pontos e a quantidade de panfleteiros também são definidos pela secretaria. O Rio Ônibus realiza um treinamento com os agentes, que, além de distribuir o material informativo, são instruídos a orientar e tirar dúvidas dos passageiros.

É importante lembrar que essa operação é flexível e dinâmica, podendo sofrer ajustes de acordo com a demanda ou por determinação da Secretaria Municipal de Transportes. O objetivo é informar o maior número possível de usuários das linhas afetadas.

 


Escrito por Gilberto Scofield

É jornalista e, atualmente, trabalha como consultor de comunicação da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, em Brasília. Além de ser sócio-fundador da empresa Butique Comunicação e marca. Foi editor do jornal O Globo e repórter especial da sucursal de São Paulo após ter passado cinco anos como correspondente em Pequim, na China, e dois anos como correspondente em Washington, nos EUA. retornando ao Brasil em 2010. É colaborador da Globonews, comentarista da rádio CBN e autor do livro "Um brasileiro na China", publicado em 2006. Autor dos blogs "No Império – impressões de um brasileiro na capital dos EUA" e "No Oriente diário de um brasileiro na China“ (Globo Online). Ao longo de sua carreira, escreveu para o Jornal do Commercio, do Rio, Revista Exame, Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo, Revista Época, IG Finance, O Globo e Globo Online.

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3 Comentários

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  1. Além de toda bagunça da prefeitura com essa reorganização de linhas, agora você me deu uma péssima notícia. A linha 580 é a única integração com o metrô, com ela pagamos 4,95 de passagem ônibus + metrô com o Riocard. Se pegarmos qualquer outro ônibus até o Largo do Machado pagaremos 2 passagens de 3,80, ou seja, total de 7,60!!! Essa mudança não me afetará porque moro abaixo da GG, mas e o povo do Cosme Velho, vai ficar sem integração com o metrô??? É muito desrespeito com o usuário, deveriam permitir então integração com outros circulares, os tais 1 e2. Duvido muito!!! E pra completar o drama, a 180 ia para a Praça Mauá, sem ela não teremos ônibus direto pra lá!!! Total falta de respeito!!!

  2. O que a Rio ônibus e a SMT não falaram é que, ao contrário de todo e qualquer lugar do mundo, esse serviço do bilhete único é um engodo que traz mais lucros ao consórcio que domina o transporte do que vantagens aos usuários.
    Em qualquer lugar do mundo, se vc tem um cartão de transporte em que paga adiantado um número x de tarifas (seja de ônibus, metrô, trem ou barca), vc paga um valor mais baixo pela tarifa unitária.
    No Rio de Janeiro é assim: vc carrega seu cartão com R$50 do Riocard, tem direito a 14 viagens a R$3,40 cada (14 x R$3,40 = 47,60) e fica com um saldo de R$ 2,40 no seu cartão. Até que vc recarregue de novo, em geral valores exatos, pois as máquinas não dão troco, e assim o RioCard, (e o Metrô Rio que usa a mesma lógica no cartão pré-pago) ficam jogando com esse saldo infinito no seu bilhete único e no dos demais milhares de usuários indefinidamente.
    Faz a conta: R$2,40 x 50.000 usuários = R$120.000 sendo aplicados em bancos e rendendo, enquanto vc é cobrado cada centavo do dinheiro que adiantou para os empresários. Sem contar com os R$50 que vc adiantou e só vai gastar nas próximas semanas.
    Aí aumenta a passagem para R$3,80, e aqueles R$50 que vc adiantou já nem compram mais a quantidade de viagens pela qual vc já tinha pago. O que por si só é um absurdo sem tamanho: vc paga em adiantado e ainda paga mais caro.
    Vem a “racionalização”, e eles resolvem fundir linhas de ônibus, encurtar trajetos, o que vai te obrigar a pegar 2 ônibus para um trajeto que antes vc resolvia com um só. Vc fica com duas opções:
    1) Paga R$ 7,60 por um trajeto que antes custava R$ 3,80.
    2) Adquire o RioCard e sistematicamente adianta um dinheirinho para Fetranspor te deixar usar o Bilhete único, e te cobrar os mesmos R$3,80 por cada passagem.
    Isso quando vc consegue carregar o Riocard, que tampouco é tarefa fácil. São poucas as máquinas espalhadas por aí, e o carregamento via internet leva 2 dias (!!!) para “chegar” no seu cartão. Mais 2 dias em que a Fetranspor joga um pouco mais com seu dinheiro suado.
    Então, esse papo de melhora para o usuário é pura balela. O que estamos vendo é um aumento significativo do lucro da dessas empresas, enquanto o usuário leva mais tempo na viagem além de pagar mais por isso.
    Revoltante.

  3. A matéria é importante para todos os que moram na cidade, mas fico em dúvida quanto a dar crédito as palavras do redator, visto que me parece questionável a sua isenção. Refiro-me ao lugar de colunista da cidade que ocupou no Globo, quando recebendo uma queixa dos moradores sobre os comportamentos impróprios de um estabelecimento hoteleiro em Santa Teresa, dedica parte de sua coluna a fazer elogios ao estabelecimento no relato da cortesia pela hospedagem num fim de semana, sem ouvir a outra parte e ignorando matéria publicada no mesmo jornal onde tais aspectos eram explicitados. Com este episódio, o desfrute no hotel pode ter sido deleitoso, mas duvido que seja capaz de reparar o estrago que fez na sua reputação, ou melhor na suposição de uma ética para pautar o exercício de sua profissão, que não seja optar por vantagens pessoais, em detrimento dos interesses coletivos. Lamento que este colaborador esteja entre os nomes que têm dado tanto brilho e significado ao Projeto Colabora.

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