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Escravidão à mesa

Banalizada, senzala vira nome de restaurantes e casas de shows no Brasil e em outros países


Fachada do restaurante Senzala, no Alto Pinheiros, em São Paulo. Foto Adriana Barsotti
Fachada do restaurante Senzala, no Alto de Pinheiros, em São Paulo. Foto: Adriana Barsotti

(Reportagem de Adriana Barsotti e Aydano André Motta) – Que tal pedir um filé Senzala com uma caipirinha Senzala enquanto seu filho saboreia um Clubinho Senzala? O almoço custaria R$ 120, sem o serviço. O preço não chega a ser indigesto para os padrões de mercado. Já o nome que batiza os pratos  e o estabelecimento – localizado em Alto de Pinheiros, bairro de endinheirados em São Paulo – provoca incômodo em quem faz a óbvia associação com um dos episódios mais lamentáveis da história do Brasil. Rápida busca no Google mostra que existem outros seis restaurantes e casas de shows no país batizados com a palavra-símbolo dos precários e insalubres alojamentos dos escravos nas casas grandes senhoriais. Mas nomear estabelecimentos com o termo extrapola nossas fronteiras. Existem uma creperia em Londres e um restaurante  em Montreal, no Canadá, com a mesma marca.

É só um nome que as pessoas tentam ligar a pelourinho e sofrimento. Até hoje, só uma pessoa reclamou na nossa página no Facebook

Alfredo Correa Filho
Dono do Senzala de Ubatuba

No Senzala Bar e Grill paulistano (há também o Senzala Restaurante, situado na mesma praça, a Panamericana), constam do cardápio 11 pratos, petiscos e bebida batizados com o nome que invoca o local classificado pelo abolicionista Joaquim Nabuco como “o grande pombal negro”. Entre o wrap Senzalinha e o omelete Senzala, um dos autores da reportagem escolheu o último ao almoçar ali no  dia 10 de junho. O objetivo era exatamente conhecer a atmosfera do local. O omelete, recheado de queijo, presunto e alho poró,  ao preço de R$ 31, em nada lembra a escassez das senzalas: a porção é bem servida. O restaurante é bem avaliado por seus frequentadores, no Trip Advisor, onde 53% dos clientes o consideram “muito bom”.  Nos comentários negativos, não há uma queixa sequer sobre o nome do estabelecimento: eles giram em torno de serviço e preço. Mas também lá não havia negros no dia da visita da reportagem. Nem entre os clientes e nem entre os funcionários presentes.

A avaliação simpática de alguns consumidores, entretanto, não impediu que o restaurante fosse alvo de manifestações. Em 2015, atores negros espalharam-se pelas mesas, fizeram seus pedidos e foram ao banheiro. Na volta, exibiram correntes amarradas aos seus pés.  Além disso, os ativistas empunharam cartazes com os dizeres “Hiroxima Grill” e “Restaurante Auschwitz”. O segundo protesto foi recente, em abril deste ano, quando vidraças do restaurante foram quebradas num ato contra as reformas trabalhista e da Previdência. Nesse caso, o ato tinha uma motivação política mais contemporânea do que o passado de escravidão: o local fica próximo à residência do presidente Michel Temer e era por ele frequentado.

A impressão que tenho disso é que tudo se resume na busca pelo exótico, sem medir consequências. Assim, o comércio de bens culturais chegava e ainda chega a esses ‘lugares de ninguém’, mesmo ao outrora infecto e repulsivo ambiente da cozinha, antes interdito às pessoas da família patriarcal, pois era parte da senzala, embora ainda dentro da casa-grande

Neli Lopes
Escritor e compositor
A caipirinha Senzala, light ou normal, servida em vários sabores. Foto Adriana Barsotti
A caipirinha Senzala, light ou normal, servida em vários sabores. Foto Adriana Barsotti

Mas o que leva o dono de um restaurante a nomear seu estabelecimento com um dos símbolos mais tristes da escravidão? Não tivemos sucesso em obter uma resposta do dono do Senzala paulistano após algumas ligações. Mas outros dois empresários aceitaram discutir o assunto. Dono do Restaurante e Pizzaria Senzala de Ubatuba, em São Paulo, Alfredo Correa Filho informa que o estabelecimento, fundado por sua família em 1971, assim foi batizado por ser localizado, à época, em um casarão que lembrava uma casa grande e, portanto, associado a senzalas. “De lá para cá, o tempo foi passando, mudamos de endereço, mas não mudamos de nome”, diz. “É só um nome que as pessoas tentam ligar a pelourinho e sofrimento”, afirma. “Até hoje, só uma pessoa reclamou na nossa página no Facebook”, conta. “Tenho funcionários trabalhando aqui há 26 anos, há 18 anos: o pagamento sai em dia e nada lembra uma senzala”, sustenta.

A empresa tem responsabilidade na escolha do nome. Ele traz uma série de signos. A escravidão é um passivo muito caro

Karine Karam
Sócia da Markka Consultoria

A consultora de marketing Karine Karam, sócia da Markka Consultoria, acredita que o nome Senzala só seria adequado se os estabelecimentos tivessem a intenção de serem inclusivos. “A empresa tem responsabilidade na escolha do nome. Ele traz uma série de signos”, prossegue. “Mesmo se fosse uma proposta transgressora, teria que ser bem explicada”, diz a consultora. “Senzala não tem signos positivos, não combina com prazer e entretenimento. A escravidão é um passivo muito caro. Eu não recomendaria esse nome para cliente algum”, completa.

No restaurante Senzala de Salesópolis, a pouco mais de 100 km de São Paulo, há a intenção do resgate histórico, de acordo com uma das sócias, Silvana Camilo. Ela afirma nunca ter tido problemas com o nome do estabelecimento por “trabalhar a marca historicamente”. Embora o estabelecimento não tenha sediado uma senzala, funciona num casarão de quase dois séculos, erguido pelos escravos. Durante a semana, recebe excursões escolares e, aos domingos, funciona como restaurante. O local era originalmente um entreposto comercial, inclusive de mão de obra escrava. “Contamos essa história”, afirma Silvana, lembrando que o casarão é aberto à visitação pública em geral.

Escritor, compositor e estudioso das culturas africanas, Nei Lopes enxerga, na escolha do nome, a ancestral visão dos espaços da cultura negra como permissivos, “onde o branco rico pode entrar à vontade, sem qualquer restrição, porque teoricamente é dono, patrão”. Ele lista boates de ricos dos anos 1950-60, com nomes como Macumba, Mocambo, Casa Grande, Chicote, Bambu, La Conga (“alguns citados no livro do Ruy Castro, ‘A noite do meu bem’, como acabo de verificar”), tempo dos famosos musicais de Carlos Machado, como “Banzo Ayê” e do emblemático “Orfeu da Conceição”, de Vinícius de Moraes, “que se intitulava ‘o branco mais preto do Brasil’ e criou o sub-estilo musical batizado como ‘afro-samba’”.

“A impressão que tenho disso é que tudo se resume na busca pelo exótico, sem medir consequências. Assim, o comércio de bens culturais chegava e ainda chega a esses ‘lugares de ninguém’, mesmo ao outrora infecto e repulsivo ambiente da cozinha, antes interdito às pessoas da família patriarcal, pois era parte da senzala, embora ainda dentro da casa-grande”, sustenta Nei Lopes. “E agora, com a moda da gastronomia, a cozinha passou a espaço de excelência; mas a gente não encontra nenhum negro entre os chefs de renome. Da mesma forma, isso aconteceu com o samba, a capoeira, o candomblé, a umbanda. E, no meu entender, é explicado por um nome: APROPRIAÇÃO indevida, ou indébita, para ficar mais jurídico”.

Em artigo intitulado “Para onde foi a senzala?”, publicado na revista Zum, o historiador Maurício Lissovsky, professor da Escola de Comunicação da UFRJ, provocou um questionamento sobre a banalização do termo, citando restaurantes e até mesmo motéis batizados com o nome. O que motivou a reflexão foi a última edição do clássico “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, que aboliu a imagem da escravidão da capa, mantendo apenas a casa senhorial. “O restaurante e o motel são as novas faces da senzala. Onde antes havia dualidade e tensão, agora há unidade e promessa de gozo”, critica.


Escrito por Adriana Barsotti

Adriana Barsotti

É jornalista com mais de 20 anos de experiência nas redações de O Estado de S.Paulo, IstoÉ e O Globo, onde ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo com a série de reportagens “A História Secreta da Guerrilha do Araguaia”. Trocou a redação pela vida acadêmica para estudar as transformações no cenário da mídia e escreveu o livro “Jornalista em mutação: do cão de guarda ao mobilizador de audiência”. Atualmente é doutoranda da PUC-Rio e professora dos cursos de Jornalismo da ESPM e do Ibmec porque acredita (muito!) no futuro da profissão. E-mail: barsotti.adriana@gmail.com

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5 Comentários

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  1. Me mudei para Alto de Pinheiros em 1974, desde então o Senzala faz parte da minha vida. Esse restaurante/lanchonete pra mim é sinônimo de alegrias, encontros e ótima comida a preços razoáveis.
    Ali aconteciam vários dos nossos almoços de Domingo, lanches de fim de tarde na minha infância. Na adolescência era O lugar para irmos a pé ou de bicicleta, certos que comeríamos algo gostoso em um lugar agradável , mais uma vez está o restaurante associado a felicidade. Quando comecei a dirigir, o Senzala era o porto seguro para aquele lanche tarde da noite perto de casa, muitas risadas e mesas grandes com amigos, sempre saindo satisfeitos com a qualidade o atendimento e preços. O Senzala na minha família (que não é de São Paulo) é lugar de encontros: , precisa de mesa grande? , onde tomar um chope rápido e gostoso?; almoço pra família toda sem gastar uma fortuna? ; onde todos fiquem satisfeitos? A resposta unânime é o Senzala.
    Hoje em dia moro fora do Brasil e sempre que vou a São Paulo o Senzala é escala necessária, além dos sabores continuarem incríveis é o lugar da memória emocional feliz. Meu pai mora há 50 anos em SP, hoje idoso, encara este lugar como praticamente sua sala de jantar, se sente acolhido pela comida boa e serviço simpático.
    Diante de todas essas boas memórias , de um estabelecimento comercial que acompanhamos crescer e se atualizar em nível de serviços sem nunca perder a qualidade, sinceramente acho a discussão sobre o nome irrelevante. O Senzala sempre vai morar no meu coração, com esse nome mesmo!! Como aquele parente que tem um nome muito estranho, mas como você conhece e ama desde pequeno você acha esse nome a coisa mais linda do mundo.
    Essa história toda para mostrar que um nome que remeteria naturalmente a algo ruim, no meu caso remete a coisas boas.
    O restaurante existe há 47 anos, desde uma época em que o politicamente correto não era tão importante para o sucesso de uma marca . Prosperou e apesar do nome continua um sucesso. Fica a questão para o marketing e marcas: o que é mais importante a história e a qualidade de serviços ou o nome?

  2. Que comentário mais infeliz, Daniela. A questão não é ao redor das suas memórias ou do chamado POLITICAMENTE CORRETO que você mencionou. Vai estudar um pouquinho de história, amore. O nome é PÉSSIMO, nem um pouco acolhedor e desrespeita nossos antepassados (sim, meus e seus), que sofreram em senzalas verdadeiras.

    Acho incrível como as pessoas interpretam as coisas…como levam tudo de forma tão leviana. Podem manter o seu lugar maravilhoso de ótimas recordações, mas NÃO COM ESSE NOME INDIGESTO.

  3. Gostei muito da matéria, absolutamente pertinente colocar em debate a “glamourização” de valores e práticas que ofendem a dignidade humana, que enaltecem o que deve ser motivo de crítica permanente pelo que suscita. O fato do vivermos tempos diferentes e do nome do local não ser mais empregado para locais presentes, a sua evocação não pode ser descolada das práticas, dos valores e dos conceitos que vigiam e que hoje são reputados como abomináveis e ofensivos aos princípios que orientam o conceito de Direitos Humanos Universais.
    Concordo absolutamente com o comentário que me antecede, da Bruna, pois o que está em pauta não é a qualidade dos serviços prestados, ou do ambiente, em sua capacidade de gerar boas e prazerosas lembranças, muito menos a simpatia dos proprietários, o que é cabível debater é desconsiderar a carga de dores, pesares e desumanidade presente nesta referência. Parece-me, como disse a Bruna, que a Daniela foi infeliz em não separar as boas lembranças de sua vida pessoal, da simbologia do nome com inaceitáveis práticas do passado,

  4. “A carne negra é a mais barata do mercado”, disse Elza Soares uma vez. A morte de milhares, milhões de negros escravizados, virou mimimi. Não merece sequer a alcunha de genocídio ou holocausto. Não temos direito a sobrenomes ancestrais. E o pouco que nos sobra é ridicularizado em situações como essas. Em que um termo que deveria ser motivo de vergonha nacional vira modinha sem a menor ligação com o sentido original. É cult branco querer compartilhar o meu turbante. Pena que que não querem compartilhar as vagas em prisões, favelas e indices de mortalidade violenta nos quais o negro lidera as estatísticas. São nossas senzalas contemporâneas que ninguém de fora quer se apropriar.

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