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O jogo duro da desigualdade

Futebol ignora lições do esporte nos Estados Unidos e acentua a concentração de dinheiro e de craques


Pelo terceiro ano seguido, o título máximo dos clubes vai para a Europa. O Barcelona superou na final o River Plate, da Argentina, por acachapantes 3 a 0, expressão do abismo que separa a qualidade técnica nos dois lados do planeta bola
Pelo terceiro ano seguido, o título máximo dos clubes vai para a Europa. O Barcelona superou na final o River Plate, da Argentina, por acachapantes 3 a 0, expressão do abismo que separa a qualidade técnica nos dois lados do planeta bola

Pote de ouro no fim do arco-íris futebolístico para os times da América do Sul, o Mundial de Clubes da Fifa, encerrado na manhã deste domingo (20), amarga status de série B para as grifes milionárias da bola na Europa. Para além de preferências e prioridades, a competição que reúne representantes de todos os continentes serve de retrato pronto e acabado do futebol internacional de hoje.

Pelo terceiro ano seguido, o título máximo dos clubes vai com facilidade para a Europa. Em 2013, deu Bayern de Munique; em 2014, Real Madrid; agora em 2015, o Barcelona superou na final o River Plate, da Argentina, por acachapantes 3 a 0, expressão do abismo que separa a qualidade técnica nos dois lados do planeta bola. Mas o nome do jogo é bem outro.

Falta ao futebol aprender algumas lições disponíveis no maior mercado do mundo. Montado sob uma lógica diferente, o esporte nos EUA cria regras para viabilizar um rodízio nos primeiros lugares. O sistema de escolha dos novos jogadores a cada temporada, privilegia, no sorteio, os times que ocuparam as piores colocações nos anos anteriores

Nos campos do mundo, pratica-se a desigualdade e a concentração de dinheiro – e, consequentemente, craques – em patamares nunca vistos. A ponto de fazer a atávica mazela brasileira parecer suave, diante do cenário em que três times alargam a distância para todos os outros, protagonizando uma ciranda de glórias esportivas, poder político – e, sobretudo, cifras delirantes. Bayern, Real e Barcelona venceram também as últimas edições da Liga dos Campeões da Europa, o principal torneio de clubes do mundo, e dominam absolutos as apostas para erguer a “Orelhuda” – apelido do esdrúxulo troféu de campeão do Velho Continente – dia 28 de maio próximo, no Estádio San Siro, em Milão (Itália).

Somente uma surpresa – zebra – daquelas que garantem ao futebol o posto de mais imprevisível dos esportes pode consagrar campeão diferente dos dois espanhóis ou do alemão, na Europa e no mundo. E o pior: os comandantes do futebol sequer se ocupam do assunto, que ameaça a atividade como negócio e paixão. Enredados em cabeludas denúncias de corrupção, os cartolas têm problemas mais urgentes – ou, mais resumidamente, o FBI – à espreita. E o tal jogo surpreendente vai ficando mais e mais previsível.

Um tédio. Tricampeão alemão, o Bayern lidera o torneio nacional nesta temporada, oito pontos à frente do Borússia Dortmund, após 17 rodadas. Na Espanha, o Barcelona amanheceu o domingo em primeiro (não joga na rodada por causa do Mundial), e é o atual campeão, que cristalizou a tríplice coroa, sinônimo de temporada perfeita, por ter vencido também a Copa do Rei e a Liga dos Campeões. Graças, em especial, a seu incrível ataque, formado pelo argentino Messi (a caminho de ser eleito pela quinta vez, agora em janeiro, o melhor jogador do planeta), o uruguaio Suárez e o brasileiro Neymar. O trio MSN, autor de inacreditáveis 122 gols, recorde, na temporada 2014/2015.

Um dos alicerces desta história, claro, é o dinheiro. A consultoria inglesa Deloitte publica anualmente relatório sobre os clubes mais ricos do mundo – “campeonato” que, em 2015, tem o Real Madrid na liderança pelo décimo ano consecutivo, com 549,5 milhões de euros. O Bayern aparece em terceiro (487,5 milhões de euros) e o Barcelona em quarto (484,6 milhões de euros).

No meio dos três está, em segundo lugar, o Manchester United, da Inglaterra, com 518 milhões de euros. Logo em seguida, vêm Paris Saint-Germain (474,2 milhões de euros), Manchester City (414,4 milhões de euros) e Chelsea (387,9 milhões de euros). Estes três evidenciam um problema também ignorado pelos mandachuvas da bola: o dinheiro suspeito.

O clube francês tem como dono o empresário Nasser Al-Ghanim Khelaïfi que em 2011, via Autoridade de Investimento do Qatar, pagou 50 milhões de euros por 70% das ações do clube. O City é propriedade de Khaldoon Al Mubarak, que, em 2008, desembarcou dos Emirados Árabes com 210 milhões de libras (pouco mais de R$ 1,2 bilhão) para se tornar dono do outro clube de Manchester. Atual campeão inglês, o Chelsea integra o patrimônio do russo Roman Abramovich, 49 anos, 137º homem mais rico do mundo (sua fortuna, segundo a “Forbes”, ronda os 7,9 bilhões de dólares). O homem é acusado de contrabandear diamantes na África e sonegar impostos no seu país, onde possui empresas de petróleo e alumínio, ganhas na privatização ocorrida ao fim do regime comunista.

(Diferentemente dos clubes brasileiros, seus congêneres europeus têm ações na bolsa e donos, como empresas.)

Falta, aos outros endinheirados, a força esportiva de Barcelona, Real e Bayern, e aqui o círculo se completa. Os melhores jogadores do mundo buscam atuar num dos três poderosos que, assim, montam elencos multinacionais e espetaculares, ganham títulos, oferecem salários cada vez maiores – e se cristalizam como alvo da cobiça dos melhores etc… (Neymar, por exemplo, escolheu ir para a Catalunha ao fim de um pesado leilão entre os rivais espanhóis.) Todo o resto se aperta em papéis de coadjuvante.

“Na nova ordem do futebol mundial, couberam aos europeus o dinheiro, os craques e a excelência técnica. A nós, da periferia, restou a paixão. A capacidade de causar encantamento pela nossa relação com o jogo”, pondera Carlos Eduardo Mansur, colunista de “O Globo” e comentarista do Sportv, apontando neste amor o único caminho que enxerga possível.

Observador minucioso do esporte, ele especula que os principais clubes ingleses e o Paris Saint-Germain têm potencial para romper a barreira. Mas, com a bola rolando, não há sinais visíveis de uma virada. E o desfecho dos campeonatos se repete numa rotina perigosamente monótona.

Falta ao futebol aprender algumas lições disponíveis no maior mercado do mundo. Montado sob uma lógica totalmente diferente, o esporte nos Estados Unidos cria regras para viabilizar um rodízio nos primeiros lugares. O draft, sistema de escolha dos novos jogadores a cada temporada, privilegia, no sorteio, os times que ocuparam as piores colocações nos anos anteriores. Assim, os talentos vão se espalhando, até as equipes se estruturarem e deixarem os últimos lugares em direção ao topo.

A NBA, milionária liga de basquete, oferece um exemplo atual: o Golden State Warriors. Habitué das últimas colocações por décadas, o time de Oakland, na Califórnia, campeão em 2014/2015, teve agora o melhor início de temporada da história, ao enfileirar 24 vitórias consecutivas. Liderado pelo espetacular armador Stephen Curry, é favorito ao bi, enquanto rivais mais célebres, como o vizinho Los Angeles Lakers, dono de 17 títulos, e o New York Knicks, amargam os confins da classificação.

A banda toca do mesmo jeito no futebol americano, no beisebol e no hóquei, que formam as grandes (e bilionárias) ligas do país de Obama. Está longe de ser lição solitária. Todo o esporte profissional dos EUA está atrelado ao sistema educacional. Os times garimpam jogadores nas universidades – endereços de competições disputadas e igualmente prósperas –, que vão buscá-los nas escolas. No país, existem canais de TV a cabo que transmitem exclusivamente torneios escolares e universitários. Não falta público nem patrocinadores.

O desempenho nas salas de aula influencia decisivamente na carreira esportiva, e, no bojo, forma cidadãos melhores. Em 2014, os jogadores do Los Angeles Clippers sacudiram a NBA ao fazer um protesto em quadra contra o próprio dono do time – patrão deles –, Donald Sterling, que fizera declarações racistas em conversa com a namorada. Eles entraram com os agasalhos pelo avesso, tapando o nome da equipe. Não houve corporativismo. “Como dono de uma equipe, estou enojado em saber que um colega de profissão tenha visões tão nojentas e ofensivas. Como um ex-jogador, estou horrorizado. Não há lugar na NBA, e em nenhum lugar, para esse tipo de racismo e ódio que o Sr. Sterling expressou. Não podemos tolerar discriminação em qualquer nível”, disparou Michael Jordan, melhor jogador de todos os tempos, hoje dono do Charlotte Bobcats.

Sterling acabou banido da NBA e foi obrigado a vender seu time. Contundência que não se vê nos incontáveis casos de intolerância registrados nos campos de futebol mundo afora. Jogadores arriscam protestos amenos, quase muxoxos, logo esquecidos, e a Fifa encena punições desimportantes às equipes. A impunidade segue invicta.

E lições preciosas permanecem à espera de aprendizes.


Escrito por Aydano André Motta

Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Foi comentarista do canal Sportv. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”.

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