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O grupo da verdade ou a verdade do grupo

Deu no WhatsApp, fascínio por espalhar boatos supera a paixão por futebol e Carnaval no Brasil


No WhatsApp a estupidez de cada um é multiplicada pelo número de participantes e quanto mais bizarra a informação mais rela se propaga. Foto Aditya Irawan/NurPhoto
No WhatsApp a estupidez de cada um é multiplicada pelo número de participantes e quanto mais bizarra a informação mais rela se propaga. Foto Aditya Irawan/NurPhoto

O caminhoneiro olha o celular – no WhatsApp, é óbvio – e lá está a informação que ele precisava: se a greve continuar até meia-noite o Temer cai. Se tá no zap só pode ser verdade, diz a sabedoria popular, então ele compartilha para todos os seus grupos. E neles descobre outra novidade melhor ainda: devido à greve vai ser feito um referendo para decidir se o presidente continua ou não. Caramba, ele exclama, o Brasil e os grevistas precisam saber disso!

O botão enviar funciona mais uma vez.

Aqui, estar conectado no mesmo grupo ou mesmo ser amigo de um amigo já legitima qualquer bobagem alheia. O “amigo do primo do conhecido do meu irmão” é o equivalente nativo a um título de nobreza

Nesta greve dos cominhoneiros os sindicatos ficaram de fora. Pra que? Sindicato é coisa de comunista velho, obsoleto, ultrapassado, com uma comunicação imediata e democrática ninguém precisa dessa instituição falida. A onda é funcionar sem lideranca, todo trabalhado na horizontalidade. É cada um por si e o zap por todos. O que pode dar errado se todos estão conectados?

A Policia Federal vai atirar em qualquer caminhoneiro parado, alerta um grupo, que entra em movimento. Só a intervenção militar garante a nossa segurança avisa o outro. Alguém tá sabendo se Brasilia já decretou estado de sitio? Já, e a ONU tá pronta para intervir, afirma com segurança o terceiro, online com um e outro.

Se do lado de lá da greve é assim, o lado de cá não está muito melhor.

Se a greve continuasse até meia-noite o Temer cairia foi um dos boatos mais espalhados nos últimos dias. Foto Miguel Schincariol/AFP
Se a greve continuasse até meia-noite o Temer cairia foi um dos boatos mais espalhados nos últimos dias. Foto Miguel Schincariol/AFP

O governo vai desligar a internet para impedir a comunicação entre os grevistas, avisa a vovó para o neto. Este repassa a informação nos seus grupos e acrescenta que o PCC vai aproveitar a confusão da greve para acertar as contas com a polícia. A intervenção militar vem aí, enviam os antenados, em uníssono.

Sergio Moro e Temer se engalfinharam dentro do Palácio do Planalto, garante o grupo da família. Rodrigo Maia tentou apartar e levou uma tesoura voadora do Gilmar Mendes, afirma o grupo do trabalho. Trump vai mandar tropas para anexar o Brasil, decide o grupo da Academia.

Os ingênuos acharam que a comunicação total iria revolucionar a política e a sociedade. Nada de jornais ou jornalistas, esses manipuladores de opinião serão aposentados pela agilidade democrática das redes sociais, garantiram os muito espertos. Mas nem as redes socias deram vazão para tanta imbecilidade represada, foi preciso a agilidade do WhatsApp para conectar em tempo real a falta de informação, a burrice, e a incapacidade completa de somar dois mais dois.

Num grupo de WhatsApp a estupidez de cada um é multiplicada pelo número de participantes e quanto mais bizarra e inacreditável a informação mais rápido ela se propagará. Isso significa que, ao contrário das rede sociais, onde é necessário pagar para impulsionar uma fakenews e ainda por cima contratar robôs para espalhá-las, no WhatsApp os próprios imbecis se encarregam disso, e de graça. O alcance é infinito, ainda mais no Brasil, onde a conexão pessoal está acima de qualquer coisa. Aqui, estar conectado no mesmo grupo ou mesmo ser amigo de um amigo já legitima qualquer bobagem alheia. O “amigo do primo do conhecido do meu irmão” é o equivalente nativo a um título de nobreza. Qualquer opinião ou notícia emitida pelo portador deste título terá um valor muito maior do que fatos, realidade ou opiniões de especialistas. É assim que corre o rastilho das tolices bombásticas nos grupos de whatsapp.

Por falar nisso é melhor se preparar mesmo para a intervenção militar, acabaram de me avisar pelo celular que o Pablo Vittar roubou um caminhão de gasolina e esta indo para Curitiba libertar o Lula.

Só pode ser verdade.


Escrito por Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coréia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

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