Galo da Madrugada ganha as ruas com adereço inspirado em indígenas

A alegoria gigante do Galo da Madrugada com as Varandas da Paz coloridas e com feitas com fibra de tecido por artesãs inspiradas em técnica tradicional de indígenas da etnia Pankararu (Foto: Galo da Madrugada)

Artesãs de cooperativa de Tacaratu, no sertão de Pernambuco, confeccionaram as Varandas da Paz, usando técnica tradicional da etnia indígena Pankararu

Por Adriana Amâncio | ODS 12 • Publicada em 9 de fevereiro de 2024 - 08:48 • Atualizada em 15 de fevereiro de 2024 - 09:50

A alegoria gigante do Galo da Madrugada com as Varandas da Paz coloridas e com feitas com fibra de tecido por artesãs inspiradas em técnica tradicional de indígenas da etnia Pankararu (Foto: Galo da Madrugada)

A espera acabou! O Galo da Madrugada, maior bloco de carnaval do mundo, chega nas primeiras horas deste sábado (10/02) às ruas do Recife arrastando foliões e levando uma mensagem de respeito aos povos originários. Este ano, o Galo da Paz, como ficou conhecido, traz um pedacinho do Sertão de Pernambuco no seu figurino. As pernas da escultura trazem as Varandas da Paz, adereço feito de fibra de tecido, com técnica de macramê, arte de tecelagem manual com uso de nós para criar franjas e redes.

A peça é uma criação de um grupo de 30 artesãs da Cooperativa dos Artesãos Têxteis de Tacaratu (Coopertêxtil), de Tacaratu, em Pernambuco, junto com o artista plástico Leopoldo Nóbrega, que assina a escultura do Galo Gigante. A inspiração para o adereço veio dos traços e cores da etnia indígena Pankararu, de Caraibeiras, distrito do Sertão de Pernambuco. “Tem um pedacinho de cada uma de nós nessa varanda. Eu sempre via o Galo da Madrugada pela televisão, mas nunca imaginava estar um dia aqui, sendo privilegiada com as amigas da cooperativa, mostrando o nosso trabalho ”, afirma Cleonice Araújo, artesã, sócia-fundadora da Coopertêxtil.

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As Varandas da Paz ganharam vida, a partir de um processo de criação, que durou meses. Inicialmente, as artesãs junto com Leopoldo, realizaram uma imersão na aldeia indígena Pankararu. Na Terra Indígena Pankararu, homologada em 1987 e localizada entre os municípios de Petrolândia, Itaparica e Tacaratu, no sertão pernambucano, as artesãs tiveram contato com as cores, a simbologia, cultura e religiosidade desse povo. Daí nasceu a peça, que originalmente, serve para decorar a lateral das redes.

Artesã de Tacaratu prepara as Varandas da Paz para servir de adereço para a escultura gigante do Galo: tradição e inspiração indígena (Foto: Arthur Martins / Divulgação)
Artesã de Tacaratu prepara as Varandas da Paz para servir de adereço para a escultura gigante do Galo: tradição e inspiração indígena (Foto: Arthur Martins / Divulgação)

As Varandas possuem a parte superior nas cores que representam os cinco continentes e a extensão na cor branca. Leopoldo, convidado pela terceira vez para assinar o Galo da Madrugada, resolveu transformar a obra em adereço e produzi-la em tamanho cenográfico, com cerca de quatro metros, para representar as penas que revestem os pés da escultura, que tem, no total, 28 metros de altura. “A experiência da Varanda da Paz, uma produção de Caraibeiras está associada ao carnaval, mostra a capacidade de economia criativa, de ativação de redes produtivas que abrem portas para a inovação, tendo o artesanato como esse produto que fala do tempo, de um povo e de uma memória ancestral”, analisa o artista plástico que assina a escultura do Galo da Paz, Leopoldo Nóbrega.

A escultura do Galo Gigante, que tradicional abre as portas do carnaval do Recife desde 1995, está erguida desde quarta-feira (7), na Ponte Duarte Coelho, no Centro da capital pernambucana. A alegoria presta homenagem aos povos originários e também às pessoas idosas e vai ficar no local até a Quarta-feira de Cinzas (14/02). O 45º desfile do Galo da Madrugada, considerado o maior do mundo, espera reunir mais de dois milhões de pessoas nas ruas do Recife, de acordo com seus dirigentes: são 30 trios elétricos e dezenas de artistas no cortejo.

As Varandas da Paz sendo preparadas para o Galo: quatro metros com franjas e redes feitas por artesãs para adornar os pés da escultura (Foto: Arthur Martins / Divulgação)
As Varandas da Paz sendo preparadas para o Galo: quatro metros com franjas e redes feitas por artesãs para adornar os pés da escultura (Foto: Arthur Martins / Divulgação)

Distante 437 quilômetros do Recife, Tacaratu, com cerca de 24 mil habitantes, é um cidade sertaneja conhecida como Terra das Redes. As Varandas da Paz, criadas com o apoio do Sebrae\PE, surgiram como um produto inovador para impulsionar os pequenos negócios, gerando renda para as artesãs. As peças compõem a Coleção Varanda da Paz – Galo da Madrugada 2024, que será lançada, neste sábado exatamente quando o bloco invadir as ruas do Recife.

“O Sebrae está a mais de um ano trabalhando com a Coopertêxtil. Agora, chegou hora de desenvolver novos produtos e eu tenho certeza que as Varandas da Paz vão reverberar e trazer grandes oportunidades para os associados. Isso condiz com a nossa missão, que é incentivar as produções locais e levar desenvolvimento para a população de Tacaratu”, afirma a gerente do Sebrae em Serra Talhada, Rossana Webster. As mulheres são protagonistas na cadeia produtiva têxtil de Pernambuco, por essa razão, as Varandas da Paz incentivam o empreendedorismo dessas mulheres na área.

Galo da Paz é erguido na Ponte Duarte Coelho, no Recife: escultura de 28 metros de altura, com pés adornados por trabalho artesanal inspirado em indígenas, marca desfile do do Galo da Madrugada, que terá 30 trios elétricos e dezenas de artistas (Foto: Galo da Madrugada - 07/02/2024)
Galo da Paz é erguido na Ponte Duarte Coelho, no Recife: escultura de 28 metros de altura, com pés adornados por trabalho artesanal inspirado em indígenas, marca desfile do do Galo da Madrugada, que terá 30 trios elétricos e dezenas de artistas (Foto: Galo da Madrugada – 07/02/2024)

Adriana Amâncio

Jornalista, nordestina do Recife. Tem experiência na cobertura de pautas investigativas, nas áreas de Direitos Humanos, segurança alimentar, meio ambiente e gênero. Foi assessora de comunicação de parlamentares na Câmara Municipal do Recife e na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Foi assessora da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e, como freelancer, contribuiu com veículos como O Joio e O Trigo, Gênero e Número, Marco Zero Conteúdo e The Brazilian Report.

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