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Conheça a alemã que se desafiou a passar o resto da vida com a mesma roupa

Vestido foi feito com tecido de longa duração de uma marca sustentável


Jessica Böhme com o vestido que pretende passar a vida toda (Foto: Divulgação / André Groth)
Jessica Böhme com o vestido que pretende passar a vida toda (Foto: Divulgação / André Groth)

Não faltam motivos para investir em mudanças no mundo da moda: denúncias de trabalho escravo, consumo gigantesco de água e incineração de coleções antigas são alguns dos motivos. Mas as notícias são boas: 65% dos consumidores já procuram marcas sustentáveis na hora de fazer compras desde 2016, segundo o site The Fashion Revolution. Aqui no Brasil, de acordo com o instituto Akatu, a situação é diferente: 76% dos brasileiros ainda são pouco conscientes ao consumir, mas os números apontam para um avanço na consciência se comparado com anos anteriores,  como mostrou Liana Mello aqui no nessa reportagem para o Colabora. Mas ainda assim estamos falando de formas diferentes de consumir.

Depois de alguns anos comprado em brechós e em marcas de produção local, a alemã Jessica Böhme decidiu dar um passo além nesse debate, questionando o modelo de negócio das marcas com o próprio corpo. Há mais de um ano, ela usa a mesma roupa, um vestido preto co-desenhado por ela, que é combinado com algumas outras (poucas) peças, como casacos e calças, aproximando a moda da arte, segundo ela.

“Arte, para mim, é pouco convencional, lenta, única, minimalista, bonita, atemporal e uma expressão de quem você é.  É isso que eu quero que a moda seja”.

Quando anunciou que iria ficar um ano usando o mesmo vestido (na verdade são dois, que ela reveza para poder usar um quando o outro está lavando), recebeu muitos questionamentos, mas seguiu sua intuição e foi em frente.  Depois de um ano postando fotos em seu blog e no Instagram, Jessica decidiu aumentar o desafio para “um vestido para a vida toda”. Para ela, que contabiliza 56 peças no total de seu guarda roupa atual, incluindo joias e roupas íntimas, o consumo nos entorpece e movimentos como minimalismo e slow fashion são tendências do futuro que já estão fazendo sentido para muita gente.

“Eu acredito que é necessário redefinir o que é a moda: do mainstream para o não-convencional, do rápido para o lento, do igual para o único, da pouca duração para sem tempo de duração, do estilo ditado pelas marcas para o estilo ditado por você”, diz ela.

#COLABORA: Você já contou que era muito interessada em comprar roupas novas antes. Como essa mudança aconteceu?

Jessica Böhme: Sempre fui apaixonada por moda. Aos 4 anos, decidi que calças não estavam mais na moda. Tinha que ser um vestido ou uma saia. Eu, teimosamente, me recusava a usar até leggings, mesmo quando estava frio. Assim que cresci, comecei a trabalhar em uma loja de varejo que vendia roupas. Eu adorava ajudar as pessoas a escolher roupas e mostrar-lhes escolhas não convencionais. Quando me mudei para uma cidade grande e tive meu primeiro emprego, o dinheiro não era mais um problema. Eu consegui realizar todos os sonhos de moda que tive. Dois anos depois, mudei minha carreira para a pesquisa da sustentabilidade. Demorei pouco tempo para perceber que as atuais crises que enfrentamos: ambientais, sociais e espirituais eram um resultado direto de nossa cultura de consumo. E meus hábitos de compras alimentavam essa cultura. Foi quando notei que precisava mudar.

Há mais de um ano, Jessica usa o mesmo vestido. (Foto: Divulgação/ André Groth)
Há mais de um ano, Jessica usa o mesmo vestido. (Foto: Divulgação/ André Groth)

#COLABORA: Como você teve a ideia de usar um vestido por um ano?

Jessica Böhme: Eu vi uma entrevista com uma senhora alemã que usava o mesmo vestido há um ano e achei profundamente inspirador. Quando comecei a mudar meus hábitos de consumo, eu passei a comprar menos, e, se eu comprava algo novo, era de uma marca sustentável e justa. Enquanto eu fazia isso, comecei a sentir a beleza de ter apenas um guarda-roupa muito limitado. Mas tive medo que as pessoas me achassem estranha, que meu marido ficasse entediado com minha aparência, que eu não fosse mais capaz de parecer cool. Entretanto, de alguma forma, eu não consegui desistir da ideia, eu sentia que tinha que tentar.

#COLABORA: O ano de vestir um vestido terminou em 2017. E agora?

 Jessica Böhme: Depois que o ano terminou eu continuei usando o vestido por mais três meses, porque eu não sabia como parar. Eu finalmente voltei a usar algumas peças diferentes por um tempo. Depois de 4 meses, senti falta de usar apenas um vestido. Então, eu reiniciei o projeto. Desta vez, decidi usar o mesmo vestido para o resto da minha vida. Eu o co-desenhei com um designer em Berlim e encontrei um tecido de longa duração de uma marca sustentável que doou um lote de tecido para o projeto.

#COLABORA: Como esse ato fez você mudar sua visão sobre a indústria da moda?

 Jessica Böhme: A maneira como abordamos a moda está completamente ao contrário. O que encontramos na moda hoje é o mainstream, rápido, produzido em massa, prejudicial para as pessoas e o planeta, de curta duração e determinado por uma indústria que está se esforçando para ganhar cada vez mais dinheiro. Para mim, a moda sempre foi uma forma de arte. Enquanto usava o mesmo vestido por um ano, percebi que, se moda é arte para mim, as mesmas “regras” de arte se aplicam. Arte, a meu ver, é pouco convencional, lenta, única, minimalista, bonita, atemporal e uma expressão de quem você é. É isso que eu quero que a moda seja.

Eu tenho uma amiga que usa o mesmo moletom por pelo menos 15 anos. O moletom a representa. É uma expressão única de sua personalidade. Ela ainda fica maravilhosa nele. Isso é o que a moda deve fazer – destacar sua singularidade.

Ao usar o vestido por um ano, ele se tornou mais que uma peça de roupa. Eu desenvolvi algum tipo de relacionamento com ele, como muitos fazem com uma joia querida. Esse tipo de relacionamento com as coisas é necessário para escapar do consumismo em que vivemos atualmente.

#COLABORA: Quais são as reações das pessoas quando você fala sobre o seu projeto?

Jessica Böhme: As reações são muito diversas. Eles variam de total falta de compreensão ao total acordo. Eu inspirei algumas pessoas a fazerem o mesmo. Recentemente, conheci um pesquisador que ficou muito empolgado e trouxe muitas ideias interessantes sobre como proceder com o projeto, como ir às escolas e educar sobre o consumo e nossa constante necessidade de nos encaixar.

#COLABORA: Você acha que isso poderia se tornar uma “tendência”?

 Jessica Böhme: Eu realmente espero que sim. O minimalismo já é uma tendência. Armários-cápsula estão por toda parte. Acho que estamos prontos para dar mais um passo. Muitos de nós percebemos que há algo fundamentalmente errado na nossa forma de lidar com a vida. O consumo nos mantém longe das questões mais fundamentais da vida. Nos entorpece.

#COLABORA: Quais são as lições mais valiosas desta experiência para você?

Jessica Böhme: Meu marido estava muito relutante e cético sobre essa ideia. Moda não era muito importante para ele, mas ele se importa com o visual. Depois de 7 meses, estávamos de férias na Sérvia e fomos para um shopping center. Ele experimentou algumas camisas e eu experimentei um poncho para o qual tirei o cardigã que usei sobre o vestido (claro que não o comprei). Naquela época eu tinha uma variação de dois blazers pretos e aquele cardigã um pouco colorido que eu usava sobre o vestido. Quando eu coloquei meu cardigã de volta, ele veio até mim e disse: “Isso ficou ótimo, por que você não compra?”. Eu estava usando essa peça por sete meses e ele nem tinha reparado. Foi quando percebi que a moda não é o que pensamos que é.

#COLABORA: Você tem ícones de moda ou marcas de moda lentas que você admira?

Jessica Böhme: Eu admiro a Nudie Jeans, que é o fornecedor que eu contratei para o tecido do vestido. Eu tenho usado os jeans deles que são muito duráveis, têm uma boa modelagem e durante toda a vida eles oferecem um serviço de reparo da peça de graça. Os tecidos são todos de fornecedores sustentáveis. Outra marca que eu acho que está fazendo um ótimo trabalho é a Vetta Capsule. Eles promovem a ideia de que você não precisa muito. Além disso, há muitas marcas sustentáveis ​​que estão fazendo roupas de boa qualidade, como a Armed Angels, por exemplo. Eu também adoro plataformas como etsy e similares. Claro, você também pode encontrar um monte de lixo, mas também há muitos designers talentosos que fazem suas roupas personalizadas.

#COLABORA: Você acha que ainda há muito mais preocupação com coisas como comer carne, CO2 e menos preocupação com a indústria da moda?

Jessica Böhme: Definitivamente, sim. Comer carne tornou-se um tema do momento, porque o impacto ambiental é enorme. Alguns números dizem que representa metade das emissões de CO2 do planeta. Mas não sei porque a moda ainda não se tornou mais importante. Eu tenho certeza que isso vai mudar. As semanas e as feiras de moda, por exemplo, agora estão repletas de marcas sustentáveis. Eu acho que ir ainda mais longe – como eu faço – desafia modelos de negócios inteiros. O velho modelo de vender mais para ganhar mais dinheiro teria que mudar drasticamente, como oferecer serviços de reparo. Pode até significar que os negócios não crescem indefinidamente. Isso desafia toda uma maneira de pensar, é um novo paradigma, que as pessoas têm medo de se adaptar.

#COLABORA: Você sabe quantos itens estão em seu guarda-roupa agora?

Jessica Böhme: 55. Incluindo joias, roupas íntimas, chapéus… tudo que eu coloco no meu corpo, exceto meus óculos. Isso tornaria 56.


Escrito por Maria Clara Parente

Maria Clara Parente

É jornalista formada pela PUC-Rio, interessada em iniciativas da economia colaborativa. Protagonista da série Web Colaborativa, terceira colocada no Melbourne Web Fest 2017, na Austrália, na categoria não-ficção internacional.

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6 Comentários

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  1. Conceito deveras interessante e amigo do ambiente. Porém, me parece um tanto radical… Se só tem um vestido, e para toda a vida, como o higieniza? Como o lava? Talvez dizer que apenas tem um seja somente uma força de expressão… Não?

  2. Ela fica pelada enquanto espera o único vestido lavar?? kkk
    Desculpa a pergunta besta, mas fiquei curiosa sobre a coisa prática da coisa.

  3. Pessoal não lê mesmo, hein! No terceiro parágrafo, depois da citação, diz como ela faz para lavar o vestido: “Quando anunciou que iria ficar um ano usando o mesmo vestido (na verdade SÃO DOIS, que ela reveza para poder usar um QUANDO O OUTRO ESTÁ LAVANDO)…”

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