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Salve, simpatia

De uma maneira ou de outra, os pais sempre têm razão


Os talentos de artista sendo desenvolvidos logo cedo. Sigrid Olsson / AltoPress / PhotoAlto
Os talentos de artista sendo desenvolvidos logo cedo. Sigrid Olsson / AltoPress / PhotoAlto

Quando era criança, vivia fascinado por super-heróis. Batman, Super-Homem, Homem-Aranha. Perguntei uma vez aos meus pais se eu, um dia, teria algum tipo de superpoder. Ele, profético, respondeu que o meu poder seria o de fazer amigos. Ela, visionária, disse que seria o de influenciar pessoas.

O superpoder dos dois, aprendi desde cedo, era o sarcasmo.

No almoço de domingo, me queixo com meus pais da profecia: “As pessoas ainda não notaram os meus superpoderes”. É só uma questão de tempo, respondem. Ele me recomenda usar uma capa vermelha em eventos sociais. Ela me aconselha a escrever um livro de autoajuda.

Jantar numa cobertura da Lagoa. Classe média alta eles, fudido deluxe eu. O ambiente é mezzo coxinha, mezzo hipster. Quando todos estão na mesa quadrada de oito lugares começa a tradicional conversa sobre o desastre Temer, com o também tradicional, ao menos neste ambiente, discurso sobre a necessidade de reformas trabalhistas. Não presto atenção porque estou atracado ao pão, que é de padaria premium-gourmet-diferenciada, cinquenta reais a baguete, muito mais saboroso que o discurso. Um dos convidados diz que a legislação atual só beneficia os trabalhadores, e prejudica empreendedores como ele, quando deveria ser o contrário.

Mesmo ouvindo isso continuo alheio à conversa, mais preocupado em calibrar o quanto de pão posso comer sem gerar constrangimento à mesa. O debate se encaminha para a dúvida urgente nas coberturas na Lagoa: Doria ou Bolsonaro? De novo não participo, acabo de criar a conveniente teoria segundo a qual, se comer toda a baguette durante o debate depois ninguém vai lembrar que houve pão ali. Sou surpreendido por uma pergunta direta do coxinha master de barba hipster: o que você acha que pode resolver essa situação? A ditadura do proletariado, respondo candidamente.

A sessão de fotos é com uma atriz e modelo que está atuando na novela das oito. Não vejo a novela das oito. Nem a das sete. Nem a das seis. Tenho filho pequeno e em casa só dá canal infantil, que não é a mesma coisa que novela, mas é parecido. Mas faço o meu dever de casa, estudo a personagem e chego ao estúdio sabendo de tudo sobre a carreira da atriz e modelo. Ou melhor, quase tudo, não li sobre essa obsessão dela por esoterismo e astrologia. Erro grave, não dá pra confiar em site de fofocas para o dever de casa.

Após as primeiras fotos ela pergunta o meu signo. Digo que sou áries com ascendente na casa de detenção. Na hora me parece uma piada tão adequada quanto engraçada, mas ela não parece concordar. Faz então outra pergunta que entendo ser sobre esoterismo. Respondo que meus elementos são terra e água, motivo pelo qual vivo na lama. Outra anedota que considero ainda mais engraçada que a primeira. Faz-se um silêncio profundo no estúdio, que só é interrompido pelas minhas próprias gargalhadas.

A reunião familiar transcorre naquele esquema de apartheid entre homens e mulheres. Sou colocado no grupo dos homens por questões secundárias, não me interessa o que nenhum deles diz, tanto homens como mulheres, e todos ali já estão cansados de saber disso. O grupo em que estou conversa com muito, mas muito mesmo, entusiasmo sobre bicicletas e subidas à Vista Chinesa. Discutem com absoluta seriedade qual o melhor freio, o selim mais indicado e o o peso de quadro adequado à geografia carioca.

Quem escuta poderia achar que são jovens atletas profissionais se preparando para o Tour de France, mas quem vê percebe na hora que são médicos e advogados de meia idade. Para desmentir a profecia dos meus pais, tento me enturmar e finjo interesse no que dizem. Um advogado-atleta vira para mim e me pergunta qual o modelo que utilizo. Caloi Barra Forte, respondo. Bicicleta de aço é muito resistente, acrescento, um investimento que vale a pena.

No almoço de domingo me queixo com meus pais da profecia: “As pessoas ainda não notaram os meus superpoderes”. É só uma questão de tempo, respondem. Ele me recomenda usar uma capa vermelha em eventos sociais. Ela me aconselha a escrever um livro de autoajuda.

“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” acrescentam em uníssono.


Escrito por Leo Aversa

Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coréia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

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