Mães e filhos de Itaoca lutam por dignidade em território abandonado pelo Estado

Foto colorida de duas mulheres sentadas segurando uma linha azul, O rosto delas não é visível, mas uma está com uma barriga que indica uma possível gravidez. A foto foi tirada em roda de conversa promovida pelo Espaço Gaia, na Ilha de Itaoca
Foto colorida de duas mulheres sentadas segurando uma linha azul, O rosto delas não é visível, mas uma está com uma barriga que indica uma possível gravidez. A foto foi tirada em roda de conversa promovida pelo Espaço Gaia, na Ilha de Itaoca
Roda de conversa entre mulheres promovida pela Associação Espaço Gaia; iniciativa oferece alternativas de renda para a comunidade (Laura Torres / Associação Espaço Gaia)

Iniciativa liderada por mulheres transforma resíduo em renda, fortalece redes de apoio e constrói novas perspectivas para famílias do Salgueiro, em São Gonçalo

Por Núbia de Oliveira Iacomini | Inclusão e Diversidade, ODS 10

Publicado em 14/10/2026 - 09h31 (Atualizado há 15 minutos)

Tempo de leitura: 18 min

“Foi ali que eu passei mal do meu menino”, conta Maria José Gomes, de 65 anos, apontando para um ponto da vegetação que cresceu onde antes existia o Lixão de Itaoca, desativado em 2012. “Aí de manhã chegou o primeiro caminhão e me deixou na porta do hospital”. Dona Maria, como prefere ser chamada, vive na região desde os 11 anos, quando chegou ao Rio de Janeiro vinda do estado da Paraíba. Entrou em trabalho de parto 9 vezes ao longo de sua vida. Duas dessas vezes aconteceram enquanto ela exercia seu trabalho como catadora no lixão. Ela conta que muitas vezes os trabalhadores acendiam uma fogueira para iluminar a noite e trabalhavam até de manhã. 

De 1970 a 2012, a Ilha de Itaoca abrigou o lixão no qual centenas de catadores conseguiam o próprio sustento e que ocasionou o aumento do número de moradias no entorno. No primeiro capítulo do livro “Território Invisível”, a pesquisadora Jhulia Ferreira Medeiros explica a escolha do local como destino final de resíduos, a necessidade de desativação e a forma como muitos catadores ergueram a própria moradia nos arredores. 

As construções eram precárias, muitas vezes erguidas com materiais recolhidos das próprias pilhas de lixo, sem abastecimento de água ou saneamento básico. Mais de uma década após o fechamento oficial do lixão, essa ainda é a realidade de dezenas de famílias na região, sobretudo no bairro Fazenda dos Mineiros, na área que corresponde aos fundos do antigo vazadouro.

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Dados disponíveis no Observatório Fortalece São Gonçalo indicam que a rede pública de água alcançou 90% da população urbana gonçalense em 2022, representando uma ampliação de quase 11 pontos percentuais em relação ao ano de 2010, quando a rede abrangia 78,89%. 

Entretanto, esses números não refletem a realidade do Complexo do Salgueiro, onde 59,1% dos moradores não têm acesso à água potável, de acordo com o Observatório Popular de Justiça Socioambiental De Olho em Itaoca, iniciativa vinculada à Associação Espaço Gaia. 

Quando pensamos na realidade de quem mora no território do extinto lixão, esse número é ainda maior: 75% dos moradores não são alcançados pela rede pública. A alternativa é usar uma bica coletiva cuja água passa pelas áreas aterradas do antigo lixão, representando riscos diretos à saúde de quem depende exclusivamente desta fonte. Além disso, o abastecimento da bica é deficitário, visto que a falta de água é frequente.

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Foto colorida de casas de madeira nos fundos do lixão desativado, onde não há nenhum serviço de saneamento básico ou acesso à água
Casas de madeira nos fundos do lixão desativado, onde não há nenhum serviço de saneamento básico ou acesso à água (Foto: Núbia de Oliveira Iacomini)

Espaço Gaia

A escassez é reflexo do abandono dessa região por todas as instâncias de governo que afeta com maior gravidade a qualidade de vida de gestantes, crianças e idosos. Hoje, a família de dona Maria, que dependia exclusivamente da bica comunitária, conta com uma solução alternativa: o Espaço Gaia se tornou um ponto de distribuição de água tratada, pronta para consumo e gratuita.

A Associação Espaço Gaia, uma das doze organizações sociais com atuação no Complexo do Salgueiro, foi criada em 2022 e desde então é gerenciada por mulheres de regiões periféricas de São Gonçalo com o objetivo de promover ações de saúde coletiva, justiça social, educação popular e fortalecimento comunitário. 

Ali era o nosso pão de cada dia. Ali a gente catava o material reciclável, vendia e tirava nosso pão de cada dia. Era o pão, o feijão, o arroz. Roupa. Tudo com o dinheiro dali

Valéria Silva de Souza
Ex-catadora e voluntária do Espaço Gaia

Entre as principais iniciativas estão o Programa Ciclos (projeto inicial da Gaia, voltado para dignidade menstrual e saúde reprodutiva); o Projeto Aldear (que organiza rodas de conversa acerca de temas como cidadania e acesso a direitos); o Sementes da Gaia (focado em atividades de educação ambiental para crianças); e o EcoLab (laboratório de ideias e soluções ecológicas que abriga o ReCria Salgueiro).

Outra iniciativa importante é o Observatório Popular de Justiça Socioambiental De Olho em Itaoca, responsável pela produção de pesquisas e dados através do processo de GCD (Geração Cidadã de Dados). Laura Torres, Coordenadora Executiva e uma das fundadoras da Associação, conta que o Observatório é o que indica as demandas mais urgentes do território e o que pode ser feito para resolver o problema: “Com o Observatório, a gente viu a necessidade de possibilitar acesso à água pras pessoas. Antes a gente não conseguia isso sozinhas, porque é caro. Daí a gente conseguiu a Água Camelo, que viabilizou isso pra gente”. A Água Camelo é uma startup que tem como objetivo possibilitar o acesso a fontes de água segura onde for preciso.

Para Laura, a estruturação de um espaço físico para a sede, adquirido no ano de 2023, foi o que possibilitou a criação e execução de novos projetos. “Todas as atividades e programas que a gente tem hoje dentro da Gaia foram reivindicações das próprias mulheres que hoje a gente acolhe. Então se hoje existe o Projeto Aldear foi por conta da necessidade delas. Se existe o projeto de doulagem também foi por conta da necessidade delas. Só o ReCria que foi uma possibilidade externa que elas viram sentido e a gente está construindo juntos”.

Foto colorida do Pátio da sede da Associação Espaço Gaia, no bairro Fazenda dos Mineiros, um dos sete bairros que constituem o Complexo do Salgueiro. Na imagem, aparece um muro com as palavras reduzir, reciclar e reutilizar.
Pátio da sede da Associação Espaço Gaia, no bairro Fazenda dos Mineiros, um dos sete bairros que constituem o Complexo do Salgueiro (Foto: Núbia de Oliveira Iacomini)

ReCria Salgueiro

De acordo com o Relatório de Monitoramento do Observatório de Olho em Itaoca de 2023, cerca de 76% das famílias entrevistadas eram chefiadas por mulheres. Essas famílias são formadas majoritariamente por pessoas pretas e pardas e possuem uma renda familiar média de R$ 331,72, tendo o Bolsa Família como única fonte de renda entre mais de 40% dos entrevistados. 

Valéria Silva de Souza, 51 anos, é mãe de sete filhos e avó de onze netos. Ela conta que trabalhou por muito tempo no lixão e lamenta ter perdido essa oportunidade de emprego. “Ali era o nosso pão de cada dia. Ali a gente catava o material reciclável, vendia e tirava nosso pão de cada dia. Era o pão, o feijão, o arroz. Roupa. Tudo com o dinheiro dali”.

Valéria estudou até a quarta série do ensino fundamental por causa da necessidade de trabalhar para ajudar em casa. Hoje, ela mora com os três filhos mais novos e não possui emprego formal por conta da insegurança no local onde vive. “Não tenho coragem de deixar meus filhos sozinhos. E estando aqui [no Espaço Gaia] eu posso estar junto”.

Esse curso, pra gente aprender a fazer ecojoia, é muito importante para as mães do Salgueiro que estão em casa cuidando dos seus filhos e não tem um emprego

Flavielle Souza
Integrante do ReCria

Assim como outras mães acolhidas pelo projeto, Valéria contribui voluntariamente sempre que o espaço precisa de ajuda na organização e limpeza. Ela ainda não teve a oportunidade de participar das oficinas promovidas pelo ReCria, mas tem grande interesse em aprender a confeccionar as ecojoias.

O ReCria Salgueiro é uma iniciativa de inovação social que nasceu da parceria entre estudantes da Enactus UFRJ e a Associação Espaço Gaia. O projeto consiste em transformar resíduos plásticos que são geralmente descartados, como tampinhas de garrafas, em ecojoias e produtos comercializáveis, promovendo assim uma forma sustentável e autônoma de geração de renda para as mulheres da região. 

A iniciativa surgiu da comunidade universitária, que apresentou o modelo de projeto às mulheres ligadas à Gaia. A ideia foi adaptada ao território de forma conjunta e, mesmo já estando em fase de oferecer as oficinas, continua em constante desenvolvimento.

A universitária Giulia Novais conta que o ReCRIA é estruturado para que, ao longo do tempo, possa ser plenamente apropriado e gerido pela própria comunidade, garantindo a autonomia das famílias e a continuidade das ações no Salgueiro.

A primeira oficina prática das ecojoias  aberta ao público foi realizada no dia 31 de maio, mesmo dia em que foi inaugurado o EcoLab. O evento contou com 15 inscrições de mulheres interessadas em aprender o novo ofício e que, após a conclusão das aulas, poderão utilizar o espaço, o equipamento e o material disponíveis no laboratório para confeccionar os produtos. 

Todas as participantes receberam uma apostila descrevendo e explicando o processo de produção, um guia detalhado de como transformar resíduos plásticos em produtos comercializáveis com segurança. O modelo de negócios que orientará a comercialização dos produtos ainda está em fase de planejamento. 

Foto colorida de um close nas mãos de uma pessoa confeccionando uma ecojoia, com mesa amarela no fundo
Confecção de ecojoia durante oficina inaugural do ReCria Salgueiro; iniciativa nasceu de parceria com estudantes universitários (Foto: Núbia de Oliveira Iacomini)

Plásticos e segurança

Além dos equipamentos necessários para a confecção das joias, o EcoLab também disponibiliza os equipamentos de segurança individual necessários para que as mulheres possam trabalhar o material plástico sem riscos à própria saúde. “A gente tem que tomar muito cuidado mesmo porque alguns tipos de plástico liberam substâncias perigosas quando eles são aquecidos”, alerta Joyce Barreto, biotecnóloga especializada em plástico e coordenadora de projetos no Espaço Gaia.

 “No caso do polipropileno de alta densidade, que é esse que a gente usa da tampinha de garrafa plástica, o uso dele é seguro até uma determinada temperatura, que é exatamente a temperatura que a gente utiliza. Mas mesmo utilizando dentro de um nível seguro, a gente vai utilizar as máscaras e todo o equipamento de segurança, para que acidentes não aconteçam”, acrescenta Joyce.

Os tipos plásticos utilizados são o PEAD (Polietileno de Alta Densidade), sinalizado pelo número 2 e o PP (Polipropileno), sinalizado pelo número 5. A escolha destes tipos se deu por serem fáceis de encontrar no dia a dia, serem fáceis de usar (sendo possível derretê-los em forno comum), resultarem bons produtos finais e, principalmente, por serem mais seguros. 

Joyce conta que o processo de produção foi altamente adaptado para que pudesse ser realizado com os recursos e equipamentos possíveis de adquirir e disponibilizar no espaço, e fez questão de evidenciar o potencial do projeto como um todo. “O ReCria tem um valor muito grande, tanto comercial quanto pelo storytelling por trás. Se a gente contar essa história de que são tampinhas de garrafa que foram retiradas do meio ambiente por mulheres no Complexo do Salgueiro, feito por elas e trazer isso pra economia da moda mesmo, vai ter um valor agregado bem forte”.

A perspectiva das mães alunas

“Esse curso, pra gente aprender a fazer ecojoia, é muito importante para as mães do Salgueiro que estão em casa cuidando dos seus filhos e não tem um emprego. Porque não tem muitas coisas pra gente aprender aqui, então é uma coisa inovadora, que a gente pode tirar uma renda disso. E isso ajuda muito a melhorar nossa situação”.

Flavielle Souza, de 33 anos, é mãe de quatro filhos com idades entre 10 e 16 anos. Hoje, diante da oportunidade de retornar à escola por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), ela espera concluir os estudos e fazer cursos profissionalizantes. A chance de participar das oficinas do ReCria é vista como uma forma de complementar a renda familiar.

Para Izabel Christina, de 40 anos, as oficinas têm representado um grande aprendizado. Mãe de duas filhas, uma jovem de 21 anos e uma criança de 6, a dona de casa concluiu o ensino médio, trabalhou como certificadora no Detran e ainda cultiva o sonho de ingressar na faculdade de Recursos Humanos.

Ela, que costuma levar a filha caçula às atividades da instituição, aponta a falta de saneamento, a coleta irregular de lixo, a precarização do transporte e a constante exposição à violência armada como as maiores barreiras para criar as filhas no território. “A Gaia me ajudou a entender que nós mulheres de comunidades merecemos respeito e temos direitos à igualdade social como qualquer outra pessoa”, destaca.

A situação de vulnerabilidade e abandono do território afeta diretamente o desenvolvimento da juventude local. Flavielle relata a dificuldade de habitar um território que é alvo constante de operações policiais: “as crianças ficam à mercê de não ter operação para poder estudar”.

Foto colorida da EcoLab, sala na sede da associação equipada para a realização das oficinas do ReCria Salgueiro.
EcoLab, sala na sede da associação equipada para a realização das oficinas do ReCria Salgueiro; comunidade reivindica direitos básicos e fim da violência estatal (Foto: Núbia de Oliveira Iacomini)

Quando o Estado se faz presente

Quando questionada sobre a ausência do Estado no território, Laura Torres rebate que ele se faz presente sim, por meio da força policial. “O Estado esteve aqui durante quinze dias de forma ininterrupta. O Estado está aqui dentro, ele só não está entregando acesso à saúde, à educação, a saneamento, moradia… nada disso. Só violência“.

A entrevista foi realizada no dia 17 de julho deste ano, dia em que a Associação Espaço Gaia estava retomando as atividades na sede após duas semanas fechada por conta da impossibilidade de atuar durante as duas semanas de operação no território. O início das atividades do projeto Água Camelo foi adiado e a distribuição gratuita de água também precisou ser interrompida.

A operação também atrasou a realização desta reportagem, uma vez que não era possível ir até o território. Para a biotecnóloga Joyce Barreto, a justificativa da segurança pública não pode servir de pretexto para o isolamento dos moradores. “Infelizmente o poder público sempre dá a desculpa do tráfico, mas aqui existem pessoas. Eu acredito que um serviço de inteligência, utilizando aparelhos que já existem nas comunidades, seria importante para abrir esse diálogo”, defende. 

Joyce ressalta que a rede comunitária construída pelas organizações sociais poderia ser uma aliada na oferta de serviços essenciais. “Por exemplo, se uma fonte do governo da área da saúde chegasse e falasse ‘vocês poderiam ser um ponto nosso, um polo para vacinar as crianças?’, eu tenho certeza de que abriríamos esse espaço. As pessoas da comunidade vêem as instituições que estão aqui como aliadas, porque nós estamos presentes no dia a dia. Elas confiam no que trazemos como algo seguro”.

Enquanto isso, as famílias em Itaoca sobrevivem ao abandono estatal auxiliadas por uma rede de apoio construída pelas organizações sociais com atuação no território e sonham em construir um futuro menos hostil. “A mudança que eu queria que tivesse aqui é que tivesse menos violências. Porque a gente fica à mercê desse lugar aqui. E não tem muita oportunidade pra nossos filhos e para a gente”, relata Flavielle.

*Esta reportagem é resultado do trabalho final de Núbia de Oliveira Iacomini, desenvolvido como etapa de conclusão do curso #Colabora com Inclusão e Diversidade 2026, realizado com fomento da Associação Saúva.

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Núbia de Oliveira Iacomini

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Natural de São Gonçalo, na região metropolitana do RJ, possui forte ligação com o jornalismo comunitário e socioambiental. Durante a graduação, contribuiu com reportagens próprias para o jornal universitário O Casarão. Atualmente é voluntária no jornal comunitário Voz de Guadalupe.

Núbia de Oliveira Iacomini

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Natural de São Gonçalo, na região metropolitana do RJ, possui forte ligação com o jornalismo comunitário e socioambiental. Durante a graduação, contribuiu com reportagens próprias para o jornal universitário O Casarão. Atualmente é voluntária no jornal comunitário Voz de Guadalupe.

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