ODS 1
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Veja o que já enviamosEu adoraria viver num mundo que não me fizesse odiar ser mulher
Meu maior desejo neste 8 de março e na vida, além de que a gente possa se manter viva e inteira, é que a gente consiga descansar
Hoje, quando escrevo, é 8 de março e eu tinha uma coluna prontinha para publicar. Mas estou aqui reescrevendo tudo porque eu estou exausta. Estou com raiva. E estou escrevendo porque não aguento mais não aguentar mais.
Eu adoraria viver num mundo em que fosse possível a gente se dar o luxo de não odiar ser mulher.
E eu digo isso sabendo muito bem dos meus privilégios. Eu sou uma mulher branca, não tenho filhos, não sou uma mulher pobre, tudo que pode ser automatizado dentro de uma casa é na minha. E mesmo assim eu estou exaurida. E com a sensação permanente de que as coisas que eu preciso fazer nunca acabam.
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Veja o que já enviamosLeu essa? Homens, a culpa é de vocês
Porque nunca acabam mesmo. E existe uma expectativa social de que eu, sendo mulher, dê conta de todas elas. De preferência sorrindo e sendo gentil e bonita.
Eu não conheço uma mulher que não esteja, em maior ou menor proporção, carregando o mundo nas costas.
É desse lugar que esse texto sai. Depois de literalmente chorar de cansaço. E não porque aconteceu uma grande tragédia pessoal, um evento extraordinário, uma ruptura. Mas porque o dia a dia, as responsabilidades, as coisas que a gente precisa fazer, a pressão de dar conta, de lembrar, de organizar, de antecipar, de funcionar, vão sufocando a gente. Vão apertando devagarinho, mas sem parar. E de repente a vida vira isso: uma sucessão de tarefas, de demandas, de pequenas urgências, de culpas, de pendências, de cansaços acumulados.
E o que me pega é que não é só o fazer. É o que o fazer vai roubando.


Porque a gente vai ficando tão cansada, tão sobrecarregada, tão drenada, que vai perdendo também o prazer nas coisas. Mesmo quando consegue uma folga. Mesmo quando consegue sair, se divertir, descansar, fazer alguma coisa boa. Tem sempre uma vozinha no fundo dizendo: você devia estar fazendo isso, você devia estar fazendo aquilo. Você devia estar resolvendo outra coisa. Você devia estar sendo mais útil. Mais organizada. Mais produtiva. Mais responsável.
É óbvio que existem camadas de individualidade nisso. Terapia em dia, história pessoal, ansiedade, traço de personalidade, tudo isso atravessa. Mas eu não estou falando só disso. Estou falando de algo que é sistemático. Estou falando de um mundo que funciona como uma máquina de moer mulher mesmo. E que afeta mulheres em maior ou menor proporção, de acordo com a vida que elas têm, com os marcadores que carregam, com as violências que as atravessam, com a classe, a raça, a maternidade, a deficiência, a orientação sexual, o território, tudo isso. Mas afeta.
Porque existe uma exaustão que não é só individual. Ela é produzida.
É produzida quando o cuidado continua recaindo desproporcionalmente sobre nós. Quando a organização da vida é tratada como se brotasse naturalmente da cabeça das mulheres. Quando a casa, o trabalho, a aparência, os afetos, os vínculos, o bem-estar dos outros, tudo vai sendo empilhado no nosso colo como se fosse normal. Como se fosse da nossa natureza. Como se a gente tivesse nascido com uma espécie de dispositivo interno para dar conta.
E aí chega o 8 de março e vem a enxurrada de homenagem, mensagem sobre força, sobre potência, sobre guerreira, sobre a beleza de ser mulher. E eu fico pensando: como é que a gente enxerga a própria potência estando morta de cansaço? Como é que a gente consegue se reconhecer forte quando está só tentando não desabar? Como é que a gente consegue olhar para a força de umas com as outras quando quase toda a nossa energia está indo para sobreviver, para manter a funcionalidade mínima, para não deixar tudo cair?
Tem um tipo de elogio à força das mulheres que, para mim, já não soa mais como elogio. Soa como acomodação. Soa como um jeito bonito de aceitar o nosso esgotamento. Como se dizer que somos fortes resolvesse o fato de que estamos exaustas. Como se chamar uma mulher de guerreira não fosse, muitas vezes, só outra forma de naturalizar o tanto que ela está sendo obrigada a suportar.
Eu não quero fazer ode à nossa capacidade infinita de aguentar.
Eu quero gritar sobre o contrário.
Sobre meu desejo de que a gente possa descansar.
Mas descansar mesmo. Não só sobreviver. Não só se manter funcional. Não só continuar em pé. Não só dar conta do básico para no dia seguinte repetir tudo de novo. Descansar sem culpa. Sem transformar o descanso em mais um item de uma lista. Sem sentir que o mundo vai desmoronar porque a gente parou.
Porque, no fim, é disso que eu sinto falta: da possibilidade de existir sem estar o tempo todo em estado de administração da própria exaustão.
E tem outra coisa que me enfurece profundamente quando penso nisso tudo: nem esse cansaço nos protege. Nem a tentativa de fazer tudo, de dar conta, de se antecipar, de ser cuidadosa, de ser responsável, de ser gentil, de ser correta, de ser prudente, de ser “boa” nos protege. As mulheres seguem sendo assediadas, violentadas, estupradas, silenciadas, descredibilizadas, desvalorizadas. Seguem vivendo com medo. Seguem calculando rota, roupa, horário, tom de voz, quantidade de firmeza, quantidade de delicadeza. Seguem tentando existir inteiras num mundo que as fragmenta o tempo todo.
Então, meu maior desejo neste 8 de março e na vida, além de que a gente possa se manter viva e inteira, sem o medo constante de ser violada, é que a gente consiga descansar.
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