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Plástico zero em restaurante do Rio

Vidros, louças, talheres de aço e até marmitas de metal fazem o charme do Olivia

Quem quiser levar a comida para o escritório tem como única alternativa a compra de marmitas feitas de metal e vendidas por R$ 20 no restaurante. Foto de Jorge Otávio
Quem quiser levar a comida para o escritório tem como única alternativa a compra de marmitas feitas de metal e vendidas por R$ 20 no restaurante. Foto de Jorge Otávio

A imagem de um pote de iogurte vazio se tornou viral nas redes sociais de todo o mundo no final do ano passado. Encontrada numa praia do Canadá, a embalagem praticamente intacta trazia o selo das Olimpíadas de Montreal, realizadas em 1976, revelando através da sua idade a capacidade de destruição da natureza produzida pelo lixo plástico.  Esse pote de iogurte é apenas uma gota no oceano de detritos que inunda o meio ambiente. Por ano, estima-se que os mares recebam cerca de 8 milhões de toneladas de plástico. Sem contar o que é despejado de maneira inadequada no solo. Um pequeno restaurante no sobrado número 33 da Rua dos Inválidos, no Centro do Rio de Janeiro, está fazendo a sua parte para combater essa realidade. Inaugurado no final de 2016, o Olivia tem como regra principal o lema “Plástico Zero”.

Nosso objetivo aqui é também educar. Muitas pessoas acabam usando muito plástico ou descartando de maneira inadequada os resíduos porque nunca aprenderam a fazer de outra forma

Eva Schvartz
Sócia do Olívia

Nada de canudos, garrafas PET, pratos, copos ou talheres descartáveis. Todas as embalagens oferecidas ali aos clientes são reutilizadas. Sucos frescos, sobremesas e iogurtes, por exemplo, são vendidos em potes de vidro que, depois de usados, são higienizados e novamente expostos nos balcões. Já as saladas são servidas em grandes bowls de louça e os talheres são de aço, envolvidos por envelopes de papel. Quem quiser levar a comida para ser consumida no escritório tem como única alternativa a compra de marmitas feitas de metal e vendidas por R$ 20 no próprio restaurante. Elas podem ser reutilizadas pelo cliente quantas vezes for necessário. No Olivia, a água consumida não sai de garrafas PET e sim de máquinas que filtram o líquido e oferecem as opções natural e gasosa.

A ideia de criar o Olivia vem sendo acalentada há muitos anos. Eva Schvartz, uma das sócias, sempre teve vontade de montar um restaurante de saladas frescas e orgânicas. Formada em engenharia elétrica, no entanto, ela parecia fadada e deixar de lado esse desejo. Mas Eva conseguiu encontrar uma forma de unir números a panelas. Trabalhando em uma grande empresa de combustíveis, em 2008, ela se mudou para Houston, nos Estados Unidos, onde concluiu, 4 anos depois, um MBA na área de finanças. Seu trabalho final de curso foi um projeto de delivery de saladas. Começava aí a surgir o Olivia.

A engenheira Eva Schvartz, uma das sócias, conseguiu viabilizar o restaurante após um MBA em finanças nos EUA. Foto de Jorge Otávio
A engenheira Eva Schvartz, uma das sócias, conseguiu viabilizar o restaurante após um MBA em finanças nos EUA. Foto de Jorge Otávio

De volta ao Brasil, encontrou em um amigo de infância que já trabalhava com gastronomia, o parceiro para a empreitada. Foi dessa união que surgiu a ideia de fincar as bases do novo restaurante em dois pilares: comida gostosa e saudável + sustentabilidade. Durante mais de um ano eles conversaram, pesquisaram, participaram de workshops e consultaram especialistas para encontrar o formato ideal das embalagens. Pensaram em diferentes alternativas como o uso de produtos biodegradáveis ou a adesão a um programa de reciclagem. Até que chegaram ao modelo atual.

– Chegamos a conclusão que a melhor maneira de ser sustentável não é reciclar. É simplesmente não gerar lixo. – afirma Eva.

O cuidado com o meio ambiente permeia todo o projeto do Olivia. Os ingredientes são orgânicos e os poucos resíduos são reciclados. A reforma do sobrado na Rua dos Inválidos também teve esse mesmo cuidado. A obra levou mais de um ano para ser concluída e foi coerente com o conceito do restaurante, utilizando, por exemplo, madeira de demolição na confecção das mesas e cadeiras e aplicando uma tinta especial no telhado. Feita com micropartículas de vidro, ela reflete a luz solar e reduz o calor no interior do edifício, influenciando o consumo de energia elétrica necessária para refrescar o ambiente. O objetivo dos sócios do Olivia, agora, é expandir esse conceito para além do sobrado número 33 e gerar uma rede de sustentabilidade. Conquistando outros restaurantes da região, eles querem incentivar e viabilizar o processo de compostagem dos detritos orgânicos. Essa mobilização já está acontecendo entre os próprios funcionários do Olivia. Pessoas como a operadora de caixa Carina Vasconcellos que passou a prestar mais atenção no descarte de detritos em sua casa e também começou a evitar embalagens plásticas no seu dia a dia

– Nosso objetivo aqui é também educar. Muitas pessoas acabam usando muito plástico ou descartando de maneira inadequada os resíduos porque nunca aprenderam a fazer de outra forma. Mas quando apresentamos alternativas, elas adoram e aderem na mesma hora. – afirma Eva.

Um projeto que, apesar do pouco tempo de existência do restaurante, já está conquistando também adeptos entre clientes como a administradora de empresas Camila Sumie e a advogada Andressa Senra. Pelo menos uma vez por semana, elas almoçam no Olivia. Além de adorarem as saladas que podem ser montadas por elas mesmas e apreciarem sobremesas como o pudim de tapioca com coco e manga, elas também se identificam com as práticas de sustentabilidade do restaurante.

– Me sinto muito incomodada quando acabo de comer e vejo a quantidade absurda de lixo plástico que um simples almoço em um restaurante pode gerar. Aqui tenho tranquilidade porque encontro coerência na proteção ao meio ambiente em cada detalhe – garante Andressa.

Mas nem sempre é assim. Alguns clientes não concordam com a iniciativa e se sentem incomodados quando são privados de pequenos confortos com os quais estão acostumados em outros estabelecimentos. Funcionários do restaurante já se depararam com fregueses que se irritaram diante da inexistência de simples canudos ou ameaçaram nunca mais voltar porque não puderam contar com água engarrafada em embalagens PET.

– Ficamos tristes, mas tranquilos quando encontramos situações assim. Não nos sentimos mal porque temos certeza que estamos no caminho certo – conta Eva.

Prova de que esse é um tema que precisa ser cada vez mais discutido. A durabilidade do plástico é um dos maiores problemas do seu descarte. Um produto feito com o material pode levar centenas de anos para se decompor e contaminar água e solo durante o processo. Um estudo apresentado ano passado durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, revelou que, no futuro, os oceanos terão mais plástico do que peixes, em peso. Em 2014, a proporção de toneladas de plástico por toneladas de peixes era de uma para cinco. Se não houver uma mudança radical na forma como se usa o material e como ele é descartado, essa relação será maior que uma para uma em 2050. Alertas não faltam. Recentemente uma “ilha” de lixo formada principalmente de plástico, com 680 mil quilômetros quadrados, foi descoberta no Oceano Pacifico, tamanho equivalente aos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Além de protegerem o meio ambiente, iniciativas como a do Olivia também geram benefícios econômicos. O sistema atual de produção, utilização e descarte de plásticos provoca em todo o mundo a perda de aproximadamente 100 bilhões de dólares em embalagens, anualmente. O Acordo Setorial para Implantação do Sistema de Logística Reversa de Embalagens em Geral, assinado em 2015 entre o Ministério do Meio Ambiente e 20 entidades representativas do setor empresarial, tem o objetivo de garantir a destinação final ambientalmente adequada de embalagens não só de plástico, mas também de materiais como papel, alumínio, aço e vidro, entre outros. A primeira fase de implementação do sistema de logística reversa tem duração de 24 meses. Isso significa que, até o final de 2017, o sistema deverá garantir a destinação final ambientalmente adequada de, pelo menos, 3.815 toneladas de embalagens por dia. Muito pouco diante da quantidade de detritos jogados na natureza todos os anos.

Diante dessa matemática, em breve potes de iogurte com mais de 40 anos encontrados nas praias do mundo, de tão banais, deixarão de ser virais nas redes sociais. A esperança é que iniciativas como a do Olivia se tornem fontes de inspiração e reverberem. Sua proprietária já estende para sua casa e o seu trabalho os mesmos conceitos aplicados no restaurante. Nada de canudos ou garrafas PET ao lado dos filhos de 2 e 4 anos. Na empresa onde atua como engenheira, ela própria comprou xícaras de louça para que os colegas bebam o cafezinho diário. E até mesmo na forma de se vestir Eva já mostra que pensar em sustentabilidade se tornou uma questão primordial na sua vida. No dia em que deu a entrevista para o #Colabora, ela usava um colar feito de cápsulas de café expresso.

Escrito por Daniela Matta

Daniela Matta

Jornalista formada pela PUC-RJ, trabalhou nas redações do Jornal do Brasil e do O Globo. Mudou-se para a Hamburgo, na Alemanha, e em seguida para São Paulo. De volta ao Rio de Janeiro, passou por diversas assessorias de imprensa e trabalhou como freelancer produzindo conteúdo para diferentes veículos.

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