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Ciscando nos quintais franceses

De volta às cidades, galinhas assumem lugar de destaque na redução do lixo domiciliar

Só na França existem mais 40 raças de catalogadas. E o preço médio de cada galinha gira em torno de €25
Só na França existem mais de 40 raças catalogadas. E o preço médio de cada galinha gira em torno de €25

Sem saber o que dar de presente para aquele amigo ligado em ecologia, sustentabilidade e preocupado com a questão do lixo? Na França, a última moda é ter uma galinha. Com um apetite voraz, ela é capaz de comer até 200 quilos de restos alimentares por ano e passou a ser a “queridinha” da vez. Tanto que ter uma galinha em casa foi é um dos 7 gestos ecológicos listados durante a COP 21 pela ONG Zero Waste. Até a Ségolène Royal, Ministra da Ecologia, do Desenvolvimento Sustentável e da Energia ganhou duas galinhas, da raça Marans, que ciscam na maior desenvoltura nos jardins do Ministério, em Paris.

A vantagem para a cidade e para a população é imediata, pois o imposto sobre o lixo gerado é calculado pelo volume. Com menos lixo, os contribuintes pagam menos e isso é um enorme incentivo

Gilbert Meyer
Prefeito da cidade de Colmar

Ter galinhas no quintal e alimentá-las com restos de comida não é uma novidade. A novidade é que depois de ciscarem no campo, as galinhas voltam às cidades com um papel valorizado. A gestão do lixo urbano é um dos itens mais importantes e complexos da agenda pública. Tanto que cada vez mais cidadãos assumem a responsabilidade pela redução do seu próprio lixo. Em média, um terço do lixo domiciliar provém de restos alimentares. Isso equivale a 150 quilos jogados fora por ano, por habitante na França.

Cerca de 50% dos franceses moram em casa com quintal. Se cada um deles tivesse uma galinha – na verdade duas pois elas não são solitárias – seriam milhões de toneladas de lixo que não precisariam ser coletados.

Disputa por uma ave

A galinha passou a fazer parte das soluções postas em prática por várias prefeituras na França para reduzir o lixo alimentar e consequentemente reduzir a fatura – Châtillon, Versailles, Toulouse, Amiens, Besançon, Colombes, Aubagne, Colmar….a lista é enorme. Gilbert Meyer, prefeito da cidade de Colmar, conta que a cidade reduziu 80 toneladas de lixo alimentar em 2015. “A vantagem para a cidade e para a população é imediata, pois o imposto sobre o lixo gerado é calculado pelo volume”. Gilbert Meyer explica também que o lixo custa caro para as prefeituras: “nossos custos praticamente dobraram entre 2000 e 2012 com os equipamentos de coleta, transporte, estocagem, tratamento e incineração”. Com menos lixo gerado, os contribuintes pagam menos e isso é o que incentiva a população. Incentiva tanto que a cidade já distribuiu 430 galinhas e dezenas de famílias estão numa lista de espera.  Até agora foram 430 galinhas distribuídas em Colmar, 1500 em Lot-et-Garonne, 700 em Mouscron, 570 em Grand Villeneuvois… e em Paris?

A REcyclerie foi pioneira na criação de uma fazenda urbana. São 19 galinhas, 1 galo e 2 patos comendo os restos alimentares gerados pelo restaurante
A REcyclerie foi pioneira na criação de uma fazenda urbana. São 19 galinhas, 1 galo e 2 patos comendo os restos alimentares gerados pelo restaurante

Poleiros urbanos e coletivos

Uma experiência de fazenda urbana vem atraindo a atenção e a adesão de parisienses e visitantes que passam pela cidade. Instalada no norte de Paris, numa antiga estação de trem desativada, o novo espaço abriga restaurante, loja, horta e… poleiro! Numa proposta ecologicamente correta, La REcyclerie foi pioneira na criação de uma fazenda urbana. Lá, 19 galinhas, 1 galo e 2 patos deglutem os restos alimentares gerados pelo restaurante – são entre 150 a 200 clientes por dia que ao fim de suas refeições são convidados a limpar seus pratos. O resultado? Praticamente “zero resíduo alimentar” e 4.000 ovos por ano que são distribuídos entre os moradores locais e voluntários que cuidam da horta, organizam as visitas semanais e promovem ateliers para as crianças. Baseada sobre o princípio dos 3 Rs – reduzir, reutilizar e reciclar, a iniciativa vem despertando interesse de prefeituras e até de outros países interessados em copiar o modelo.

Existem várias raças de galinhas. Só na França são mais de 40 catalogadas – custando €25 em média. É uma compra de “atitude” que atrai mais as mulheres. “Nossas clientes são mulheres bem informadas, preocupadas com o meio ambiente e autônomas. Autônomas até para gerenciar o lixo que geram”, explica o responsável pelo setor de aves da rede Truffaut, que desde 2010 registra 100% de crescimento nas vendas das aves. Nessa nova tendência, arquitetos e designers trabalham para integrar os ambientes da sala de jantar e do poleiro, criando um espaço em harmonia e de atitude.  Nessa volta às soluções simples, talvez o porco seja o próximo queridinho da vez.

Escrito por Marlene Oliveira

Marlene Oliveira

Jornalista, com Master pelo IAG /PUC e Coppead/UFRJ, é profissional de comunicação corporativa, trabalhando para empresas globais. Vive e trabalha em Paris há nove anos.

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