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A luta inglória pela paz

Em tempos de armas químicas, exposição em Londres mostra a batalha contra a militarização do planeta


Montagem produzida pelos artistas Peter Kennard e Cat Picton mostra Tony Blair tirando selfie no conflito do Iraque: o primeiro-ministro ignorou os protestos contra a guerra. Foto Kennardphillipps
Montagem produzida pelos artistas Peter Kennard e Cat Picton mostra Tony Blair tirando selfie no conflito do Iraque: o primeiro-ministro ignorou os protestos contra a guerra. Foto: Kennardphillipps

Parcialmente subsidiado pelo governo britânico, o Imperial War Museum, em Londres, recebe os visitantes como seria de se esperar num lugar dedicado a guerras: com canhões, tanques e caças que já protegeram o Reino Unido em diferentes momentos. O museu está sempre cheio de turistas e estudantes interessados principalmente na história dos dois confrontos mundiais, que afetaram direta e dolorosamente os britânicos. Mas uma exposição montada para celebrar os cem anos da instituição vai na contramão dos aparatos bélicos. “O poder do povo: lutando pela paz” é a primeira mostra já realizada no país para lembrar a trajetória dos movimentos pacifistas, da Primeira Guerra Mundial aos conflitos de hoje.

O problema não é a corrida armamentista. Nós é que somos o problema. Precisamos parar para pensar no que está errado conosco

Vanessa Redgrave
Atriz e pacifista

Enquanto o mundo presencia a monstruosidade de mais um massacre na Síria, desta vez com crianças envenenadas por armas químicas, rever a história de pessoas e organizações que lutaram contra a militarização do planeta é emblemático. Mas o que eles conseguiram? É possível parar a guerra? Como o líder sírio Bashar al-Assad deixou claro esta semana, protestos não impedem que exércitos pulverizem, do jeito que bem entenderem, territórios inimigos, enquanto o Afeganistão tampouco pode acreditar que o conflito iniciado há 16 anos esteja perto do fim. A discussão promovida pelo museu londrino evita a utopia e mesmo o romantismo, concluindo que para os que levantam a bandeira do pacifismo o mais importante não é medir resultados concretos, e sim o simples ato de protestar, de ter o direito de levantar a voz, de convocar mobilizações e fazer barulho em nome da paz. Isso nem sempre acontece sem divisões e questionamentos entre os próprios ativistas. É uma história emocionante sobre a qual pouco se sabe e que começa muito antes de o símbolo do flower power se espalhar pelo planeta na carona dos hippies, até hoje uma imagem que associamos à ideologia da não-violência.

Protesto em Londres contra o serviço militar obrigatório, em 1939. Foto Imperial War Museum
Protesto em Londres contra o serviço militar obrigatório, em 1939.
Foto: Imperial War Museum

Entre os britânicos, foco principal da exposição, o pacifismo de forma organizada nasceu em 1916, quando o alistamento militar se tornou obrigatório, em plena Primeira Guerra. Mergulhada numa onda de patriotismo, a Europa via os que se recusavam a combater como criminosos. Uma minoria se recusou a ir para o front ou a ajudar nos esforços de guerra por motivos religiosos ou morais e, pela primeira vez, foi classificada como “objetores da consciência”, definição que podia levar um cidadão à cadeia. Seis mil homens foram presos e chamados de covardes pela imprensa da época, totalmente favorável ao confronto. Um círculo restrito de artistas aderiu, usando pinturas, prosa e poesia para retratar a destruição que pouca gente estava disposta a enxergar em meio ao fervor patriótico. O soldado e poeta Siegfried Sassoon foi enviado a um hospital psiquiátrico depois de publicar poemas questionando o sentido da batalha. Aos olhos da época, ele só podia estar louco.

A exposição reúne algumas dessas obras, assim como imagens históricas de ativistas que apoiaram o então incipiente pacifismo, entre elas algumas das líderes sufragistas, as mulheres que no início do século passado exigiram o direito de voto feminino. Mas também foram poucas. O movimento se juntou aos esforços de guerra.

Com a destruição sem precedentes deixada pelo conflito, a resistência a confrontos militares naturalmente cresceu, embora pouco tempo depois a Europa já estivesse atolada em outra era de devastação, deflagrada por Hitler. O dilema dos que foram contra a Segunda Guerra, mesmo sabendo que a máquina militar da Alemanha precisava ser destruída, é um dos pontos mais interessantes da mostra. O que era pior? A guerra ou o nazismo?

O confronto anterior abrira um precedente e os objetores da consciência já não enfrentavam necessariamente a prisão, podendo optar por trabalhos voluntários. Os curadores reuniram depoimentos de pessoas que rejeitaram o serviço militar por ser contra os seus princípios (ao todo foram 60 mil homens no Reino Unido). “Não havia dúvidas sobre a bestialidade de Hitler. Era muito difícil para mim pensar nas coisas assombrosas que ele estava fazendo, na perseguição aos judeus”, conta o inglês Sydney Carter, que rejeitou o alistamento militar. “A teoria à qual me apeguei foi a de que o pacifismo era uma questão de vocação, onde quer que você estivesse. Para alguns, o certo era ser pacifista e, para outros, não. Nunca estive completamente seguro da minha vocação”, admitiu ele, que mesmo assim ficou contra a guerra.

As líderes das sufragistas, que lutaram pelo voto feminino. Algumas se juntaram ao movimento pacifista na Primeira Guerra Mundial. Acervo Imperial War Museum
As líderes das sufragistas, que lutaram pelo voto feminino. Algumas se juntaram ao movimento pacifista na Primeira Guerra Mundial. Acervo Imperial War Museum

E então o mundo chegou à Guerra Fria, quando a ameaça nuclear passou a ser o foco principal dos movimentos pela paz, fortalecidos pelo sofrimento causado pelas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki que encerraram a Segunda Guerra no Pacífico. A campanha pelo desarmamento nuclear se espalhou e, nos anos 60, se juntou aos protestos contra a guerra do Vietnam, outro momento crucial das manifestações populares pela paz. Cartazes e buttons criados por artistas pop invadiram Londres em diferentes marchas que pediam “empregos e não bombas”. Foi então que nasceu um dos símbolos mais definitivos do pacifismo: o “V” invertido dentro de um círculo cortado ao meio, desenho criado pelo designer britânico Gerald Holtom. A Guerra Fria acabou com a desintegração da União Soviética, mas as superpotências continuaram desenvolvendo suas armas.

Na década de 90, a própria Europa ignorou as lições da Segunda Guerra e viu os Bálcãs explodirem, com a retomada do fantasma da limpeza étnica e de campos de concentração na ex-Iugoslávia. Os pacifistas não desistiram e no início do século ganharam força em sua campanha contra a guerra no Iraque (2003-2011), encabeçada pela aliança entre os EUA e o Reino Unido. Tony Blair, o então primeiro-ministro britânico, repetiu o discurso do presidente americano George Bush de que Saddam Hussein era uma ameaça para a segurança mundial e enviou tropas a Bagdá, decisão hoje considerada desastrosa. Dois milhões de pessoas saíram às ruas de Londres em fevereiro de 2003 para dizer não à invasão, mas Blair não ouviu. Foi o maior protesto da história da capital.

Fotos, documentos, slogans, canções e vídeos compõem essa parte contemporânea da exposição, que termina com depoimentos de pacifistas notórios fazendo uma reflexão corajosa sobre a validade de seu idealismo num mundo cada vez mais distante da paz. Basta pensar na Síria. “O problema não é a corrida armamentista. Nós é que somos o problema”, admite a atriz Vanessa Redgrave, tão conhecida por seu talento quanto por seu ativismo. “Precisamos parar para pensar no que está errado conosco”, resume ela.

Protesto antinuclear em Londres, em 2016. Acervo Imperial War Museum
Protesto antinuclear em Londres, em 2016. Acervo Imperial War Museum

Escrito por Claudia Sarmento

Claudia Sarmento

Trabalhou por mais de 20 anos no jornal O Globo, mas não gostava de ficar muito tempo no mesmo lugar. Foi editora de Mundo e da Revista da TV, gerente de produtos, e, mais recentemente, correspondente no Japão. Há um ano trocou Tóquio por Londres, onde acaba de completar um mestrado em Cultura Digital pelo King's College.

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