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O preço de ser sustentável: US$ 3 tri

Em 2016, crise reduziu em 19% o investimento social privado no Brasil


Desempregados olham ofertas de emprego em Sao Paulo. Foto de Nelson Almeida/ AFP
Com uma população desempregada de 13 milhões de brasileiros será difícil cumprir a meta de redução da desigualdade prevista nos ODSs. Trabalhadores observam ofertas de emprego em São Paulo. Foto de Nelson Almeida/ AFP

Depois do Quênia, Gana, Zâmbia, Indonésia, Colômbia, Estados Unidos e Índia, o Brasil é o oitavo país do mundo a lançar sua Plataforma de Filantropia, um estudo alentado sobre o investimento privado social brasileiro e sua interface com a agenda do desenvolvimento. A iniciativa é uma parceria do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) com a Rockefeller  Philanthropy Advisors e outras fundações nacionais e institutos. Projeções das Nações Unidas (ONU) apontam, para os próximos 13 anos, a necessidade de se investir anualmente US$ 3 trilhões para que os países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, consigam cumprir Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODSs), a nova agenda global que entrou em vigor em 2015 e vai até 2030. É uma montanha de dinheiro, mas que incluí obras essenciais como saneamento básico, educação, saúde… Mas não é o único desafio. O maior dos problemas é construir as parcerias necessárias para cumprir os 17 objetivos e as 169 metas globais nos próximos 13 anos, avalia Luciana Aguiar, a gerente de parcerias do setor privado do Pnud.

Nenhum país é capaz de cumprir sozinho as metas dos ODSs. É por isso que as parcerias com os diferentes setores, inclusive o setor privado, são fundamentais

Luciana Aguiar

“Nenhum país é capaz de cumprir sozinho as metas dos ODSs. É por isso que as parcerias com os diferentes setores, inclusive o setor privado, são fundamentais”, analisa Luciana, que está convencida de que a inovação é uma das chaves do sucesso dessa empreitada. O setor privado, diz ela, está “bastante mobilizado”, o governo lançou, em meados do ano, a Comissão Nacional para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e a sociedade civil também está engajada, mas o segredo do sucesso e o cumprimento das metas é “colocar todo o recurso financeiro disponível no mesmo cesto”.

A crise econômica, social e política do país fez com que o investimento social privado, feito por fundações e institutos de empresas familiares ou pessoas físicas, tenha registrado no Censo Gife/ 2016 uma queda de 19% em relação a 2014: R$ 2,9 bilhões contra R$ 3,6 bilhões. “Apesar da retração dos investimentos, o potencial de crescimento da filantropia no Brasil existe. A queda foi fruto da recessão, logo foi pontual”, avalia Maristela Baioni, representante do Pnud no Brasil, explicando que esses recursos são feitos sem retorno financeiro para o investidor. Ou seja, a fundo perdido. A área de educação é o principal foco dos investimentos filantrópicos no país: 69% dos recursos investidos. Já as áreas de saneamento, energias renováveis e vida na água, que são temas extremamente importantes, estão sendo negligenciados pelos investidores.

Desemprego e desigualdade

Num país de 13 milhões de desempregados, Luciana admite que cumprir a meta de redução da desigualdade não é tarefa fácil. Chama atenção, no entanto, que os desafios não são apenas os econômicos: “A desigualdade é também de gênero, sem falar no enfrentamento do racismo no país, dado que viemos de uma sociedade de origem escravocrata”. Ela chama atenção, por exemplo, para o fato de que a expectativa média de vida do brasileiro é de 75 anos, enquanto entre a população LGBT+ é de 35 anos.

A tal parceria defendida por Luciana já vem ocorrendo em outros países. No Quênia, por exemplo, depois de 18 meses de discussão, foi construída uma agenda comum, envolvendo governo, setor privado e sociedade civil, para universalizar o acesso à saúde até 2020, ou seja, dez anos antes do prazo limite para o cumprimento das metas dos ODSs. Em Gana, foi criado um departamento para tratar dos temas de filantropia.

O Brasil produz desigualdade com muita eficiência

Átila Roque
diretor da Fundação Ford no Brasil

Para Átila Roque, diretor da Fundação Ford no Brasil, discutir a filantropia no Brasil só vale a pena se for para cutucar privilégios, que, no caso brasileiro, incluí discutir as questões racial e o machismo. É que o Brasil, diz ele, “produz desigualdade com muita eficiência”, fazendo com que algumas “vidas tenham mais valor do que outras”.


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