Projeto brasileiro é destaque em competição da Airbus

Desenvolvido por alunos de universidade no interior do Rio Grande do Norte, sistema permite que passageiro embarque sem apresentar documentos físicos

Por Vanessa Fajardo | ODS 4ODS 9 • Publicada em 20 de junho de 2019 - 08:00 • Atualizada em 21 de junho de 2019 - 14:16

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Da esquerda para a direita, os representantes da Ufersa: Volney de Brito Simões, Lêdson Led Freitas da Silva, Idalmir de Souza Queiroz Junior (professor), David Emerson da Silva Oliveira e Gleidson Leite da Silva. Foto Eduardo Mendonça/ Ufersa
Da esquerda para a direita, os representantes da Ufersa: Volney de Brito Simões, Lêdson Led Freitas da Silva, Idalmir de Souza Queiroz Junior (professor), David Emerson da Silva Oliveira e Gleidson Leite da Silva. Foto Eduardo Mendonça/ Ufersa

Um projeto de monitoramento de segurança de passageiros nos aeroportos levou a equipe formada por estudantes do curso de engenharia da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) à segunda fase da competição internacional Fly Your Ideas 2019, criada pela Airbus, empresa francesa referência em aviação.  Na primeira etapa, 270 equipes de todo mundo competiram. Elas representavam 941 estudantes de 284 universidades de 72 países. A equipe Flyby, dos alunos da Ufersa, sediada no interior do Rio Grande do Norte, era a única representante brasileira.

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Os universitários desenvolveram o conceito de um sistema de monitoramento que permite a identificação do passageiro por biometria, reconhecimento do código facial ou código de reserva através de totens que seriam instalados nos aeroportos. O embarque seria possível sem a apresentação de nenhum documento de identificação ou bilhete de viagem.

Durante o projeto percebemos que a ideia era muito boa, e que com o desenvolvimento certo daria para competir com as principais universidades do mundo e as universidades especializadas em aviação. Mesmo não chegando até a final ficamos com a sensação de missão cumprida

Volney de Brito Tôrres
Aluno de engenharia mecânica

Uma das peças principais do sistema, desenvolvido apenas na fase conceitual não chegando até o protótipo, são pulseiras de identificação que teriam de ser usadas pelos passageiros depois do check-in. Elas emitem um sinal de radiofrequência chamado RFID (a sigla vem do inglês Radio Frequency Identification) que, por sua vez, recebe o sinal de uma antena, a ser instalada no saguão do aeroporto, “alimentando” a pulseira que devolveria as informações sobre os passageiros via computador.

Dessa forma, seria possível rastrear qualquer pessoa que estivesse com a pulseira por todo o aeroporto, algo que hoje só é possível via câmeras de monitoramento.

Garantia de segurança

David Emerson da Silva Oliveira, de 25 anos, líder da equipe e aluno de engenharia mecânica da Ufersa, lembra que hoje um passageiro que vai pegar um voo precisa apresentar os documentos no mínimo quatro vezes antes de embarque. O sistema, segundo ele, além de agilizar o procedimento o tornaria muito mais seguro.

“Assim que recebesse a pulseira, o passageiro teria o tempo máximo de cinco minutos para colocá-la. Caso contrário, poderia ser interrogado. As companhias aéreas teriam de fornecer essas pulseiras e o passageiro não poderia tirá-la até chegar no destino final, sem danificá-la ou molhá-la”, explica Oliveira.

Uma das críticas ao projeto dos estudantes potiguares é de que o sistema violaria a privacidade das pessoas. Oliveira, no entanto, reforça que hoje todos os passageiros já são monitorados por câmeras de segurança nos aeroportos. Por este sistema, entretanto, haveria a possibilidade de acompanhar aqueles que oferecem algum risco ou suspeita.

 

Campus da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Foto Divulgação
Campus da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Foto Divulgação

Embora a equipe da Ufersa não tenha avançado na competição – só seis chegaram à etapa final – de acordo com Oliveira, a Airbus ainda dará um feedback à equipe sobre os pontos do projeto que podem ser melhorados. Inclusive, ainda há a possibilidade, segundo ele, de a empresa patrocinar a fase dois do projeto: o desenvolvimento de um primeiro protótipo.

Mesmo não estando entre os finalistas, chegar à semifinal de uma competição internacional tão importante no ramo da aviação, na visão de Oliveira, serviu para provar a qualidade do que é produzido nas instituições federais de ensino superior. “É a partir dessas pesquisas que poderemos dar um salto tecnológico do Brasil. O mundo tem uma visão de um Brasil sem tecnologia e em competições como esta provamos a importância das unidades do Nordeste. Uma universidade do interior do Nordeste chegou até a final desbancando outras instituições de renome.”

Volney de Brito Tôrres, de 24 anos, aluno de engenharia mecânica que fez parte da equipe, também aprovou a experiência. “Durante o projeto percebemos que a ideia era muito boa, e que com o desenvolvimento certo daria para competir com as principais universidades do mundo e as universidades especializadas em aviação. Mesmo não chegando até a final ficamos com a sensação de missão cumprida.”

Sobre a universidade e os cortes

A Ufersa possui 11.400 alunos matriculados em 42 cursos de graduação nos campi de Mossoró, Angicos, Caraúbas e Pau dos Ferros, no interior do Rio Grande do Norte. Segundo a instituição, 51% dos alunos vêm de famílias cuja renda não atinge dois salários mínimos. O quadro de servidores é formado por 1.258 pessoas, sendo 702 professores (184 mestres e 489 doutores) e 556 técnicos.

De acordo com instituição, para este ano havia um orçamento aprovado de R$ 290 milhões. Desse montante, quase 240 milhões é destinado à folha de pagamento. Para o custeio da universidade estavam previstos R$ 43 milhões em material de consumo, terceirizados e serviços; outros R$ 8 milhões eram destinados a obras e equipamentos. Segundo a Ufersa, se os valores bloqueados não forem revertidos, serão cortados da universidade mais de R$ 12 milhões do custeio, o equivalente a 30% do orçado, e R$ 3,6 milhões de capital, ou seja, 45% do planejado.

Sendo assim, a universidade teria de empenhar um recurso superior a 21 milhões de reais, mas só tem disponível R$ 12 milhões. A estimativa é que se efetivado o bloqueio, considerando os gastos essenciais para o funcionamento acadêmico e administrativo, os recursos da universidade são suficientes para manter as despesas somente até o mês de agosto.

34/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância  das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil

Vanessa Fajardo

Jornalista, trabalha com temas principalmente ligados à educação. Já passou pelas redações do G1, Portal de Notícias da TV Globo, e dos jornais Agora SP e Diário do Grande ABC. Atua como colaboradora da BBC Brasil, Folha de SP, Porvir, Universa e Revista da Gol.

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