Coluna | Mulheres indígenas na linha de frente contra o genocídio

O corpo território do reflorestar mentes ao aldear a política

ODS 10ODS 5 • Publicada em 6 de julho de 2022 - 10:14 • Atualizada em 9 de julho de 2022 - 10:53

Estamos traçando uma corrida contra o tempo para evitar a morte dos nossos corpos; a ideologia feminina sempre fez sentido para mim e agora faz parte da nossa história.

Por muitos anos, tivemos a narrativa das nossas histórias contadas por outras pessoas; nas escolas, aprendemos que o país foi “descoberto” e colonizado de forma pacífica, que os habitantes, os “índios” eram pessoas não civilizadas, sem alma e com costumes bizarros.

Viu esse? Sônia Guajajara e Uruba Pataxó: lute como uma mulher indígena

Essa narrativa nunca contemplou a mim ao meu povo Sateré Mawé e nem aos outros povos que eu conheci; nossas narrativas vão muito além do conceito abordado nos livros, na TV, e nas histórias.

É fato que nossos povos foram dizimados e sofreram todo tipo de violência e violações, e nossos territórios e corpos foram invadidos.

E é sobre esses corpos territórios femininos contemporâneos resistentes remanescentes que eu vim falar; corpos que me possibilitaram nascer, crescer, estudar e comunicar.

Digo isso com propriedade, de uma mulher que foi criada em um lar feminino de avó e mãe, lideranças na luta indígena e de gênero. Em uma associação de mulheres indígenas artesãs em Manaus, Amazonas. Zenilda Sateré Mawé e Regina Sateré Mawé, eu faço parte do legado.

São mulheres que até hoje inspiram força e resistência na luta pelos direitos dos nossos povos, por educação, saúde, território, como bem diz Sonia Guajajara em uma de suas falas: “A luta pela Mãe Terra é a mãe de todas as lutas”.  Eu não entendia na época, mas, ao pensar nessa narrativa e lembrar de como nós mulheres indígenas sempre estivemos em luta desde o nosso nascimento, e ver quantos parentes são assassinados por conta de território, quantas vidas são arrancadas do ventre da mãe terra pela ganancia do não indígena, isso nos obriga a lutar.

Hoje, quando pensamos em lideranças indígenas, os primeiros nomes que vem a nossa mente são nomes de mulheres; pelo menos na minha é assim. Sonia Guajajara, Célia Xakriabá, Alessandra Munduruku, Joenia Wapichana: mulheres que protagonizam a luta no movimento indígena que estão na linha de frente contra o genocídio dos nossos povos, que trazem o reflorestar mentes para não precisarmos reflorestar nossos territórios.

Que defendem nossos territórios como defendem suas vidas, porque isso que significa para nós, sinônimos de vida, mãe, corpo. E para que cada vez mais possamos ocupar todos os espaços acreditamos que só podemos de fato construir uma sociedade justa em que os direitos constitucionais dos povos indígenas se estivermos nos espaços de tomada de decisão que é no Congresso Nacional. Pois como diz Célia Xakriabá “antes de existir o Brasil da Coroa, ja existia o Brasil do Cocar”.

Mulheres indígenas dos mais diversos povos do Brasil se levantaram em uma retomada coletiva, lançando o aldear a política com a bancada do cocar.

Nós não queremos mais ter que reflorestar os nossos territórios queimados, queremos reflorestar as mentes para um futuro contemporâneo indígena ancestral.

Por mais indígenas em todos os espaços, pois representatividade importa.

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