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Rio de Janeiro, a capital dos sem creches no Sudeste

Cidade tem a pior taxa de escolarização entre crianças de 0 a 3 anos, segundo o IBGE. Joyce leva a filha de 6 meses para o trabalho na cadeirinha

© by Patrick Marinho/ Imagens do Povo

Com fotos de Patrick Marinho e arte de Fernando Alvarus

Joyce Ramos Germano mora com seu marido e três filhos em uma rua sem saída na Vila do João, uma das favelas do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A caçula tem apenas 6 meses e precisaria ficar em uma creche para que a mãe, de 34 anos, pudesse trabalhar. Como a renda da família é escassa, ela vem lutando desde que ainda estava grávida, há mais de um ano, para conseguir vaga em uma instituição pública. Até agora, em vão. “Só a renda do meu marido não dá para sustentar a família. A gente paga aluguel de R$ 750. Então, trabalho numa barraca de açaí e levo a Angelina  comigo, em uma encruzilhada perigosa aqui na Maré. Lá, tem muito tiro, tráfico de drogas, não é lugar para criança ficar”, diz ela. Sua situação reflete a de muitas outras mães do Rio, onde a taxa de crianças de 0 a 3 anos matriculadas em creches é de apenas 31,7%, a pior do Sudeste, que é a melhor região do país em escolarização de crianças dessa faixa etária. Em primeiro lugar, está São Paulo (47,5%), seguido do Espírito Santo (35,9%) e Minas Gerais (33,9%).

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Na casa com dois quartos, os espaços são aproveitados de todas as formas. Entre acessórios de bebê, remédios do pai, que também mora com ela e brinquedos dos seus dois filhos mais velhos, um de 9 e outro de 7 anos, Joyce tenta deixar tudo arrumado antes de ir trabalhar. “Eu fui atrás de creche para Angelina diversas vezes e não consegui nada”, afirmou ela, enquanto arrumava a roupa de sua bebê. “Eles têm sempre uma desculpa. Ou falam que as vagas já estão preenchidas, ou que este ano só abriram para meninos. Como assim? Eu tenho culpa se ela nasceu menina?”, questiona.

A rotina de Joyce começa cedo para dar banho no seu pai, que sofre de Alzheimer. Em seguida, leva seus filhos na escola e, na volta, arruma Angelina para carregá-la junto com ela até o quiosque onde trabalha. “Se eu não levo, tenho que voltar em casa de 3 em 3 horas para dar de mamar. Eu prefiro dar o peito porque assim economizo, não preciso comprar leite” contou. “Fico triste porque minha filha não precisaria passar por isso: é um direito dela, que me ajudaria também”, declara. “Nas creches, dão até cesta de legumes porque tem muita mãe que fica sem condições de fazer feira. Isso me faria economizar uns R$ 40 para comprar fralda”, acrescenta Joyce, que mora com o pai, a madrasta, marido e seus três filhos.

Trabalho numa barraca de açaí e levo a Angelina  comigo, em uma encruzilhada perigosa aqui na Maré. Lá, tem muito tiro, tráfico de drogas, não é lugar para criança ficar

Joyce Germano
mãe de Angelina, de 6 meses

Com a renda incerta do seu marido, que é pedreiro, Joyce se vira como pode. Tem dias que faz sopa para conseguir um dinheiro extra. “Minha filha precisa de fralda e meu pai também. Imagina o gasto? Tem dias que coloco fralda de pano na Angelina para economizar”, comenta. Segundo ela, levar a filha para o trabalho está sendo cada dia mais difícil. Além de ter que servir à clientela, ela precisa se preocupar com Angelina, que fica na cadeirinha, no chão do estabelecimento. “A barraca é de fibra de vidro. Quando esquenta, é muito calor. Ela tem que ficar no chão porque não tem muito espaço lá. Eu abro e fecho o freezer várias vezes e aí minha filha acaba adoecendo”, relata Joyce. “Nem sei quantas vezes tive que levá-la ao posto de saúde para fazer nebulização”, acrescenta. “Dá vontade de perguntar para o governo: ‘ o que eu faço’? Coloco minha filha no bolso? , diz. “Eu só quero o direito da minha filha. Ela é cidadã brasileira”, conclui.

Joice com a filha, Angelina, de 6 meses: menina vai para a barraca de açaí com a mãe, em cadeirinha/ Foto Patrick Marinho/Imagens do Povo

 Joyce morava na Abolição, Zona Norte do Rio. Com a doença do seu pai, há quase dois anos, teve que se mudar para a Maré, onde o aluguel é mais barato. “Não posso pedir para minha madrasta trabalhar porque vou ficar sem ninguém em casa. Não tenho dinheiro para pagar cuidadora. Meu pai recebe R$ 900 de aposentadoria e esse dinheiro vai todo para seus gastos e ainda falta. Eu sobrevivo de doação de amigos”, diz “Se eu tivesse vaga em creche, conseguiria me organizar, mas nem isso. O que o governo quer que eu faça? Entregue minha filha para assistência e a pegue de volta só quando estiver maior?”, finaliza.

 Para Débora Borges, pedagoga formada pelo Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (Iserj), vaga em creche não só  é um dever do estado, mas também um direito da mãe e da criança da primeira infância, que precisa estar em um ambiente coletivo direcionado para o seu desenvolvimento. “Vale lembrar que algumas crianças contam somente com a refeição ofertada na escola”, diz a pedagoga. “Quando o estado nega esse direito à criança, ele também está sendo negligente com os cuidadores dos bebês,  que, na maioria das vezes, são as mães”, pontua. “Esperar por uma vaga pode ser um processo de meses e, em alguns casos, de anos, principalmente se a criança for portadora de alguma necessidade especial”, conta.

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 Ainda segundo Débora, a falta da oferta de vagas em creches conversa diretamente com o desemprego. Sem assistência, a mãe ou o familiar que cuida da criança não consegue voltar ao mercado de trabalho. “Enquanto suprir a necessidade da criação de vagas não for uma das pautas principais do Estado, mães vão continuar desempregadas e sem estudo, ou vão continuar resistindo como podem com a ajuda daquela vizinha que é tia de todas as crianças da rua”, completa ela, referindo-se a creches informais.

De acordo com a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, ao todo, 83.476 crianças em idade de creche, de seis meses a 3 anos e 11 meses, estão matriculadas nas 711 unidades de educação infantil, entre creches municipais do Rio e também conveniadas. Em nota, o órgão informou que, devido ao desbloqueio de vagas em função das duplicidades de registros já detectados pelo sistema, estão sendo identificadas novas vagas disponíveis em creches. “Os interessados devem se reportar às unidades localizadas em sua região para matricular a criança”, recomendou a secretaria.

O órgão também revelou que realizou uma série de mutirões, em parceria com a Defensoria Pública, e matriculou “todas as pessoas que compareceram e solicitaram vaga nas creches municipais”. A Defensoria Pública confirmou as ações e informou que elas foram organizadas após ter registrado um aumento no número de famílias em busca de assistência em decorrência da falta de vagas em creche. A nota da Secretaria Municipal de Educação  também ressaltou que o prefeito Marcelo Crivella publicou decreto, no início de setembro, aumentando para R$ 650 o valor por criança repassado às creches conveniadas. Até agosto de 2017, elas  recebiam uma verba de R$ 300 per capita.

*Esta série foi contemplada com a bolsa de reportagem sobre a primeira infância concedida pela Andi e pela Petrobras

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Escrito por Carolina Moura

Jornalista com interesse em Direitos Humanos, Segurança Pública e Cultura. Já passou pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Jornal O DIA e TV Bandeirantes. Como freelancer já colaborou com reportagens para Folha de São Paulo, Al Jazeera, Ponte Jornalismo, Agência Pública e The Intercept Brasil.

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