Compartilhar, , Google Plus, Linkedin, Whatsapp,

Imprimir

Publicado em

Refresco para os bichos do Cerrado

Pesquisas desenvolvidas na UnB determinam quais são os ambientes propícios para a produção animal em clima tropical e seco


Projeto da UnB trabalha atualmente com suínos, bovinos, frangos de corte e codornas na Fazenda Água Limpa: busca das melhores condições para os animais do Cerrado (Foto: BioCer/Arquivo Pessoal)
Projeto da UnB trabalha atualmente com suínos, bovinos, frangos de corte e codornas na Fazenda Água Limpa: busca das melhores condições para os animais do Cerrado (Foto: BioCer/Arquivo Pessoal)

Nicolau Ferraz*

Famoso pelos longos períodos de seca, o Cerrado, nome dado à savana brasileira, é o segundo maior bioma do país. Com uma extensão de 197 milhões de hectares, a região é rica em biodiversidade, com quase mil espécies de aves e mamíferos. Estudar como o clima afeta a vida de tantos bichos é responsabilidade da chamada biometeorologia animal, principal linha de pesquisa do projeto BioCer. Criado em 2019 pela professora Sheila Tavares Nascimento, da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária (FAV) da UnB, o grupo tem como objetivo proporcionar vida melhor à fauna do Cerrado. “A gente divulga informações para que produtores e técnicos interfiram de forma positiva sobre o bem-estar dos animais criados em clima tropical”, afirma Sheila, que também é a coordenadora do projeto.

LEIA MAIS: Ambientalistas lutam para transformar o bioma Cerrado em Patrimônio Nacional

LEIA MAIS: Após doações, elefanta explorada virá de avião para o Brasil

Doutora em Zootecnia, ela explica como surgiu a ideia de criar o grupo em 2016, ano em que ingressou na UnB: “Como o Brasil é um país com enorme extensão territorial, e o Centro-Oeste, uma região de destaque na produção animal, é fundamental o desenvolvimento de pesquisas relacionadas ao conforto de animais”, afirma Sheila, que, em 2017, ganhou prêmio da Sociedade Brasileira de Biometeorologia por estudo sobre equilíbrio térmico de animais.

Leia todas as reportagens da série #100diasdebalbúrdiafederal

A partir dos conhecimentos fornecidos pelo BioCer, produtores conseguem proporcionar ambientes mais propícios para cada espécie. Por exemplo, com as análises divulgadas nas pesquisas, é possível entender qual o sombreamento adequado para certo bicho, a área mínima que ele precisa ocupar ou se determinada temperatura pode causar estresse para o animal.

 O efeito na indústria alimentícia é outro aspecto levado em conta, pois o tratamento correto de um animal de criação influencia na qualidade dos produtos que vão parar nos supermercados: desde a espessura da casca de um ovo de galinha até a textura da carne bovina.

Doutora em Zootecnia, Sheila Tavares Nascimento, professora da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da UnB, com prêmio recebido em 2017: projeto BioCer é oportunidade de trabalhar com diversas espécies (Foto: Amalia Gonçalves/Secom/UnB)
Doutora em Zootecnia, Sheila Tavares Nascimento, professora da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da UnB, com prêmio recebido em 2017: projeto BioCer é oportunidade de trabalhar com diversas espécies (Foto: Amalia Gonçalves/Secom UnB)

Como o Brasil é um país com enorme extensão territorial, e o Centro-Oeste, uma região de destaque na produção animal, é fundamental o desenvolvimento de pesquisas relacionadas ao conforto de animais

Sheila Tavares Nascimento
Professora da da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da UnB

Projeto multidisciplinar

O grupo, que possui outras linhas de pesquisa (comportamento animal, sistemas ao ar livre e bioclimatologia), não foca em uma espécie em particular, já que o clima afeta toda a fauna. Atualmente, no trabalho de campo realizado na Fazenda Água Limpa (FAL/UnB), trabalham com frangos de corte, codornas, bovinos e suínos, entre outros. “Esse é o motivo por eu ser tão entusiasta da área, pois posso trabalhar com qualquer espécie animal”, diz a professora.

O trabalho é multidisciplinar: professores e alunos de cursos e instituições diferentes participam do projeto. Além da UnB, há pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Jaboticabal, em São Paulo; da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), em Minas Gerais; do Instituto Federal de Brasília (IFB), no Distrito Federal, e da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná.

Como o grupo já possui membros de diversos estados e regiões, o próximo passo é buscar parcerias fora do Brasil, o que converge também com a política de internacionalização da UnB. Para a coordenadora do projeto, a necessidade de procurar e manter parcerias é reflexo da atual crise econômica pela qual o país passa, e também a maneira mais eficiente de se fazer ciência: com conhecimentos e experiências diversos.

Minha vontade de pesquisar sobre essa área de biometeorologia animal foi crescendo a cada dia. Não há nada melhor do que saber que o animal está em um lugar pensado especificamente para suas particularidades

Evandro Menezes de Oliveira
Doutorando em Zootecnia

Há também, no âmbito do BioCer, pesquisas realizadas por estudantes, de graduandos a doutorandos. Para a professora Sheila, as novas ideias trazidas pelos alunos e a vontade de aprender são a “engrenagem do processo”.  Além de contribuir com o bem-estar dos animais, o projeto proporciona uma experiência plural aos membros, com pesquisas de campo, produção de artigos científicos e a realização de cursos teóricos e práticos.

Amanda Azevedo, estudante de Agronomia, conheceu o grupo quando fez um minicurso realizado no Centro de Manejo de Ovinos (CMO), da FAL. “Sempre me interessei pela área de bem-estar e ambiência, mas não sabia que essa linha de pesquisa era desenvolvida na UnB”, afirma Amanda. Ela diz se sentir realizada com o trabalho desenvolvido pelo grupo, pois mostra como são importantes os estudos sobre a produção de alimentos, principalmente ao se considerar o crescimento da população mundial.

Professores e alunos de graduação e pós-graduação de instituições e cursos diferentes participam do projeto da UnB (Foto: Arquivo pessoal/BioCer)
Professores e alunos de graduação e pós-graduação de instituições e cursos diferentes participam do projeto da UnB (Foto: Arquivo pessoal/BioCer)

Evandro Menezes de Oliveira, doutorando do Programa de Pós-Graduação de Zootecnia (PPZ) da UEM e bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), interessou-se pelo BioCer durante o período em que lecionou no Centro-Oeste. Enquanto trabalhava como professor de Zootecnia no IFB, percebeu como o clima tem um forte impacto na vida dos animais do Cerrado. “Pude observar os longos períodos de seca e a alta intensidade de radiação solar na região. Isso aumentou meu interesse em estudar como as variações meteorológicas do bioma afetam a criação de animais de fazenda”, explica.

Evandro e Sheila se conheceram na UEM, onde foram colegas de departamento. Durante o período em Maringá, a professora já desenvolvia pesquisas em biometeorologia animal, e assim Evandro a procurou para estabelecer uma parceria. “Minha vontade de pesquisar sobre essa área (biometeorologia animal) foi crescendo a cada dia”, diz Evandro. “Não há nada melhor do que saber que o animal está em um lugar pensado especificamente para suas particularidades”.

*UnB Ciência/Secom UnB

A série #100diasdebalbúrdiafederal terminou, mas o #Colabora vai continuar publicando reportagens para deixar sempre bem claro que pesquisa não é balbúrdia.

 

 

 


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *