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Pesquisa da UFF identifica agrotóxicos que acumulam gordura no organismo

Projeto coordenado por professores de Instituto de Saúde estuda relação do uso de pesticidas com obesidade e diabetes


A pesquisadora Flora Milton no laboratório do campus da UFF em Nova Friburgo: pesquisa aponta para relação entre agrotóxicos e aumento de acúmulo de gordura no organismo (Foto Divulgação/UFF)
A pesquisadora Flora Milton no laboratório do campus da UFF em Nova Friburgo: pesquisa aponta para relação entre agrotóxicos e aumento de acúmulo de gordura no organismo (Foto Divulgação/UFF)

Não é novidade que o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo desde 2008. A partir dessa preocupação, dois pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), do campus de Nova Friburgo, Leonardo Mendonça e Flora Milton, se uniram para estudar as relações entre pesticidas e o desenvolvimento de doenças como obesidade e diabetes. O projeto tem parceria com a Universidade de Brasília (UnB), que ajuda financeiramente e cede materiais e espaços para realização de alguns testes específicos.

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“A obesidade já é uma doença reconhecida como multifatorial, ou seja, ela não acontece só porque a pessoa come muito ou é sedentária. Tem fatores genéticos, psicossociais e vários outros que contribuem”, explica Flora, coordenadora do Laboratório Multiusuário de Cultivo de Células e Tecidos Animais do campus de Nova Friburgo. “Há anos que fatores ambientais foram aceitos como precursores da obesidade. Esses fatores são substâncias químicas no meio ambiente que podem causar distúrbio no sistema endócrino e causar a obesidade”, completou.

Trabalhamos sábado e domingo para o governo dizer que o que a gente faz é balbúrdia. Os experimentos requerem dedicação. Eu e Leonardo compramos muita coisa do laboratório com nosso dinheiro

Flora Milton
Pesquisadora da UFF

Segundo a professora, a ideia da sua pesquisa veio do pós-doutorado, quando investigou produtos químicos que são lançados no meio ambiente e podem estar, de alguma forma, desregulando o sistema endócrino, responsável pela regulação e controle das funções do corpo. “A primeira fase, até o fim do ano, é a cultura em células. Ou seja, a gente pega células de camundongos, a colocamos em uma placa de cultura com agrotóxicos e outra sem. Feito isso, comparamos as células que receberam o produto químico e as que não receberam e avaliamos se aquele determinado agrotóxico dá alteração lipídica”, explicou a professora Flora. O tempo de tratamento das células é de 14 dias, só depois desse tempo a pesquisadora faz a colheita para ver o resultado.

Depois da primeira fase, a pesquisa seguirá para a segunda, que é em animais. “A gente não pode se garantir só em estudo de células, precisamos passar para os animais também. Só que a gente decidiu não começar direto com os camundongos na primeira fase, porque íamos precisar sacrificar muitos para fazer esse estudo”, contou.

Os professores Flora (sentada) e Leonardo (atrás) com a equipe da pesquisa sobre relação entre agrotóxicos e obesidade e diabetes (Foto Divulgação/UFF)
Os professores Flora (sentada) e Leonardo (atrás) com a equipe da pesquisa sobre relação entre agrotóxicos e obesidade e diabetes (Foto Divulgação/UFF)

Até hoje, dos dez agrotóxicos estudados, a pesquisa identificou seis que induzem acúmulo de gordura no organismo, o que pode caracterizar a obesidade e pode levar também a diabetes. Os produtos químicos identificados como indutores do acúmulo de gordura são usados no cultivo de abacaxi, banana, café, feijão, cana-de-açúcar, cenoura, cebola, mandioca, milho e uva, entre outros alimentos.”A questão de agrotóxicos é algo bem polêmico. O Brasil continua consumindo muito pesticida e só aumenta. Não temos tanto conhecimento em relação a eles e não temos segurança para usá-los sabendo que não vão causar nenhum problema. Esses compostos estão presentes em tudo hoje em dia, até no sangue e na urina”, declarou a pesquisadora.

“Uma vez que a gente estuda e mostra que esses compostos podem causar prejuízo à nossa saúde, tem a questão social e econômica envolvida. Porque se tem alguém com doença relacionada a agrotóxico, como câncer, obesidade, diabete, é custo financeiro social. É uma forma de nós, pesquisadores, contribuirmos para o conhecimento da sociedade quanto a esses compostos, se são seguros ou não”, argumentou.

Flora Milton contou ainda que o grupo de pesquisa se reúne aos fins de semana e, quase sempre, precisa custear o estudo com dinheiro do próprio bolso. “Trabalhamos sábado e domingo para o governo dizer que o que a gente faz é balbúrdia. Os experimentos requerem dedicação. Eu e Leonardo compramos muita coisa do laboratório com nosso dinheiro, mesmo tendo apoio de Brasília”, declarou.

6/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância  das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil.


Escrito por Carolina Moura

Jornalista com interesse em Direitos Humanos, Segurança Pública e Cultura. Já passou pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Jornal O DIA e TV Bandeirantes. Como freelancer já colaborou com reportagens para Folha de São Paulo, Al Jazeera, Ponte Jornalismo, Agência Pública e The Intercept Brasil.

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