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Inspiração para a ciência na ausência de espinha do tambaqui

Premiada pesquisa sobre mutações de peixe atrai atenção e estudantes para campus da Ufam a 36 horas de barco rápido de Manaus


Estudo descobriu mutações no tambaqui, um dos peixes mais consumidos do Brasil: pesquisa começou no Amazonas e pesquisador voltou para o Amazonas (Foto: Ponciano/Pixabay)
Estudo descobriu mutações no tambaqui, um dos peixes mais consumidos do Brasil: pesquisa começou no Amazonas e pesquisador voltou para o Amazonas (Foto: Ponciano/Pixabay)

Qual relação poderia ter a falta de espinha em algumas populações do tambaqui, um dos peixes de água doce mais consumidos no país, com o aumento do interesse de alunos da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em especial os do Instituto de Natureza e Cultura (INC), no município de Benjamin Constant, sudoeste amazonense, pela pesquisa e a ciência? A resposta é: a tese de doutorado “Descoberta de SNP, construção de mapa genético de alta densidade e identificação de genes associados com adaptação climática e ausência da espinha intermuscular em tambaqui (Colossoma macropomum)”.  

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Defendida em 2016, na Universidade de São Paulo, pelo atual diretor do INC, professor José de Ribamar da Silva Nunes, 36 anos, paraense de Tucuruí, e morador do Amazonas desde os 8, a tese já chamou atenção de pesquisadores estrangeiros e foi premiada em 2018 pelo Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), na área de Zooteconia/Recursos Pesqueiros. Para além do mundo acadêmico, no entanto, a repercussão que importa ao professor, que morou no interior do estado dos 8 aos 23 anos, quando foi para Manaus cursar zootecnia e biotecnologia na Ufam, é a que está fazendo com que mais e mais universitários percebam que é possível fazer ciência e pesquisa mesmo longe dos grandes centros urbanos. 

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Trabalhamos com um perfil de estudante socialmente vulnerável, que precisam dos auxílios propiciados pelo Ministério da Educação. Enfrentamos dificuldades diversas: a falta de renda para locomoção e moradia, por exemplo. Há o evidente choque cultural dos alunos indígenas, que, em sua maioria, não têm o português como o idioma principal.  Funcionários e docentes têm que lidar com cuidado com essas diferenças

José de Ribamar da Silva Nunes
Pesquisador e professor do Instituto de Natureza e Cultura, do Campus Alto Solimões da Ufam, em Benjamim Constant, a 1118 km de Manaus

Além de Manaus, a Ufam tem outros cinco campi espalhados pelo Amazonas. O INC está situado no Campus Universitário do Pólo Alto Solimões, em Benjamin Constant. O município fica a 1.118 quilômetros (em linha reta) e a 36 horas em barco rápido de Manaus. A população estimada em 2018, segundo o IBGE, era de 42.020 habitantes e o IDH, divulgado em 2010 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), de 0.574, ou seja, baixo.  No Instituto de Natureza e Cultura, onde o professor José Ribamar dá aula desde 2009, logo depois de sua graduação, ao passar no concurso da Ufam, atualmente há cerca de 1.100 matrículas ativas, em disciplinas como Pedagogia, Letras, Biologia, Química, Administração e Ciências Agrárias e do Ambiente. 

Choque cultural e empenho

A realidade não é fácil para os alunos do INC.  De acordo com José Ribamar,  98,5% deles são de baixa renda, sendo 587 indígenas de pelo menos nove etnias como Tikuma, Cocama e Marúbo. “Trabalhamos com um perfil de estudante socialmente vulnerável, que precisam dos auxílios propiciados pelo Ministério da Educação para conseguir se manter”, afirma. “Enfrentamos dificuldades diversas. A falta de renda dos alunos para locomoção e moradia, por exemplo. Há o evidente choque cultural dos alunos indígenas, que, em sua maioria, não têm o português como o idioma principal.  Funcionários e docentes têm que lidar com cuidado com essas diferenças”. 

O campus Alto Solimões da Ufam, a 36 horas de barco de Manaus: 1100 alunos,  98,5% deles são de baixa renda, sendo 587 indígenas de pelo menos nove etnias como Tikuma, Cocama e Marúbo (Foto: Ufam/Divulgação)
O campus Alto Solimões da Ufam, a 36 horas de barco de Manaus: 1100 alunos,  98,5% deles são de baixa renda, sendo 587 indígenas de pelo menos nove etnias como Tikuma, Cocama e Marúbo (Foto: Ufam/Divulgação)

Em 2013, José Ribamar foi fazer o mestrado na USP. A pesquisa evoluiu e virou uma tese de doutorado. Por isso, ele só voltou a dar aulas no instituto em 2017. A partir daí começou a perceber que mais alunos o procuravam interessados em pesquisa, em ciências, em genética.  Logo em seguida, começou a orientar alguns alunos de graduação na parte de iniciação à ciência. Atualmente, orienta dois estudantes de mestrado em Manaus. Um deles, era seu orientado de TCC. “Esse aluno se interessou tanto pela ciência, se envolveu, teve oportunidade de participar de um congresso internacional. Se esforçou muito para o mestrado. Fez a seleção e passou entre os cinco primeiros. O detalhe que me traz orgulho em destacar é que é um estudante indígena”.

Além dos dois de mestrado, o professor está orientando quatro alunos de TCC,  e sete alunos de iniciação científica. A maioria desses trabalhos foi iniciada em 2018.  “Essa procura maior é um incentivo a mais para eu participar da pesquisa”, afirma o professor, cujo o doutorado incluiu um ano na Universidade de Auburn, nos Estados Unidos, em 2015, como bolsista da Capes – antes a pesquisa era financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

“Para os meus alunos que se interessam pela área – e como trabalho com genética, não são todos, por considerar ‘complexo demais’ -, o reconhecimento que minha tese teve e o fato de eu ter crescido no interior do Amazonas, ter ido para capital só para estudar, ter voltado ao interior é um incentivo para eles. Percebem que não é por eles serem do interior que não poderão concorrer com igualdade com as pessoas que estão na capital ou mesmo em outros estados”, disse.

Atendimento a estudantes de nove municípios

O campus recebe alunos dos nove municípios da região do Alto Solimões e até de outros estados. “Esses alunos precisam de auxílio para moradia e locomoção. As distâncias são muito grandes. Mesmo dentro de Benjamin Constant, há comunidades que ficam a quatro horas de lancha do centro do município. Lidamos com várias limitações, desde as questões linguísticas e culturais, as de infraestrutura do município –  não há transporte público oficial, problemas no acesso à internet – e financeiras”, ressaltou José de Ribamar. 

“Citando um exemplo extremo: um estudante cujo português não é sua primeira língua, que mora em uma comunidade distante. Vem de uma família indígena que tem renda mensal de menos meio salário mínimo. Simplesmente dar a ele uma vaga (vamos colocar esse “dar” entre aspas) na universidade e falar que isso é dar chance a um estudante…. Não é.  Ele não tem condição de se manter, e a universidade não pode ignorar essas necessidades ”, defendeu o professor. 

A medida em que a universidade forma novos profissionais, muitos passam a atuar na cidade. E elevando o grau de formação dos habitantes, se eleva o IDH do município. Aqui, foram abertas escolas de ensino fundamental particulares por nossos ex-alunos. São novas perspectivas, novas possibilidades, novas oportunidades para quem estudou na universidade e para quem não estudou

José de Ribamar de Santos Nunes
Pesquisador e professor do Instituto de Natureza e Cultura da Universidade Federal do Amazonas

Mas o esforço de todas as partes apresenta resultados, garante o docente. Segundo ele, desde sua criação, em 2005, durante um período de expansão e interiorização de várias universidades federais, o INC tem contribuído para o desenvolvimento socioeconômico de Benjamin Constant e outros municípios.  “A medida em que a universidade forma novos profissionais, muitos passam a atuar na cidade. E elevando o grau de formação dos habitantes, se eleva o IDH do município”, informou.  

Professores de ensino fundamental e médio agora têm formação universitária

José Ribamar contou ter observado mudanças na realidade socioeconômica de Benjamin Constant e do município vizinho, Atalaia do Norte, do ano em que chegou, 2009, para cá. “A universidade levou recursos financeiros, mesmo indiretos, como as bolsas e salários de terceirizados”. Ele citou ainda a mudança no perfil dos professores do ensino fundamental e médio. Antes do INC, a maioria não tinha curso universitário. Atualmente, muitos fazem mestrado e estão começando doutorado – mas não em Benjamin Constant, que ainda não oferece pós-graduação. 

Segundo o diretor do instituto, muitos ex-alunos retornam às suas comunidades e passam a colaborar com seu desenvolvimento. “Aqui no município foram abertas escolas de ensino fundamental particulares por nossos ex-alunos. São novas perspectivas, novas possibilidades, novas oportunidades para quem estudou na universidade e para quem não estudou”.   

O medo dos cortes nas verbas das universidades ronda o INC. “A Ufam, para poder se adequar aos cortes e diminuir o impacto no seu funcionamento normal, teve que fazer algumas opções. Uma delas foi reduzir as bolsas de iniciação científica, porque parte era financiada pela universidade, e o financiamento a projetos de extensão – o que significa que se o professor quiser fazer a extensão terá de arcar com as despesas sozinho”.  “Além disso, com os cortes sucessivos dos últimos anos, os recursos para a manutenção, no caso do INC, já estavam bem enxutos. Se continuarem, não sabemos até quando a universidade continuará a funcionar”. 

O professor José de Ribamar da Silva Nunes: descoberta da mutação genética que fez tambaquis nascerem sem espinha (Foto: Arquivo Pessoal)
O professor José de Ribamar da Silva Nunes: descoberta da mutação genética que fez tambaquis nascerem sem espinha (Foto: Arquivo Pessoal)

A identificação dos genes de mutação do tambaqui

 A ideia inicial do professor José de Ribamar da Silva Nunes era fazer mestrado, mas a pesquisa, que começou simples, alcançou uma dimensão maior e ele optou em tentar passar direto para o doutorado. Um ano e dois meses após o início do mestrado, sua proposta foi submetida ao Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal e Pastagens da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, da Universidade de São Paulo (USP/Esalq), e ele foi aprovado como doutorando. 

#Colabora – Como começou a pesquisa?

José de Ribamar –  Meu orientador, o professor Luiz Lehmann Coutinho, do departamento de Zootecnia da Esalq, apresentou uma técnica recente de mapeamento de mutações genéticas, e eu queria pesquisar algo de importância para a Região Amazônica. Daí o tambaqui. Assim, encontramos um elo para nossos interesses científicos.

Como descrever sua tese?

José de Ribamar – É um mapeamento de mutações genéticas do tambaqui. Usamos essa técnica recente para rastrear dois tipos de mutação. Uma delas causa a falta da espinha chamada miocepto, em forma de Y, que ao ser retirada desperdiça muita carne, além de causar engasgamento. Uma população tambaqui com essa mutação ocorrida naturalmente foi descoberta por um produtor de peixe em São Paulo.  A outra mutação favorece a adaptação do peixe a mudanças climáticas como o aquecimento global, que causa a redução de oxigênio na água.

Populações do peixe de que regiões foram analisadas e o que foi encontrado?

José de Ribamar – Analisamos populações do Tambaqui no Amazonas e as introduzidas no Nordeste e Sudeste do país na década de 1960. Foram identificadas primeiramente mais de 200 mil mutações que poderiam ser usadas no estudo. Depois de uma filtragem inicial, havia dezenas de mutações confiáveis para a pesquisa.

Quais foram os passos seguintes? 

José de Ribamar – O levantamento das mutações que estariam ocasionando a perda de espinha e as que ajudariam o tambaqui a se adaptar às mudanças climáticas começou depois do desenvolvimento do mapa genético responsável por identificar onde estão especificamente essas mutações, considerando cada parte do genoma.

 Como vocês souberam da existência do peixe sem espinha?

José de Ribamar – O professor Alexandre Wagner Silva Hilsdorf, da Universidade de Mogi das Cruzes, foi quem iniciou os trabalhos de pesquisa com o peixe sem espinha. A descoberta dessa população foi feita pelo engenheiro Jenner Tavares Bezerra de Menezes, da BioFish. Ele também é detentor do material genético.   

Como o produtor descobriu o peixe sem espinha?

José de Ribamar – A empresa vendeu um lote a um restaurante. Depois, o dono desse estabelecimento procurou a Biofish e disse que queria mais daquele tambaqui sem a espinha do miocepto. Mas os produtores naquele momento não sabiam de nada. Eles então mandaram radiografar uma população de sua propriedade, e foram descobertos alguns animais que não tinham a espinha.  

E como se descobriu a mutação relacionada às mudanças de clima? 

José de Ribamar – A grande contribuição foi da professora Vera Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e de seu grupo, que coletaram amostras desses peixes em vários lugares. O objetivo era estudar quais tipos de mutações poderiam ajudar na adaptação do tambaqui às mudanças climáticas. No estudo, um dos genes identificados, por exemplo, está  relacionado à resposta do peixe ao frio e ao calor. Toda a pesquisa envolve, na verdade, muitas pessoas. 

Qual exatamente a sua parte?

José de Ribamar – Estudar essa mutação para saber onde ocorreu no genoma que causou a perda da espinha.  É uma característica (a espinha) que faz com que algumas pessoas deixem de comer não apenas essa espécie. Se conseguirmos reproduzir essa mutação que ocorreu de forma natural em outras espécies, poderemos agregar valor comercial.  

Mas já possível produzir peixe sem espinha?

José de Ribamar – Basta o produtor que detém o material genético selecionar os peixes com essa característica, separá-los e formar, naturalmente, uma linhagem com eles.  

Como surgiu a parceria com pesquisadores chineses? 

José de Ribamar – A nossa descoberta de 13 genes relacionados, por exemplo, à produção e modificação óssea foi apresentada em um congresso na Austrália. Uma cientista chinesa que também pesquisava a temática propôs a parceria, que foi  frutífera, uma vez que eles possuem técnicas que não temos. Por exemplo, reproduzir essa mutação em outras espécies como o paulistinha (também chamado de zebrafish). Eles pegaram alguns genes que possivelmente estavam associados a essas características e começaram a desligá-los e ver se o resultado obtido seria a ausência da espinha.

O trabalho continua?

José de Ribamar – Sim. Inclusive, há cerca de três meses, descobri mais alguns genes. E com base em alguns resultados, estive conversando com o professor de um hospital da Universidade Harvard que estuda o paulistinha como modelo para estudar doenças de desenvolvimento ósseo em seres humanos. Ele mostrou interesse em entender melhor a pesquisa e me convidou para desenvolver uma parte lá. Ainda estou em fase de negociar tanto na Ufam como em Harvard, para viabilizar minha estada lá ano que vem, por um período de quatro a seis meses, fazendo um trabalho de colaboração científica.

87/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância  das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil


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