Quando a pandemia é um caminho para a realização pessoal

Conheça as histórias de Ingredy, Ian e Mariah, três jovens que, com o apoio da família, aproveitaram o isolamento social para mudar os rumos de suas carreiras

Por Juliana Sorrenti e Sophia Lyrio | ODS 3 • Publicada em 19 de agosto de 2021 - 10:21 • Atualizada em 14 de setembro de 2021 - 12:25

Ilustração de Gordon Johson/Pixabay

Ilustração de Gordon Johson/Pixabay

Conheça as histórias de Ingredy, Ian e Mariah, três jovens que, com o apoio da família, aproveitaram o isolamento social para mudar os rumos de suas carreiras

Por Juliana Sorrenti e Sophia Lyrio | ODS 3 • Publicada em 19 de agosto de 2021 - 10:21 • Atualizada em 14 de setembro de 2021 - 12:25

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Os olhos castanhos de uma menina de 6 anos por trás da lente. Uma mãe preocupada com o filme perdido nos dedos da criança. No clique, a magia de transformar um instante em memória; na revelação, um mundo borrado. Ingredy Giuliasse, de 25 anos, relembra com carinho da primeira memória afetiva com a fotografia. No início deste ano, em plena pandemia, ela finalmente transformou a antiga paixão em trabalho. Essa é apenas uma das histórias de jovens que se reencontraram a partir das mudanças impostas pelo covid-19.

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Quase médica, quase farmacêutica, quase médica veterinária e, agora, ex-publicitária. Ingredy queria estudar Medicina, passou para Farmácia na Universidade Federal Fluminense (UFF) e pediu transferência para Medicina Veterinária. O amor pelos animais não foi o suficiente para a impedir de renunciar a uma vaga em uma universidade federal, a uma bolsa de iniciação científica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e a aprovação da família. Ingredy foi trabalhar como vendedora, comprou a primeira câmera e foi aprovada em Comunicação Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Investiu na carreira publicitária. Ano passado conseguiu um contrato temporário na British American Tobacco, multinacional de tabaco. Em janeiro de 2021, com a oportunidade de renovar o contrato por mais nove meses, Ingredy disse não. Era a oportunidade de recomeçar como fotógrafa.

“A pandemia me ajudou nesse processo infinito de autoconhecimento. A fotografia sempre fez parte da minha vida, mas eu tentei negá-la por muitas vezes”, diz. O psicólogo Jaime Guedes chama atenção para um fenômeno que percebe na clínica: para agradar o outro, muitas vezes dizemos não para nós mesmos. “Você sabe dizer não, mas para quem você diz não? Para você, seus sonhos, suas realizações, o que você mais gosta de fazer”, pondera.

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A passagem de analista de marketing para fotógrafa profissional não foi fácil. “Muita terapia!”, diz Ingredy entre risos. Primeira do núcleo familiar com diploma universitário, ela sente medo de falhar: “A gente tende a pensar que o significado do sucesso é o somatório da realização financeira com o quanto você é valorizado pelo que você faz e pelo seu status”.

Ingredy em dois momentos: antes da pandemia e depois de ter apostado na carreira de fotógrafa
Ingredy em dois momentos: antes da pandemia e depois de ter apostado na carreira de fotógrafa | Fotos de arquivo pessoal

Ingredy criou a Acervo de Olhares, voltada principalmente para fotografar mulheres. “Quero fazer com que a pessoa consiga se identificar com as fotos para transmitir aquilo que ela nem sabe, mas em algum momento descobre que quer transmitir. Fotografia é percepção, conexão, cuidado, transformação”. Ela acredita que a relação entre fotógrafo e fotografado envolve “estabelecer uma relação de confiança, de parceria, às vezes até de amizade”: “Eu costumo dizer que a conexão transforma a fotografia em registros memoráveis”.

Isolamento social: tempo de reflexão leva a mudanças de vida

O perigo do coronavírus vai além dos pulmões: sufoca também a mente. Segundo dados do Observatório Febraban/Ipespe, entre as principais mudanças na vida dos brasileiros na pandemia, o prejuízo à saúde mental e emocional foi mencionado por 57% dos entrevistados pela pesquisa que ouviu três mil pessoas nas cinco regiões do país. Mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Goiás, Fabíola Monteiro acredita que as pessoas precisam ter mais tempo para si. “O confinamento obrigou as pessoas a se voltarem para os seus próprios recursos. A gente estava vivendo uma busca muito externa. As pessoas não se davam conta de que corriam e não sabiam para quê”, reflete.

O psicólogo clínico Jaime Guedes concorda: “A pandemia atuou como um período de desconstrução da solidão, e esse processo gerou, também, enfrentamentos. O cérebro tem a capacidade de se organizar e reorganizar em meio a dificuldades”.

Ian engenheiro de produção, Ian músico | Fotos de acervo pessoal
Ian engenheiro de produção, Ian músico | Foto de acervo pessoal e de Catarina Franca

A sensação de ter encontrado um caminho

Ainda assimilando as letras do alfabeto, aos 5 anos Ian Travassos já se esbaldava nas notas musicais. A paixão, que só cresceu, ficou em segundo plano no início de 2020. Em busca de estabilidade, Ian, de 19 anos, ingressou no curso de Engenharia de Produção na UFRJ. Ele não contava, porém, com as reflexões influenciadas pela pandemia, que iluminaram a vontade de mergulhar de cabeça em sua carreira artística.

Em julho de 2020, antes do início do curso, Ian decidiu se dedicar à música paralelamente à faculdade. Porém, em meio às exigências da engenharia, não conseguiu se encontrar. “Fui fazendo meio odiando”. No final do ano, durante um processo seletivo, ele percebeu que não queria fazer aquilo. A série americana This is Us, em que uma das personagens deixa de lado a carreira de cantora, o fez pensar: “Eu via a série e chorava em absolutamente todos os episódios pensando: ‘O que eu estou fazendo com a minha vida?’”.

Com o apoio da família, Ian deixou a faculdade e se matriculou em aulas particulares de música. Em parceria com seu primo e produtor, Miguel Travassos, hoje ele se prepara para lançar sua primeira música. O isolamento social o influenciou na decisão: “Você está 100% nos seus pensamentos, eu estava o tempo inteiro em contato comigo mesmo. Para piorar, não, para melhorar (risos), como eu não estava saindo de casa, eu tinha as noites para mim e aproveitei para compor muito, muito mais do que eu estava acostumado. Fui exercitando e aumentando ainda mais esse lado musical, vendo o que fazia mais sentido para mim mesmo. Agora eu acho que estou finalmente no caminho certo”.

Mariah em Caraíva e de volta a Uberaba | Fotos de acervo pessoal
Mariah em Caraíva e de volta a Uberaba | Fotos do Instagram

A solidão da pandemia leva a um reencontro

Foi no silêncio, nos banhos de ervas e no pó de café no corpo, na solitude e na solidão, que Mariah Gonçalves, de 19 anos, residente de Uberaba, descobriu a sua magia. O início da pandemia marcou os dois meses que escancararam as portas da percepção da jovem. Sozinha em casa pela primeira vez, Mariah embarcou na busca espiritual que a conduziu à ayahuasca, a medicina da floresta. Desde então, segundo a uberabense, “tudo mudou”.

Nascida em Minas Gerais, aos 2 anos Mariah se mudou para a Amazônia paraense e ficou por lá até os 6, quando retornou à Uberaba. Foi ainda criança que ouviu falar sobre as medicinas da mata. Essa relação, porém, esperou alguns anos para despontar. No início de 2020, o interesse pela filosofia a levou à Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Após dois meses de curso remoto, ela se deu conta de que o conhecimento que estava buscando não era acadêmico e, sim, espiritual. “Meu tempo, minha atenção e minha energia são muito preciosos para eu fazer uma coisa só por fazer”, ponderou, justificando o trancamento da matrícula. Ainda sustentada pelos pais, a decisão foi viabilizada.

Entre as mudanças impostas pelo covid-19, uma foi determinante: Mariah deixou a casa da avó para retomar a convivência com a mãe. Mas devido à carga horária de trabalho da mãe, ela passou muito tempo sozinha. O momento de introspecção foi essencial para que pudesse se perceber: “Eu costumo falar que minha primeira cerimônia de ayahuasca foram esses dois primeiros meses que eu fiquei sozinha. No começo achei que estava enlouquecendo. De repente, tomei consciência de existir. Depois, eu fui buscar a ayahuasca”.

Em setembro de 2020, buscando respostas durante um banho de ervas, ouviu uma música que entoava: “Ayahuasca vem da terra…”. Depois de sete consagrações (cerimônias em que se ingere o chá de ayahuasca), ela conta a experiência: “Foi um despertar para mim, foi como se eu estivesse realmente dormindo até aquele momento. Têm sido vários despertares. Toda cerimônia é a primeira vez”. Após conhecer a ayahuasca, Mariah diz que passou a sentir a bondade, desvinculada do ego: “A ayahuasca me trouxe a prova de que tudo que eu faço tem um propósito, quando eu sou boa para mim eu sou boa para o outro.”

Para romper a estagnação, Mariah decidiu viajar para Caraíva. A Bahia era conhecida desde a infância, quando viajava para Arraial d’Ajuda onde o pai tinha um negócio. A conexão já pré-estabelecida com as terras baianas fez com que Caraíva, lugar que visitara em 2019, fosse uma oportunidade de transformação. Acampada durante três meses e trabalhando como bartender, ela diz que a noção de responsabilidade consigo e com os outros mudou. Passar por esse período sem precisar recorrer à família fez com que acreditasse mais em si mesma.

Não havia espelho no acampamento e a relação com a própria imagem também mudou. O desaceleramento imposto pela pandemia foi fator fundamental para que Mariah assumisse a sua face atual: “Estaria em outros mil lugares fazendo outras mil coisas com rotina acelerada”. Espelhada em suas letras que preenchem tanto músicas quanto poemas, hoje ela se arrisca também nas artes manuais. A crença no universo é o que a guia: “A cada dia que passa é uma conquista nova aqui dentro. Eu sinto que estou indo no caminho certo sim”.

Juliana Sorrenti e Sophia Lyrio

Juliana Sorrenti é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bolsista do PET-ECO UFRJ (Programa de Educação Tutorial da Escola de Comunicação). Apaixonada por contar histórias que precisam ser ouvidas.

Sophia Lyrio é estudante de Jornalismo na UFRJ e auxiliar de pesquisa em projeto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Acredita que um olhar potente pode tocar e, assim, transformar por meio da palavra.

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