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Pesquisa sobre Aedes recebe prêmio do CNPq

Universidade Federal do Sergipe desenvolve novas moléculas para o combate ao mosquito da dengue


Laboratório do Departamento de Farmácia da UFS: pesquisa premiada desenvolveu moléculas que matam larvas do aedes (Foto: UFS/Divulgação)
Laboratório do Departamento de Farmácia da UFS: pesquisa premiada desenvolveu moléculas que matam larvas do aedes (Foto: UFS/Divulgação)

A Organização Mundial de Saúde considera o mosquito Aedes aegypti um dos seres mais mortais do mundo. Transmissor de doenças como dengue e zika, o mosquito é um desafio em todo o mundo. No Brasil, por exemplo, de janeiro a abril foram registrados 451.685 casos de dengue – no mesmo período em 2018,  foram 102.681, de acordo com o Ministério da Saúde. Nesses quatro primeiros meses do ano, foram 123 mortes atribuídas à doença. Em várias instituições do país são desenvolvidas pesquisas para acabar ou ao menos minorar o problema. Uma delas tem o objetivo de reduzir a população do mosquito, sem afetar o meio ambiente, foi realizada na Universidade Federal de Sergipe (UFS),  dentro de um trabalho maior, e recebeu, em maio, o 16° Prêmio Destaque na Iniciação Científica e Tecnológica na categoria Ciências da Vida, do CNPq

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O estudo premiado – segundo consecutivo da UFS na iniciação científica – foi desenvolvido pela então estudante de farmácia Nathália Araújo Macêdo, de 23 anos, e coordenado pelo professor do Departamento de Farmácia Sócrates Cabral de Holanda Cavalcanti, que desde 2004 desenvolve pesquisas na área.  Com o título, “Síntese de derivados do indol benzenosulfonilado potencialmente ativos contra larvas do Aedes aegypti”, a pesquisa realizada por Nathália tinha como propósito desenvolver um produto com potencial de atividade tóxica para o Aedes, “de forma não agressiva para organismos não alvos”. 

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Para atingir esse objetivo, por meio de modificações químicas na estrutura do indol – composto com propriedades que interferem no desenvolvimento do mosquito – foram criadas novas moléculas, cujos derivados também interferem nesse desenvolvimento, mas de forma mais ampla, uma vez que pontos de suas estruturas foram modificados para intensificar a ação. A explicação é de Nathália Macêdo, que não pôde dar mais detalhes pois o estudo, ainda em prosseguimento, está sob sigilo.  

Artêmia salina

O coordenador da pesquisa, Sócrates Cabral de Holanda Cavalcanti, escolheu um micro-crustáceo, a Artêmia salina, para a comparação, com o Aedes, do efeito tóxico do produto químico que ele e a equipe desenvolveram, de acordo com reportagem publicada no site da UFS. Era preciso comparar a mortandade nas duas espécies.  Na mesma reportagem, o professor afirmou que os testes provaram que a pesquisa tem boas perspectivas: “Testamos na larva [do Aedes] e observamos que a substância mata em uma concentração bem baixa. Com o organismo não alvo (a Artêmia salina), testamos em uma concentração altíssima, e ela não morreu”. 

O prêmio não é só meu, é uma devolução para a sociedade também. O retorno se dá através da produção científica, dos profissionais que são formados e irão exercer a profissão e sobretudo, a formação crítica sobre entender e interpretar os fatos

Nathália Macêdo
Farmacêutica e autora da pesquisa premiada

Em contato ainda com o grupo de pesquisa da UFS, para elaboração e publicação de artigos, Nathália informou que o produto ainda precisa ser testado em outras espécies – para avaliar a segurança do uso – e em campo – para avaliar a efetividade em locais abertos, uma vez que até o momento só foi testado em pequena escala.  “Depois de finalizar todos os estudos, penso que a equipe irá decidir a forma mais adequada para poder torná-lo útil à população”, afirmou, em relação a uma possível produção em larga escala.  

Outros derivados, além do Indol, continuarão sendo elaborados dentro da pesquisa, segundo o que informou o professor ao site da UFS.  “É uma pesquisa básica, com alto teor de inovação: a descoberta de novas moléculas, mesmo que seja uma molécula conhecida, consegue novas formulações”, afirmou na reportagem

Valor da produção acadêmica

Formada em abril,  a farmacêutica destacou os três motivos principais que fizeram o prêmio, divulgado em maio, ser muito significante para ela:  “Primeiro, o reconhecimento do meu trabalho, como pesquisadora e como estudante de farmácia, hoje, farmacêutica. Segundo, a alegria em saber que estou no caminho certo. Por fim, o orgulho em poder dar visibilidade à produção acadêmica da minha universidade e mostrar o valor que ela tem, principalmente no contexto sociopolítico atual”. 

A farmacêutica Nathália Macêdo, premiada pelo CNPq: preocupação com o bloqueio de recursos para pesquisas e para as universidades (Foto: Divulgação/UFS)
A farmacêutica Nathália Macêdo, premiada pelo CNPq: preocupação com o bloqueio de recursos para pesquisas e para as universidades (Foto: Divulgação/UFS)

Atualmente,  Nathália está fazendo residência multiprofissional em farmácia clínica, no Hospital universitário de Sergipe. Assim que concluir a residência, pretende voltar à pesquisa laboratorial. Ela tem um apreço evidente pela ciência e contou que no ambiente em que estudou nunca enfrentou dificuldades por ser mulher nessa área. “Não senti ser mais difícil por ser mulher. Tenho potencial e inteligência e, junto com meus colegas (homens e mulheres), pude desenvolver o trabalho com mais facilidade”. 

Nathália ressalvou que encontrou dificuldades relacionadas ao próprio estudo. “As tentativas durante a pesquisa que não deram certo, as cobranças do orientador, que são comuns no meio acadêmico, e os recursos que não são suficientes para o desenvolvimento do trabalho”. 

 Ambiente universitário

De acordo com a farmacêutica, o ambiente universitário lhe proporcionou a possibilidade de vivenciar a riqueza de conhecimento e, como consequência, valorizá-lo. “A UFS me fez crescer como pessoa e profissional”. Ela destacou a importância do convívio com pessoas diferentes, em um lugar “em que todos eram iguais em direitos. “Pude viver experiências que enriqueceram minha visão de mundo, conhecimento científico e social. E penso que todos que passam por ali (universidade) devem aproveitar o direito alcançado e levar o que aprendem para a sociedade, que sustenta o que temos”.

A preocupação de que as universidades deem retorno à sociedade está em várias  respostas de Nathália nesta entrevista. Ela acredita que as universidades federais contribuem para o desenvolvimento da sociedade. “O prêmio não é só meu, é uma devolução para a sociedade também. O retorno se dá através da produção científica, dos profissionais que são formados e irão exercer a profissão e sobretudo, a formação crítica sobre entender e interpretar os fatos”. 

Os cortes anunciados pelo governo federal para as universidades também estão nas preocupações da farmacêutica. “Mais cortes ou reajustes sem considerar os gastos e recursos atuais impedem a formação da estrutura e  impactam nos processos de trabalho e no resultados esperados” disse. “Uma das dificuldades em desenvolver a pesquisa é a falta de recursos para mantê-la e desenvolvê-la. Logo, cortes não impactarão só em uma pesquisa que está sendo desenvolvida, mas também nos resultados indiretos dela”.

78/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância  das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil


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