Diário da Covid-19: Aumento de casos pode ser início da 3ª onda no Brasil

Imagem de uma manifestação em Brasília contra a morte da população negra e pobre no Brasil e contra o descaso do governo no combate à covid-19. Foto Ricardo Jayme (AGIF/AFP). Maio/2021

País sobe no ranking mundial e passa a ter o maior coeficiente de mortalidade entre os países mais populosos do planeta

Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 3 • Publicada em 16 de maio de 2021 - 15:11 • Atualizada em 22 de maio de 2021 - 17:44

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Imagem de uma manifestação em Brasília contra a morte da população negra e pobre no Brasil e contra o descaso do governo no combate à covid-19. Foto Ricardo Jayme (AGIF/AFP). Maio/2021

O valor mais alto da média de pessoas infectadas pela covid-19 na 2ª onda no Brasil ocorreu na semana de 21 a 27 de março de 2021, com 77,1 mil casos diários e o pico da média de vidas perdidas ocorreu duas semanas depois (04 a 10 de abril), com impressionantes 3.020 óbitos diários. A notícia alvissareira é que, nos últimos dias, o número de vítimas fatais ficou abaixo de 2 mil óbitos pela primeira vez, após oito semanas de valores insistentemente elevados. Mas a notícia ruim é que o número de infectados que havia caído para 58,3 mil casos diários na semana de 18 a 24 de abril, voltou a subir e atingiu 62,7 mil casos diários na semana de 09 a 15 de maio de 2021.

A queda do número de casos da covid-19 ocorreu durante as medidas de isolamento social adotadas nos dias ao redor da Semana Santa. Mas, a partir de meados de abril, os registros de novos casos voltaram a subir após as medidas de flexibilização das atividades sociais por todo o país. Pouco a pouco, a vida foi voltando ao “normal”, com aumento do fluxo de pessoas nos espaços públicos, embora as curvas epidemiológicas permanecessem em alto platô.

Como as autoridades da saúde não sabem por onde anda o vírus – pois não há testes suficientes e nem foi criado um sistema efetivo de rastreamento e monitoramento dos doentes – a possibilidade de uma 3ª onda é cada vez maior. Este quadro é agravado pela lentidão do plano de imunização. Em quatro meses de vacinação, foram aplicadas a primeira dose em cerca de somente 20% da população e a segunda dose em menos de 10% da população. Estes números são insuficientes para interromper a transmissão comunitária do SARS-CoV-2, especialmente diante da propagação de novos cepas do coronavírus surgidas internamente ou vindas do exterior.

Ao invés de cercar o vírus, o Brasil foi cercado pelo coronavírus que invadiu e dominou todo o território nacional. Perdida a batalha da prevenção, agora só resta remediar com a universalização da vacina.  Só que não há vacina suficiente. Todas as promessas otimistas do ministro Marcelo Queiroga foram desfeitas pela dura realidade. Faltam vacinas não só para a primeira dose, mas principalmente para a segunda dose, o que pode ter o efeito de inviabilizar a proteção contra a covid-19. O ritmo da vacinação que já era lento, diminuiu ainda mais com a paralisação da produção do Instituto Butantan e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por falta dos insumos importados da China.

A CPI da pandemia já identificou que o roteiro da tragédia das mais de 430 mil mortes da covid-19 passa pelas atitudes negacionistas do Governo Federal, pela demora na obtenção de vacinas e por posturas diplomáticas equivocadas contra o multilateralismo e por ataques gratuitos ao principal parceiro comercial do Brasil. Dezenas de milhares de vidas poderiam ter sido salvas e a 2ª onda pandêmica poderia ter sido controlada se os cientistas tivessem sido ouvidos e as lições da ciência tivessem sido colocadas em prática. Todavia, diante de tantos erros, o Brasil flerta no momento com o surgimento de uma 3ª onda que pode se agravar bastante no inverno.

O panorama nacional

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou 15.586.534 pessoas infectadas e 434.715 vidas perdidas, com uma taxa de letalidade de 2,8%, no dia 15 de maio de 2021. O número de óbitos está diminuindo, mas o número de casos está aumentando.

O gráfico abaixo mostra a média diária de casos nas diversas semanas epidemiológicas de 15 de março de 2020 a 15 de maio de 2021. Nota-se que o número de casos subiu rapidamente de março até o pico de 45,7 mil casos diários na semana de 19 a 25/07. A partir do final de julho o número médio de casos caiu até o mínimo de 16,8 mil casos na primeira semana de novembro. Todavia, a partir daí teve início uma 2ª onda de contágio que culminou com 77,1 mil casos diários na semana de 21 a 27 de março de 2021.

Os números caíram até 58,3 mil casos na semana de 18 a 24 de abril, mas voltaram a subir e chegaram a 63 mil casos na semana de 09 a 15 de maio. O Brasil tem mantido um nível de infecções muito alto e a preocupação maior do momento é a tendência de elevação que, se não for revertida rapidamente, pode ser o início de uma 3ª onda da covid-19 no país.

O gráfico abaixo mostra a variação média diária de óbitos nas diversas semanas epidemiológicas de 15 de março de 2020 a 15 de maio de 2021. Observa-se que o número diário de óbitos da covid-19 passou de 13 vítimas diárias na semana de 22 a 28 de março para o pico de 1.097 em 19 a 25 de julho de 2020. Nas semanas seguintes, com pequenas oscilações, os números foram caindo até 343 óbitos diários em 01 a 07/11.

Porém, houve inflexão da curva e o número médio de vítimas fatais voltou para a casa de 1.000 óbitos diários em janeiro e ultrapassou 2.000 óbitos diários em março. Na semana de 04 a 10 de abril foram registrados, em média, 3.020 mortes diárias, confirmando a semana mais letal de toda a série histórica da pandemia. Nas 5 últimas semanas os números de vítimas fatais diminuíram e ficaram abaixo de 2 mil óbitos na semana passada.

O Brasil no panorama global

No mundo, a semana mais letal da pandemia foi de 24 a 30 de janeiro de 2021 com 14,1 mil mortes diárias. Na semana passada (09-15/05) o número global de mortes ficou pouco abaixo de 13 mil óbitos diários. A semana com o maior número de casos foi de 25 de abril a 01 de maio de 2021 com cerca de 820 mil casos diários, segundo o site Our World in Data, com base nos dados da Universidade Johns Hopkins.

Os países com o maior número acumulado de mortes pela covid-19 são os EUA (585 mil óbitos), o Brasil (434 mil), a Índia (270 mil) e o México (220 mil óbitos). Mas para comparar o impacto da pandemia entre os países é preciso levar em consideração o peso demográfico de cada um. O gráfico abaixo apresenta o coeficiente de mortalidade (óbitos por milhão de habitantes) dos países do topo do ranking, a média mundial, os exemplos da Índia e Uruguai e, por fim, alguns dos países que conseguiram vencer o SARS-CoV-2 e tiveram baixíssima proporção de mortes entre a população. Não se levou em consideração os países com menos de 1 milhão de habitantes.

A Hungria lidera o ranking e já apresenta mais de 3 mil mortes por milhão de habitantes. República Tcheca e Bósnia e Herzegovina vêm em seguida com mais de 2,7 mil óbitos por milhão. Em 4º e 5º lugar aparecem Norte Macedônia e Bulgária com pouco menos de 2,5 mil óbitos por milhão. Em 6º lugar a Eslováquia com 2,2 mil óbitos por milhão, em 7º a Bélgica (2,13 mil óbitos por milhão) e em 8º a Eslovênia (2,07 mil óbitos por milhão). O Brasil já aparece em 9º lugar com 2.059 mortes por milhão à frente da Itália com 2.050 óbitos por milhão. Os EUA, que possuem o maior número acumulado de mortes, aparece em 15º lugar atualmente com 1,77 mil óbitos por milhão.

O Uruguai está com 970 óbitos por milhão no dia 15/05/21, acima da média de mortes do mundo que é de 431 óbitos por milhão de habitantes. Entre os países menos impactados pela pandemia estão Camboja (9 óbitos por milhão), Nova Zelândia (5 óbitos por milhão), China (3 óbitos por milhão), Taiwan (0,5 óbito por milhão) e o Vietnã com apenas 0,4 óbito por milhão de habitantes.

O ranking dos países não é fixo, pois muda em função dos diferentes ritmos nacionais da pandemia. Há países subindo no ranking e outros descendo. No dia 12 de fevereiro, apresentamos o gráfico abaixo (à esquerda) no Diário da Covid-19, intitulado “Na contramão da queda global, mortes sobem no Brasil”, aqui no #Colabora, quando o Brasil estava na 22ª posição do ranking. Mas, como vimos no gráfico anterior (reproduzido abaixo no painel da direita), o Brasil deu um salto para a 9ª posição, ultrapassando EUA, Colômbia, França, Panamá, Reino Unido e mais recentemente Itália. A Bélgica que estava em primeiro lugar em fevereiro caiu para o 7º lugar, enquanto a Hungria, que estava em 10º lugar, passou para a liderança geral. Os EUA que estavam em 7º lugar caíram para o 15º lugar. A Suécia que estava em 18º lugar, caiu para 28º lugar. A Argentina subiu ligeiramente do 23º lugar para o 21º lugar.

O Uruguai que tinha um coeficiente de 151 óbitos por milhão em 12/02 – abaixo da média mundial (307 óbitos por milhão) – deu um salto para 970 óbitos por milhão em 15/05, acima da média mundial (431 óbitos por milhão). O Camboja que não tinha registrado nenhuma morte até fevereiro, anotou 147 mortes nos últimos 3 meses e atingiu o coeficiente de 9 óbitos por milhão de habitantes. Nova Zelândia e China não tiveram alteração no ranking. Taiwan e Vietnã são dois países com coeficientes abaixo de 1 óbito por milhão de habitantes.

Entre todos os países apresentados no gráfico, o Brasil é o que apresentou o ritmo mais acelerado de aumento da mortalidade e já é líder isolado não só de todo o continente americano, mas também do hemisfério Sul. O Brasil só está atrás de países pequenos, de clima frio e de estrutura etária envelhecida. Os 8 países que estão acima do Brasil no ranking dos maiores coeficientes de mortalidade possuem, em conjunto, 52 milhões de habitantes e registraram 131 mil mortes da covid-19, enquanto o Brasil tem 212 milhões de habitantes e registrou 434 mil mortes da covid-19 até o dia 15 de maio de 2021. Portanto, entre as grandes nações, em termos demográficos, o Brasil possui o maior coeficiente de mortalidade.

Um estudo realizado pelo economista e demógrafo Marcos Hecksher, do IPEA, mostra que o Brasil teve não somente mais mortes por covid-19 do que a maioria dos países do mundo (como mostram os gráficos acima), mas teve também mais desemprego. A nota técnica “Mortalidade por covid-19 e queda do emprego no Brasil e no mundo”, compilou dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e segundo Hecksher:

“O Brasil registrou, em proporção de sua população total, mais mortes por covid-19 em 2020 do que 89,3% dos demais 178 países com dados compilados pela OMS. Quando a comparação desses registros é ajustada à distribuição populacional por faixa etária e sexo em cada país, o resultado brasileiro se torna pior que os de 94,9% dos mesmos 178 países. Em um conjunto de 64 países com dados de nível de ocupação analisados, o Brasil registrou queda do indicador mais intensa que as de 84,1% dos demais 63 países entre os três últimos trimestres de 2019 e 2020. O nível de ocupação final é mais baixo do que os de 76,2% dos países no mesmo conjunto de 63” (p. 13).

Por tudo isto, o povo brasileiro está pagando um alto preço em vidas e em empregos perdidos em decorrência dos erros das autoridades governamentais comandadas pelo Palácio do Planalto. Em duas semanas de depoimentos, a CPI da pandemia já indicou uma ampla lista de equívocos da cúpula política do governo Bolsonaro além de ações e omissões do governo federal que possibilitaram o agravamento da emergência sanitária. Assim, somente com a identificação dos erros e a responsabilização dos culpados pela tragédia humanitária, o Brasil conseguirá colocar fim à pandemia e iniciar o processo de retomada do emprego e de enfrentamento dos problemas sociais.

Frase do dia 16 de maio de 2021

“Não venci todas as vezes que lutei, mas perdi todas as vezes que deixei de lutar”

Cecília Meireles (1901-1964)

Referências

ALVES, JED. Diário da Covid-19: Na contramão da queda global, mortes sobem no Brasil, #Colabora, 14/02/2021

HECKSHER, Marcos. Mortalidade por covid-19 e queda do emprego no Brasil e no mundo, Nota Técnica, IPEA, maio 2021

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. É professor e pesquisador independente. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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