Crise do clima tornou tempestade de Recife mais intensa

Áreas afetadas pela chuva na Região Metropolitana do Recife em maio: intensidade maior com crise do clima (Foto: Clauber Cleber Caetano / Presidência da República)

Estudo mostrou que aquecimento do planeta pode ter aumentado em 20% a intensidade das chuvas que mataram mais de 130 em Pernambuco

Por Observatório do Clima | ODS 13 • Publicada em 6 de julho de 2022 - 10:29 • Atualizada em 11 de julho de 2022 - 16:04

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Áreas afetadas pela chuva na Região Metropolitana do Recife em maio: intensidade maior com crise do clima (Foto: Clauber Cleber Caetano / Presidência da República)

(Jaqueline Sordi*) – A crise climática pode ter aumentado em cerca de 20% a intensidade das tempestades que deixaram um rastro de mortes e destruição em Pernambuco e Estados vizinhos em maio deste ano ocorram. Na ocasião, mais de 130 pessoas morreram e 25 mil ficaram desabrigadas depois de dias intensos de chuvas, enchentes e deslizamentos, no que se tornou a maior catástrofe climática dos últimos 50 anos na região. Os dados são do primeiro estudo de atribuição feito pela World Weather Attribution (WWA) – uma rede internacional de cientistas climáticos – no Brasil.

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Realizada em parceria com pesquisadores brasileiros e divulgada nesta terça-feira (5/7), a publicação destacou ainda que a vulnerabilidade da região contribuiu significativamente para o grande impacto do evento climático, e que os resultados soam um alerta para que os mecanismos de prevenção e adaptação sejam aprimorados.

Para chegar a esses resultados, os pesquisadores utilizaram uma metodologia relativamente nova, que vêm sendo usada para entender a influência do aquecimento global na intensidade e frequência de eventos extremos específicos, como tempestades e ondas de calor, a partir da análise climática e socioeconômica da zona atingida. Os estudos de atribuição montam modelos climáticos a partir de registros históricos da região analisada, então fazem simulações para estimar a ocorrência e intensidade de novos eventos extremos em um mundo com temperaturas semelhantes às da era pré-industrial e também no cenário de um planeta 1,2° mais quente, como é o atual.

“Depois de avaliar os impactos, detalhamos também quais regiões foram afetadas, qual o nível de danos e perdas, e a partir daí tentamos entender quais aspectos desse evento estão ligados com esses impactos”, explica a climatóloga alemã Friederike Otto, pesquisadora do Environmental Change Institute, na Universidade de Oxford, e uma das líderes do WWA.

Essa segunda etapa do estudo, que traz um olhar social e econômico, permite identificar alguns dos principais pontos de vulnerabilidade da região. Recife, a capital de Pernambuco, foi uma das cidades mais atingidas pelas chuvas e é também a mais ameaçada no Brasil pelas mudanças climáticas, de acordo com o último relatório do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC). Apesar de a cidade já ter estado na vanguarda ao ser a primeira capital a reconhecer a crise climática, em 2019, e ter um plano de adaptação detalhado (que até hoje não saiu integralmente do papel), os pesquisadores identificaram alguns pontos críticos, que contribuíram para o elevado número de mortos e desabrigados.

“Praticamente todas as construções de Recife são, de certa forma, arriscadas. A vulnerabilidade da região é muito alta. O problema existe e não é de hoje”, comentou Edvânia Pereira dos Santos, climatologista da Agência Pernambucana de Águas e Climas (APAC) e uma das autoras do estudo.

Os pesquisadores destacaram que a expansão urbana em áreas de risco, as construções feitas sem padrões de segurança e os problemas de drenagem, insuficientes em algumas regiões, agravam o problema. Em entrevista coletiva, comentaram ainda sobre a falta de percepção da população em relação a situações de risco. De acordo com os autores do estudo, as chuvas intensas haviam sido previstas e os sistemas de alerta implementados por órgãos federais, estaduais e municipais emitiram avisos à população:

“Não é que os avisos não chegaram, é que não houve 100% de resposta em torno de uma ação de evacuação. As pessoas muitas vezes desacreditam nesses alertas. Os avisos chegam, mas a população muitas vezes não reage, e essa é uma das razões para os impactos tão grandes. Falta também saber o que fazer. Para onde eu vou? É preciso aprimorar os treinamentos com a população”, comenta Alexandre Köberle, do Imperial College de Londres, que também participou do estudo.

Desde o final da semana passada, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) tem emitido novos alertas de perigo por causa das chuvas que voltaram a atingir Alagoas, Pernambuco e Rio Grande do Norte com potencial de provocar novos alagamentos, deslizamentos de encostas e transbordamentos de rios. Até o momento, pelo menos oito pessoas morreram. “A cada fração de grau que o planeta aquece esses eventos se tornam mais e mais frequentes”, alertou Köberle.

*Jaqueline Sordi é jornalista e coordenadora-adjunta de comunicação do Observatório do Clima

Observatório do Clima

O Observatório do Clima é uma rede que reúne entidades da sociedade civil para discutir a questão das mudanças climáticas no contexto brasileiro.

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