Como deixar as pegadas de carbono leves ao viajar

De acordo com a revista científica Nature Climate Change, as viagens aéreas foram responsáveis por 8% das emissões de gases de efeito estufa entre 2009 e 2013. Foto Paul Ellis/AFP

Companhias aéreas, hotéis e destinos turísticos em todo o mundo se comprometem cada vez mais a neutralizar as emissões de CO2

Por Carla Lencastre | ODS 9 • Publicada em 14 de janeiro de 2021 - 08:46 • Atualizada em 30 de janeiro de 2021 - 21:45

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De acordo com a revista científica Nature Climate Change, as viagens aéreas foram responsáveis por 8% das emissões de gases de efeito estufa entre 2009 e 2013. Foto Paul Ellis/AFP

A pandemia teve um impacto mínimo nas emissões de dióxido de carbono (CO2) em 2020. Boletim recente sobre emissão de gases de efeito estufa da Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da ONU, mostra que a concentração de carbono na atmosfera continua aumentando. Assim como a temperatura da Terra: a OMM deve confirmar o recorde de 54,4 graus Celsius marcado em agosto de 2020 no deserto do Vale da Morte, na Califórnia.

Quando se trata de pegadas de carbono, o setor de viagens e turismo pisa forte, principalmente por conta do transporte. A revista científica Nature Climate Change divulgou em 2018 que viagens foram responsáveis por 8% das emissões de gases de efeito estufa entre 2009 e 2013. A boa notícia para 2021: há mais empresas e lugares comprometidos em reduzir pegadas de carbono e neutralizá-las, e, também, novas ferramentas para compensá-las.

Em abril do ano passado as emissões globais até diminuíram 17% em relação a 2019, segundo a mesma Nature Climate Change. Mas o recuo, ainda que sem precedentes, não reflete mudanças estruturais. O efeito na questão climática é mínimo. A redução se deveu à desaceleração industrial em função da covid-19, ao menor uso de energia elétrica e, o mais significativo, às restrições à mobilidade em todo o mundo.

Como o setor de viagens pode pisar mais leve? Da mesma maneira que outros setores. É preciso medir as pegadas diretas e indiretas e, no mundo ideal, da rede de fornecedores; reduzir o uso de combustíveis fósseis e compensar as emissões restantes. Ou seja, comprar créditos de carbono em projetos de reflorestamento e preservação de florestas, que removem o CO2 da atmosfera, ou de produção de energia limpa, como a eólica e a solar. Se o programa para neutralizar carbono gerar emprego e proteger comunidades vulneráveis, melhor ainda.

Aviação: empresas e passageiros podem compensar carbono

A meta das companhias aéreas é cortar pela metade as emissões até 2050, tendo como base o ano de 2005. No final de 2020, a Iata (International Air Transport Association) lançou uma ferramenta pela qual a compensação pode ser feita em tempo real. Chamada de ACE (Aviation Carbon Exchange), a plataforma facilita o pagamento e a entrega dos créditos de carbono. A primeira transação foi da americana Jet Blue, que investiu em um parque eólico em desenvolvimento na República Dominicana. Além de energia renovável, na ACE há créditos em projetos certificados de reflorestamento e de proteção de ecossistemas.

Independentemente da ACE, companhias aéreas cada vez mais oferecem compensação de carbono para passageiros e para empresas que usam seus serviços de carga. A Qatar Airways, por exemplo, lançou no final de 2020 um programa voluntário para que viajantes compensem as emissões do voo no momento de emissão do bilhete. O programa é uma parceria com a Iata e a empresa britânica ClimateCare, e as contribuições irão para fazendas eólicas na Índia.

O passageiro também pode tomar a iniciativa. Outra novidade surgida no final do ano é o aplicativo Aerial Climate Action. O app calcula o carbono emitido por voos, viagens de trem e trajetos feitos de táxi ou uber com base em tíquetes ou recibos emitidos, inclusive retroativamente, e oferece a opção de compensar. Por enquanto, o único projeto é um de preservação de florestas na Califórnia. Mas há planos de ampliar o portfólio.

Em Londres, ativistas do movimento Extinction Rebellion (XR) protestam contra as emissões de carbono do setor de aviação. Foto David Cliff/NurPhoto. Outubro/2019
Em Londres, ativistas do movimento Extinction Rebellion (XR) protestam contra as emissões de carbono do setor de aviação. Foto David Cliff/NurPhoto. Outubro/2019

Hotelaria: dos conhecidos painéis solares ao carbono azul

A clássica marca americana de luxo Waldorf Astoria, do gigantesco grupo Hilton (mais de 6.300 hotéis em 118 países, incluindo o Brasil), anunciou no final de 2020 metas ambiciosas.

“Para 2030, o objetivo é neutralizar todas as pegadas de carbono. Sustentabilidade é tão importante quanto excelência em serviço”, disse Dino Michael, chefe global da Waldorf Astoria (hoje com 32 hotéis em 15 países) durante o International Travel Luxury Market (ILTM), a maior feira de viagens de luxo do mundo, realizada virtualmente em dezembro.

Assim como as outras 17 marcas do grupo Hilton, Waldorf Astoria tem programas para reduzir as emissões de CO2 e incentivar a eficiência energética de suas propriedades, incluindo treinamento de funcionários. O Rome Cavalieri, hotel Waldorf Astoria em Roma, pretende ser carbono neutro e livre de plástico de uso único. Foi o primeiro da capital italiana a conquistar em 2020 a certificação global Green Key. É um dos poucos selos para que os viajantes confiram se um hotel está levando a sério o compromisso de reduzir emissões.

Recentemente começaram a surgir novos programas de carbono azul, que capturam CO2 em áreas marinhas e litorâneas, como manguezais. O grupo espanhol Iberostar quer reduzir suas emissões em 75% até 2030 em todos os empreendimentos. Por ter 80% dos seus hotéis à beira-mar, inclusive no Brasil, a empresa anunciou no final de 2020 que busca soluções de carbono azul em destinos como México, Cuba e República Dominicana.

No Oceano Índico, as Maldivas, país insular dos mais afetados pelas mudanças climáticas e onde o turismo corresponde a cerca de um terço do PIB, há muitos bons exemplos de compensação de carbono pela hotelaria. O Soneva, com dois hotéis e um iate nas Maldivas e um hotel na Tailândia, tem um histórico de mais de duas décadas de sustentabilidade e hoje é 100% carbono neutro. O grupo de luxo faz algo ainda raro no segmento: descarboniza toda a operação, incluindo emissões de terceiros, como as dos voos dos hóspedes. Já o Kudadoo Maldives, inaugurado em 2018 e premiado pela revista HD com o Hospitality Design Award de Resort Sustentável, foi projetado para usar somente energia solar, e adota outras medidas para diminuir as emissões, como dessalinizar a água do mar em uma ilha vizinha.

Destinos: se é bom para o morador, é bom para o turista

Copenhague brilha na lista de seis melhores destinos sustentáveis para visitar em 2021 da National Geographic Travel. A capital da Dinamarca foi selecionada em função da ambiciosa meta de se tornar neutra em carbono já em 2025. Ou seja, compensará as emissões em transporte, eletricidade, aquecimento e refrigeração. Se o objetivo for alcançado, provavelmente será a primeira capital a compensar todas as emissões. O plano da cidade, com cerca de 2 milhões de habitantes na área metropolitana, inclui a criação de novos empregos.

Entre as medidas estão usinas de processamento de lixo não reciclável que produzem energia limpa e aquecem a capital, e visitantes podem passear pelos canais de Copenhague em barcos movidos a energia solar. Na hora de escolher onde se hospedar, 70% dos hotéis têm algum tipo de certificação de sustentabilidade. De 2005 a 2019 a redução das emissões na capital dinamarquesa foi de 42%, segundo a Carbon Neutral Cities Alliance (CNCA). Para dar uma ideia da ousadia de Copenhague, as vizinhas Estocolmo, na Suécia, e Helsinki, na Finlândia, pretendem ser carbono neutras em 2040 e 2035, respectivamente.

A CNCA reúne 22 cidades em todo o mundo, incluindo Rio de Janeiro, para trocar experiências de neutralização de carbono. O Rio pretende ser carbono neutro em 2050. Não estamos sozinhos no objetivo pouco ambicioso. Washington também só deve alcançar a meta em 2050. Nova York estima chegar a 2050 com 80% menos emissões em relação a 2005.

Já Denver, que também aparece na lista da National Geographic Travel, quer atingir 100% de energia renovável até 2030. Entre outras iniciativas, a cidade do Colorado com cerca de 3 milhões de habitantes na área metropolitana e dezenas de cervejarias artesanais está instalando jardins solares em estacionamentos e terraços. Além de energia renovável para prédios públicos e bairros de baixa renda, os jardins geram empregos. A adoção de medidas para lidar com a questão climática produzindo prosperidade econômica e justiça social foi uma das razões para que Denver recebesse o prestigioso selo Leed Platinum, certificação de sustentabilidade cobiçada na área de construção civil.

Do outro lado do mundo, Palau, formado por centenas de ilhas na Oceania, apresentou no segundo semestre de 2020 um projeto para se tornar “o primeiro destino turístico carbono neutro do mundo”. O arquipélago de apenas 22 mil habitantes é extremamente vulnerável às consequências das mudanças climáticas, já que mais de um quarto do país está a menos de 10 metros acima do nível do mar. Em 2019 Palau recebeu 89 mil visitantes. Os planos incluem incentivos para que hotéis e restaurantes priorizem ingredientes locais, e uma ferramenta para turistas calcularem e compensarem suas pegadas. O dinheiro arrecado será investido em iniciativas como recuperação de manguezais e produção local de alimentos.

“Turismo sustentável é o único caminho a seguir na nova era das viagens. Acreditamos que Palau pode e deve ser carbono neutro”, disse o diretor de Turismo, Kevin Mesebeluu.

Empresas e destinos devem ser transparentes nas medidas para reduzir os efeitos das mudanças climáticas. Viajantes precisam ficar atentos a quem está fazendo a transição para uma economia sustentável de baixo carbono e levar isso em conta na hora de fazer escolhas.

Carla Lencastre

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou por mais de 20 anos na redação do jornal O Globo nas áreas de Comportamento, Cultura, Educação e Turismo. Editou a revista e o site Boa Viagem O Globo por uma década. Anda pelo Brasil e pelo mundo em busca de boas histórias desde sempre. Especializada em Turismo, tem vários prêmios no setor e é colunista do portal Panrotas. Desde 2015 escreve para diversas publicações, entre elas o #Colabora e O Globo. É carioca de mar e bar. Gosta de dias nublados. Ama viajar e incentivar os outros a pegar a estrada. Está no Instagram e no Twitter em @CarlaLencastre 

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